A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 18/2025, chamada de PEC da Segurança Pública, pode representar um avanço no combate ao crime organizado no Brasil, mas o momento em que o texto está sendo debatido é “inoportuno”. Essa é a avaliação do professor e doutor em Ciências Sociais da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) Cezar Bueno de Lima. A proposta também não é consenso entre parlamentares ouvidos pela FOLHA.

A proposta foi enviada ao Congresso Nacional em abril de 2025 e articulada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski. Uma das principais mudanças é conferir status constitucional ao SUSP (Sistema Único de Segurança Pública), instituído em 2018 por lei ordinária. Na prática, a PEC amplia o papel do governo federal ao estabelecer diretrizes para a política nacional de segurança pública.

A medida é uma das apostas do governo Lula (PT) para enfrentar o crime organizado e ganhou espaço no debate nacional após a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que terminou com 121 mortos, incluindo quatro policiais.

Para Lima, discutir uma proposta dessa dimensão logo após um evento como a operação no Rio não é adequado, pois o tema exige serenidade e debate aprofundado. Ele recorda que a expansão das facções criminosas — especialmente após o Massacre do Carandiru, em 1992 — é um problema histórico e estrutural no país.

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“Temos mais de 50 facções criminosas operando o que chamamos de indústria do controle do crime. Essas facções funcionam como empresas: têm donos, divisão de trabalho e diversificação de produtos, todos ilegais. Para resolver uma situação como essa, é preciso discutir em momentos de normalidade, com muita racionalidade, técnica e ampla participação dos entes envolvidos”, afirma o professor, que vê a PEC como “uma proposta boa”.

O governo federal pretende atualizar as competências da PRF (Polícia Rodoviária Federal) — que passará a realizar o policiamento ostensivo em rodovias, ferrovias e hidrovias — e da PF (Polícia Federal), que poderá atuar em crimes ambientais e no enfrentamento de organizações criminosas e milícias privadas.

O Ministério da Justiça alterou a redação da PEC para reforçar que a União não pretende invadir prerrogativas dos governos estaduais — ponto que vinha sendo criticado por governadores. O texto agora deixa claro que as competências federais “não excluem as competências comuns e concorrentes dos demais entes federativos relativas à segurança pública e à defesa social”.

“Em que pese esse evento trágico, estamos a um ano das eleições. É muito difícil convencer o Congresso diante da polarização política que está dada. Neste momento, é muito difícil fazer avançar essa proposta de integração da política de segurança pública e de criação de um sistema único. É uma ideia interessante, mas que exige consonância e consenso”, completa Lima. “Não podemos oferecer uma resposta simples para um problema estrutural muito grave, que é a crise da segurança pública no Brasil.”

DEPUTADOS DIVERGEM

A deputada federal Lenir de Assis (PT) defende um novo modelo de segurança pública, voltado ao enfrentamento das causas da violência e à valorização dos profissionais da área. Para ela, a proposta do governo Lula constrói “uma política nacional integrada, com planejamento, coordenação, inteligência e responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios”. “Se já tivéssemos aprovado esta PEC proposta pelo presidente Lula, poderíamos ter evitado a tragédia no Rio de Janeiro. Esta votação está sendo travada por parlamentares da extrema direita, descompromissados com a segurança, que transformam o caos e a insegurança em palanque político, impedindo que medidas estruturais sejam implementadas”, afirma a petista.

O deputado federal Luiz Carlos Hauly (Podemos) afirmou que o presidente “sempre teve uma visão esquizofrênica acerca da segurança pública”, criticando falas recentes de Lula. “Quando o presidente quer tirar da cartola a PEC da Segurança Pública, não significa que ele vai combater o crime organizado. Ele quer imprimir urgência a esse projeto por dois motivos: primeiro, porque ele precisa usar essa PEC na eleição de 2026; segundo, porque os governadores firmaram no Rio um pacto de cooperação mútua, independente do governo federal que se recusou a participar da operação no Morro do Alemão”, dispara Hauly. O acordo entre os governadores foi fechado na quinta-feira (30), seis meses após a PEC ser protocolada.

Outro crítico da proposta é o deputado federal Filipe Barros (PL). “O texto apresentado pelo PT não classifica as facções criminosas como organizações terroristas – que é a verdadeira prioridade cobrada pela população. Além disso, ao deixar na mão do governo Lula a criação de diretrizes de segurança, a proposta dá brecha para a raposa cuidar do galinheiro.”

A deputada federal Luísa Canziani (PSD) entende que o debate sobre o tema é importante, mas frisa que “não há solução simples” e que “a construção é complexa e exige esforço, diálogo, união e criatividade". “Acredito que o texto apresentado pelo governo tem que passar por ajustes, principalmente, na questão que retira autonomia dos Estados e das polícias estaduais até mesmo porque eles são os responsáveis pela maior parte do financiamento da segurança. Além disso, cada Estado tem as suas particularidades e acredito que devem continuar a ter autonomia para definir a melhor política pública”, pontua.

O deputado federal Diego Garcia (Republicanos) foi procurado, mas não se manifestou sobre o texto.

DISPUTA POLÍTICA

O analista político e professor de ética e filosofia política da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Elve Cenci avalia que há um problema concreto e grave de segurança pública no Rio de Janeiro, com o crime organizado disputando o controle das periferias com as milícias. Ele entende, contudo, que o debate sobre a megaoperação e as políticas de segurança fica em segundo plano diante da disputa de narrativas com foco em 2026.

“Ou seja, o episódio do Rio de Janeiro está se tornando a nova frente política da disputa eleitoral do ano que vem”, afirma Cenci, que lembra que o governo Lula acabou se beneficiando politicamente do episódio do tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil. “As pesquisas de popularidade indicam que, nas últimas semanas, a oposição estava completamente perdida, enquanto o governo voava em céu de brigadeiro.”

De acordo com Cenci, a “tragédia do Rio”, como ele classifica a ação que terminou com 121 mortos, “trouxe trovoadas a esse cenário”. “A oposição está tentando transferir para o governo federal o ônus do que aconteceu no Rio. Mesmo com os desmentidos, a versão de quem tem culpa é que prevalece. Em segundo lugar, os governadores que são pré-candidatos à Presidência parecem unidos na busca por capitalizar o momento e desgastar Lula”, acrescenta.

Um estudo da Escola de Comunicação da FGV (Fundação Getulio Vargas) aponta que, após a megaoperação, a direita conseguiu se reorganizar digitalmente em torno das pautas da segurança pública e do combate ao tráfico de drogas — áreas que ganharam destaque após sucessivas derrotas discursivas em temas antes favoráveis, como economia e nacionalismo. Entre 0h de terça-feira (28) e 12h de quarta (29), cerca de 1,92 milhão de publicações no X (antigo Twitter), Facebook, Instagram, YouTube e sites de notícia repercutiram o tema, que resultou em mais de 60 milhões de interações digitais e mais de 500 mil buscas sobre o estado no Google.

O analista observa que a segurança pública sempre foi um tema delicado para a esquerda e que há dificuldade do governo federal em se posicionar “diante dos fatos e das versões”. A aposta tem sido aprovar a PEC da Segurança Pública.

“Para aprovar essa medida, no entanto, o governo precisa do apoio do Congresso. E o Congresso é, atualmente, dominado pelo Centrão. Resta saber se, nesse momento, o Centrão quer beneficiar ou prejudicar o governo. A posição do Centrão oscilará para um lado ou para o outro, dependendo da opinião pública e de seus interesses para 2026”, conclui Cenci.

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