Especialistas apostam em reforma política
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sexta-feira, 05 de outubro de 2007
Moacir Assunção e Elizabeth Lopes<br>Agência Estado 
São Paulo - A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre fidelidade partidária pode levar o Congresso a, enfim, promover a reforma política que vem sendo tentada há tempo, mas não chega a lugar algum. Juristas e cientistas políticos enxergam na situação uma demonstração da extrema fragilidade do Legislativo, por conta dos muitos escândalos que viveu, e da hipertrofia do Executivo. Para eles, isso acaba tendo repercussão no Judiciário, que se vê obrigado a responder a demandas dos demais Poderes, com interpretações legais fronteiriças à usurpação de funções.
''O que ocorre é que o Legislativo não está legislando e o Executivo tem usurpado o poder do Congresso'', analisa o presidente da Comissão de Direito Constitucional da secção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Antonio Carlos Rodrigues do Amaral. ''Como não há vácuo no poder, o rescaldo desta situação tem batido no Judiciário, que está funcionando como uma espécie de bombeiro do sistema, quando todas as outras instituições se omitiram.''
Em nota, o presidente nacional da OAB, Cezar Britto, avalia que a decisão do STF é um passo no sentido da reforma política. ''Coube ao Judiciário deflagrá-la, provocado por setores do Legislativo, que agora têm o dever de dar continuidade a esse processo, pondo em debate as diversas propostas que tramitam na Câmara e no Senado.''
O jurista Ives Gandra Martins considera que desde o episódio do mensalão, o Legislativo tornou-se um Poder alquebrado, extremamente enfraquecido. Com isso, o Judiciário passou a cumprir uma função mais ativa. ''Temos hoje um Supremo com perfil bem menos conservador do que há dez anos, com a entrada de sete novos ministros no governo Lula. O Congresso, por outro lado, perdeu muito do seu perfil de Casa produtora de leis e fiscalizadora do Executivo'', disse.
Na sua avaliação, a ação mais ativa do Judiciário - originalmente prevista na Constituição, com o mandado de injunção e a ação direta de inconstitucionalidade - ocorre por culpa do próprio Legislativo. ''Estou convencido de que o STF hoje está compreendendo sua função de poder supletivo até que o Congresso volte a ser um legislador positivo.''
A professora de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Maria Vitória Benevides, considerou a decisão do Supremo ''um detonador do processo de reforma política''.
Relator de uma reforma política que não andou no Congresso, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) comemorou a decisão. ''Foi um puxão de orelhas que o Judiciário deu no Legislativo, que tem sido extremamente submisso ao Executivo.''
Voz dissonante, o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer, considera preocupante a intromissão de um Poder na seara de outro. ''Vivemos em um regime republicano de divisão de Poderes e elaborar leis é papel do Legislativo que, no entanto, tem se mostrado omisso. A verticalização das alianças regionais, tempos atrás, já foi uma intromissão do Judiciário no Legislativo'', comentou.


