Especialistas alertam para perigo de acordo com presos
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quarta-feira, 02 de agosto de 2006
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
A provável intermediação de autoridades públicas no acordo que ordenou o cessar-fogo entre gangues rivais da Rua Pantanal e do Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste) pode abrir um precendente perigoso e, no futuro, até mesmo colocar em pane o sistema carcerário de Londrina.
A posição foi defendida ontem por profissionais que atuam no direito criminal em Londrina, do Judiciário ao Ministério Público (MP). A referência é a reunião feita entre presos da Casa de Custódia da cidade (CCL), no sábado passado, e que decidiu por uma trégua nos ataques constantes entre membros das duas comunidades. Antes de um diretor da CCL afirmar que ele próprio autorizara a reunião (leia mais na Folha Cidades), o vereador Sidney de Souza (PTB) se colocara no papel de intermdiador da notícia transmitida no mesmo dia à população do local.
Na reabertura do semestre legislativo, anteontem, Souza anunciou a desistência do projeto de sua autoria que previa a desapropriação das mais de 40 casas da Pantanal. Na ocasião, o parlamentar ainda aproveitou para criticar o governo e a suposta inatividade da sociedade civil organizada em resolver o problema na região. Completou defendendo que ''a paz passa por aqueles que estão presos'', para concluir: pensar que a aceitação de um acordo feito nessas bases representa uma inversão de valores seria o mesmo que defender ''pseudovalores morais''.
O promotor da Vara de Execuções Penais (VEP) de Londrina, Francisco Soares Dias Filho, preferiu não comentar essa situação específica por não conhecer os termos do acordo. Entretanto, fez um alerta: permitir que a negociação de presos afete a vida externa à cadeia pode ser ''extremamente perigoso''.
''Quando ocorrem rebeliões ou algum tipo de greve entre os detentos, as autoridades sempre deixam claro que são elas quem comandam a situação. Intermediar algo que vá contra isso deveria ser substituído, por exemplo, pela cobrança de mais policiamento em determinada localidade'', avaliou Dias Filho.
Responsável pela 1 Vara Criminal de Londrina, o juiz João Luiz Clève Machado é taxativo: ''Se bandido não respeita a lei, como vai respeitar um acordo feito entre eles próprios?'' Pelos cálculos do magistrado, só de sentenças dele são pelo menos 10 criminosos das duas áreas rivais cumprindo pena no sistema carcerário londrinense.
''É válida a iniciativa de tentar pacificar a região, mas a solução ali não é acordo, é policiamento. Depois, essas pessoas voltam às ruas e começam tudo de novo - por isso é necessário a sociedade se unir e cobrar uma solução'', afirmou Machado, para completar: ''Negociar com bandido é temerário, pois todo o sistema prisional pode entrar em pane'', advertiu o juiz, comparando que a situação ao suposto acordo entre autoridades da segurança pública de São Paulo com líderes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), presos, mas que comandaram dezenas de ataques à sociedade. Ali, o acordo teria ocorrido, como em Londrina, em prol de um cessar-fogo.


