"Esqueceram de emancipar o Norte"
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de agosto de 1998
Patrícia Zanin 
Folha - Que participação o senhor teve nesse apoio do PSDB de Londrina a Lerner?
Moreira - Eu estava notando o PSDB de Londrina muito apático. Alguns me procuraram e eu perguntei: mas vocês não vão montar nada nem para o presidente Fernando Henrique? Se não forem, desistam de ser PSDB. Tentaram costurar via diretório, não foi nem votado e me procuraram novamente. Como o diretório do PSDB do Paraná decidiu que todos os membros do partido podem apoiar quem bem entenderem, eu já tinha local e disse: arrumo o local, água e energia. Agora o resto é com vocês. Esse comitê será do FHC e de quem apóia o FHC, aí envolve o Álvaro, o Lerner, os deputados que estão realmente na campanha de FHC. Não daria para apoiar dois. Até gosto do Requião, mas para mim ele não foi feliz na aliança. Se saísse sem aliança, talvez tivesse melhor resultado.
Folha - Não fosse a aliança com o PT e o PDT o senhor acha que tucanos de Londrina poderiam apoiar o Requião?
Moreira - Não sei.
Folha - O senhor, pessoalmente?
Moreira - É tarde agora para a gente decidir. Já fiz a escolha.
Folha - E esse apoio ao Lerner, deve-se a quê?
Moreira - À expectativa de maior desenvolvimento de Londrina e do Norte do Estado. Temos urgência na liberação dos recursos para reforma e ampliação do Hospital Universitário e também em relação aos plantonistas do hospital. Essas duas reivindicações ele disse que pode cumprir já. As outras, esperamos que ele faça ao longo de seu governo, como se comprometeu.
Folha - Que leitura o senhor faz hoje do Norte do Paraná?
Moreira - Acho que o Norte teve realmente um desenvolvimento muito bom na década de 40, 50. Em meados de 60 para cá o Norte do Paraná começou a diminuir de ritmo. Diria que durante duas décadas e meia nós desenvolvemos muito. Depois fomos reduzindo o ritmo e hoje eu ainda vejo o Norte do Paraná com um pouco de tristeza. Há poucos dias eu conversava com o Jaime Lerner aqui e dizia para ele: governador, eu tenho a impressão que as lideranças do Paraná esqueceram de emancipar o Norte como província de São Paulo. Acho que vamos demorar para recuperar esse ritmo. Isso não significa que eu seja pessimista. Eu sou até otimista, mas as coisas não mudam de uma hora para outra.
Folha - Esse governo então poderia ter feito muito mais do que fez, especialmente para o Norte?
Moreira - Eu, na verdade, acho que o Lerner poderia ter feito mais pelo Norte. Ainda dá tempo. Dá tempo. Progrediu muito, mas poderia e deveria fazer mais por essa região. O Paraná deve muito ao Norte. Há uma crítica conhecida em todo lugar a respeito do governador e eu acho que essa crítica tem valor.
Folha - A crítica de que Lerner governa mais para Curitiba e região metropolitana?
Moreira - É. O que acontece com o Lerner é que ele não conseguiu se identificar muito bem com os problemas do interior. É também uma questão de identificação com o interior. Ele, como urbanista, tendo sido prefeito diversas vezes, já percebe longe os problemas. Mas o interior é diferente. Precisaria ter características de pé vermelho.
Folha - E a vice-governadora Emília Belinati, não cumpre esse papel?
Moreira - Acho que a Emília neste aspecto é muito dócil. Ela não põe o governador na parede. Talvez até por necessidade.
Folha - Os outros governos foram melhores para Londrina?
Moreira - Na verdade, Londrina não pode reclamar do Richa nem do Álvaro. Mas o último governador fora de Londrina que pensou no Norte foi Bento Munhoz da Rocha. O primeiro asfalto no Estado do Paraná foi entre Londrina e Rolândia. Nem Santa Felicidade tinha asfalto ligando de Curitiba até lá.
Folha - E o governo Requião?
Moreira - Bom, ele atendeu, continuou atendendo, não poderia reclamar. Os compromissos que os outros assumiram ele continuou atendendo. Talvez não tenhamos exigido muito mais dele. O que sinto, de modo geral, é que os problemas do Norte foram sendo postergados. Parece, para nós, do Norte, que a capital econômica ainda continua sendo São Paulo. Falta integração.
Folha - Voltando ao governador Lerner. O senhor tem tido muito contato com ele?
Moreira - Eu tenho conversado com ele rapidamente, sem aprofundar. Mas às vezes pego o telefone. Essa questão do pedágio eu um dia peguei o telefone, chamei. Ele não estava. anotaram lá e ele me ligou quatro dias depois, mas ligou, né? Disse: governador: eu estou preocupado com esse seu pedágio. O senhor está falando em implantá-lo exatamente em início de colheita, no início de safra e o pedágio será pago na ida e na volta. É um momento político até ruim para o senhor. Dá uma estudada nisso. Também foi só. Outra vez eu disse a ele: olha, governador, às vezes eu tenho uma sensação, mas não acontece só consigo não, acontece com qualquer governante. Quando vai para o interior, e eu já lhe disse que é bom visitar o interior para conhecer os problemas, chega lá e se rodeia com os seus puxa-sacos e esquece de quem paga a conta. São todas as classes produtoras, de todos os níveis. Que tal o senhor pedir aos puxa-sacos para lhe dar um tempo?
Folha - O senhor é contra o pedágio?
Moreira - Não, ele é necessário, mas não usar o pedágio para a firma se capitalizar e depois fazer a obra. O que sinto é o seguinte: a firma faz o investimento e depois pega o retorno de seu investimento com o pedágio. Aqui está acontecendo o contrário.
Folha - E a privatização do Banestado?
Moreira - Sou favorável. Os governos deveriam cuidar da segurança, da saúde e da educação, e assim mesmo, mais no controle das regras. Nem nessas áreas se eliminaria o setor privado. O Banestado poderá ser um banco misto, mas o governo não precisaria nem ser o sócio majoritário. Cuidaria do resto.
Folha - Como o senhor sente essa fase de redirecionamento dos investimentos no Estado, principalmente com a industrialização?
Moreira - É positivo. É uma fase em função principalmente de que houve realmente vontade de atrair capitais, um novo crédito em termos de investimento no Brasil. É o caso da indústria automobilística. Houve um sentimento do industrial dos grandes centros de sair desses locais, como é o caso de São Paulo. Agora precisa garantir infra-estrutura porque a indústria vai precisar ter também mercado, mercado também local. Diria também que já que estimulamos a grande indústria, precisamos também estimular as de fundo de quintal. Por que o poder público não apóia também a pequena e as que já estão aqui? É preciso repartir um pouco.
Belinati melhorou a maneira
de administrar. E tem sorte


