Especialista analisa favoritismo de Lula
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sábado, 02 de setembro de 2006
Andréa Barros e Mônica Manir<br> Agência Estado 
São Paulo - Ainda que o ritmo de crescimento da economia brasileira continue caindo, ainda que o ex-ministro da Saúde de seu governo tenha sido indiciado por corrupção no caso dos sanguessugas, ainda que se recuse a ocupar a cadeira que lhe é reservada nos debates, ainda que, ainda que... só deu ele. A um mês das eleições para presidente, Luiz Inácio Lula da Silva coleciona a dianteira em todas as pesquisas de intenção de voto - Estado/Ibope, Datafolha, CNT/Sensus, Vox Populi e TV Globo/Ibope - , apesar de, na última, ter tido uma queda de 1% na simulação de primeiro turno e de 3% na de segundo. Todas elas apontam, porém, que Lula ganharia no primeiro turno, se o pleito fosse hoje.
Até agora não há escândalo ou denúncia que consiga trincar sua imagem. É como se Lula estivesse envolvido por uma película de politetrafluoretileno - aquela que não deixa a comida grudar na panela. Pelo menos por enquanto, tem escapado pelas bordas das sujeiras relacionadas ao PT ou ao seu governo. ''Quantos presidentes chegariam aonde estamos hoje, com a aceitação que temos hoje, depois que passamos por tudo isso?'', questionou o próprio chefe da Nação na segunda-feira passada, em um encontro com intelectuais em São Paulo. Sem negar a existência do mensalão, Lula completou: ''Todo mundo achou que nós tínhamos acabado. Mas ressurgimos mais fortes do que nascemos''. Como se explica esse efeito fênix? E o efeito teflon?
A reportagem convidou Bolívar Lamounier, doutor em Ciência Política pela Universidade da Califórnia, que presidiu o Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp), para refletir sobre esse favoritismo do candidato-presidente.
Sobre o dinheiro público
''Limito-me a constatar que o governo desfruta de índices de aprovação elevados, não quero discutir se ele foi de fato bom ou mau. Os elevados índices e a força de Lula entre as camadas de baixa renda comportam explicações objetivas. De um lado, o momento positivo que a economia brasileira vem atravessando - graças à estabilidade conquistada no governo anterior e a um ambiente internacional excepcionalmente favorável. De outro, o Bolsa-Família, por meio do qual Lula tornou praticamente cativo o eleitorado pobre do Nordeste. Não vem ao caso discutir aqui os pontos positivos e negativos do Bolsa-Família como programa de política social, o registro a fazer é que Lula o transformou no maior cabo eleitoral da história da República - com dinheiro público, obviamente.''
Eleição (des)plebiscitária
''À primeira vista a eleição é plebiscitária, mas vamos ver isso com mais cuidado. A possibilidade da reeleição para um segundo mandato, admitida pela reforma constitucional de 1997, de fato reforça o sentido plebiscitário. Teoricamente, essa característica teria sido também reforçada pela polarização entre governo e oposição. Lula usou o rolo compressor do governo para tirar o PMDB da disputa, ficando o protagonismo limitado a ele e Alckmin, e à senadora Heloísa Helena, como possível terceira força. É lógico que estou simplificando a história real.
Culpa católica
''A expressão 'carisma' do presidente não me diz muita coisa. A meu ver os fatores decisivos são, primeiro, a capacidade de comunicação do Lula, que realimenta no povão a idéia de que ele 'é como nós'; segundo, esse clima ideológico de 'purgação de pecados sociais', a consciência culpada pela má distribuição da renda e da riqueza no Brasil, criado principalmente pela Igreja Católica. De umas três décadas para cá, o bordão tem sido esse, não obstante o seu simplório anticapitalismo e sua total carência de perspectiva histórica. Por ser Lula um presidente de origem humilde e o PT um partido retoricamente identificado com os necessitados, a sociedade inteira, inclusive grande parte da classe média, lhes tem concedido o benefício da dúvida.
'Somos todos iguais'
''A identificação do eleitor com o presidente é obviamente mais forte do que com um deputado ou senador. Salvo em caso extremo, como o do Collor, é claro que os eleitores não colocariam Lula no mesmo nível dos congressistas que mandaram assessores ou esposas ao banco pegar grossos pacotes de dinheiro ''não contabilizado''. No caso de eleitores muito pobres, é ainda mais complicado. Em geral, nem tomam conhecimento das irregularidades cometidas por políticos. E, ainda que tomem, se não sabem do que vão viver no dia seguinte, é fácil compreender que se interessem por benefícios imediatos e não por ''abstrações'' políticas. Nessas condições, o discurso sincero pode não esclarecer, o insincero com certeza confunde. A estratégia de defesa de Lula foi borrar as diferenças, desde o início, quando assumiu o discurso do ''caixa 2'', ''somos todos iguais'', etc. E o que faz ele quando passa a mensagem de que ''política'', no mau sentido, é coisa de deputado, do Legislativo ?


