A decisão de regressar ao Brasil foi anunciada na manhã de ontem, assim que o presidente Fernando Henrique Cardoso soube que haveria tempo para assistir ao enterro de Luís Eduardo Magalhães, em Salvador. O presidente deixou Madri após se despedir do rei Juan Carlos I, da rainha Silvia, e do primeiro-ministro José Maria Aznar. Feitos os acertos diplomáticos, por volta das 9h30, horário local, 4h30, hora de Brasília, Fernando Henrique decidiu que decolaria às 13 horas (horário local) e iria direto para Salvador.
Após enfrentar dias de sofrimento com a morte do amigo Sérgio Motta, Fernando Henrique enfrentou mais uma noite mal dormida depois de ter, como ele mesmo relatou, chorado ao telefone, ao conversar com o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães, pai do deputado Luís Eduardo.
Passava das 2h30, hora de Madri, quando os dois se falaram e Fernando Henrique, que havia redigido uma nota lamentando o ocorrido, foi se deitar pensando em como poderia cancelar toda a programação oficial da viagem à Espanha, cujos principais compromissos oficiais aconteceriam a partir daquele dia. A demora na comunicação da morte de Luís Eduardo ao presidente se deveu ao impasse entre seus auxiliares, que temiam acordá-lo com a trágica notícia.
Como era madrugada em Madri, o presidente preferiu não anunciar o cancelamento da programação oficial, sem antes manter um contato com as autoridades locais. Precisaria, também, ter certeza de que chegaria a tempo para o enterro de Luís Eduardo.
Em uma reunião informal com alguns de seus assessores mais próximos, o presidente pediu para saber se o avião poderia estar preparado para decolar às 13 horas. Informado de que seria necessário apenas uma hora para abastecimento e preparação do plano de vôo, o presidente determinou que os procedimentos fossem iniciados e comunicou o cancelamento da programação oficial. A primeira cerimônia do dia seria a deposição de flores na túmulo dos que lutaram pela independência da Espanha, às 10 horas. Os senadores José Agripino e Lúcio Alcântara, integrantes da comitiva presidencial, já estavam no local da cerimônia quando ela foi cancelada. O presidente deveria ir ainda às cidades de Salamanca e Santiago de Compostela.
Neste momento, Fernando Henrique já se dirigia para o palácio de Zarzuela para se encontrar com o rei Juan Carlos. Antes de embarcar, o presidente pediu desculpas pelo cancelamento dos compromissos e prometeu voltar em maio para continuar a agenda preparada.
‘‘Agradeço ao governo da Espanha, por ter compreendido que não havia condições psicológicas para eu continuar aqui em neste país’’, disse o presidente, emocionado. ‘‘Eu não me senti em condições de estar aqui, sem dar um abraço direto ao povo do Brasil, ao Luís Eduardo e à família’’, justificou.
Ao seu lado, estava o ministro das Relações Exteriores espanhol, Abel Matutes, que logo depois disse que o seu governo compreendia o estado de ânimo do presidente. O ministro lembrou que a sua visita já tinha sido ameaçada, anteriormente, por causa da morte do ministro das Comunicações, Sérgio Motta. ‘‘Ante este novo falecimento, ele não está em condições de tirar dessa visita os frutos que todos esperamos’’, declarou o chanceler, acentuando que Fernando Henrique deve regressar entre os dias 18 e 20 de maio, após participar de uma exposição brasileira em Portugal.
Matutes não quis admitir que o governo espanhol estivesse frustrado. Segundo ele, foram preparadas grandes decisões que serão tomadas dentro de um mês. Matutes assegurou ainda que o regresso do presidente vai permitir melhorar as relações entre os dois países, já que o Brasil é uma das prioridades da política internacional da Espanha, nos campos de cooperação política e comercial. (AE)

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