A prática do grampo permeia a política paranaense pelo menos desde novembro de 1971. A cena, jamais confirmada oficialmente por seus protagonistas, ocorreu no Calçadão de Copacabana. O então governador biônico do Paraná, Haroldo Leon Perez, caminhava ao lado do já poderoso empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, dono da CR Almeida, que acionava o Estado na Justiça para receber adicionais contratuais pela construção da ferrovia Central do Paraná.
Leon Perez teria pedido uma generosa comissão para acelerar a liberação do pagamento. Cecílio carregava no bolso da camisa, dentro de um prosaico maço de cigarros, um potente transmissor. Perto dali, equipamento instalado num furgão com agentes do governo militar captava tudo. A conversa fora gravada e seu teor, levado ao presidente Emílio Garrastazu Médici. Pressionado, Leon Perez teve de renunciar, ou ‘‘foi renunciado’’, como se disse na época. Amargurado, deixou a política e, anos depois, voltou para Maringá, onde morreu praticamente esquecido. Entrevistado vários vezes, nunca admitiu a razão de sua renúncia. O ex-governador ainda vivia no Rio quando o empreiteiro foi procurado para comentar o assunto. Nunca negou, jamais confirmou o grampo. Limitava-se a dizer: ‘‘Não falo sobre esse senhor. Não chuto cachorro morto.’’
Em 1985, outro governador seria grampeado, por motivos que ficaram, oficialmente, desconhecidos. Instalou-se escuta telefônica no gabinete do governador José Richa, no 3º andar do Palácio Iguaçu. A suspeita de vazamento de conversas levou a segurança do governador a encomendar uma varredura. O grampo foi confirmado, os cuidados foram redobrados - hoje se usa misturador de voz -, mas os responsáveis nunca foram encontrados.
Cecílio do Rego Almeida voltou à cena em dezembro do ano passado, quando as revistas ‘‘Veja’’ e ‘‘Carta Capital’’, ao investigarem o escândalo dos grampos no BNDES, no início do processo de privatização das teles, chegaram a seu nome. Irado, ele xingou os jornalistas, bradou contra o dono da Editora Abril, Roberto Civita (são inimigos declarados), e permitiu-se um curto comentário: ‘‘Não sou do grampo, atualmente.’’
A diretoria do Banestado, em Curitiba, também foi vítima de escutas clandestinas, em novembro do ano passado. Um sistema de escuta com rádio-transmissor com alcance de 50 metros - é possível sintonizá-lo em um rádio FM - foi encontrado na sala de reunião da diretoria do banco, em Curitiba. O caso foi parar na Polícia Federal, que ainda apura as responsabilidades.
No Palácio Iguaçu e na prefeitura de Curitiba, operações de varredura chegam a ser rotina. Empresas e escritórios também se protegem, principalmente quando se trata de grandes negócios. Muitos deles usam o grampo a título de ‘prevenção’.
Em julho de 1998, com autorização da Justiça, um grampo telefônico permitiu que a cúpula da Polícia Civil de Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba, fosse afastada das funções, acusada de roubo de carros, tráfico de drogas e extorsão. Três policiais, dois informantes, quatro assaltantes e o delegado Paulo Padilha (o único que não foi preso) foram investigados no caso. No total, foram gravadas 84 fitas com conteúdos comprometedores.

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