O escândalo que resultou na denúncia de cinco vereadores londrinenses por crimes de concussão – uso do cargo público para obtenção de vantagem ilícita – e formação de quadrilha, na última quarta-feira, é sinal de que situações de ‘‘anormalidades normais’’ estão vindo à tona. Por outro lado, isso indica também uma amostra do quão prejudicial pode ser, na vida política do cidadão, a conivência da sociedade em que ele vive. A análise é do cientista político Mário Sérgio Lepre, que, em entrevista à FOLHA, falou sobre o episódio que varreu da Câmara de Vereadores a aparente tranqüilidade típica do período de recesso.
  As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Ministério Público (Gaeco) começaram a vir à tona para a opinião pública no último dia 10. Naquele dia, o vereador Henrique Barros (PMDB) foi preso em flagrante depois de receber, de empresários, R$ 9,9 mil obtidos pela aceleração e aprovação de projetos de lei de dezembro passado.
  Em depoimento, Barros admitiu a cobrança de propina e delatou outros quatro vereadores que comporiam o esquema: Osvaldo Bergamin (PMDB), Renato Araújo (PP), Flávio Vedoato (PSC) e Orlando Bonilha (PR), este, apontado por ele como suposto centralizador e distribuidor, aos demais da equipe, dos valores arrecadados de três empresários. Os quatro negaram participação e garantem que provarão a inocência à Justiça.
  A partilha e o acordo de valores – segundo o MP, R$ 47 mil teriam sido extorquidos de dezembro para cá – aconteceriam dentro da própria Câmara. Além da denúncia do Gaeco, contra os cinco edis, Barros, 29 anos e segundo mandato, acabou ainda indiciado por concussão.
  Para o cientista político, a ‘‘anormalidade anormal’’ que emerge de todo o escândalo reflete aquilo que, diz ele, pode ocorrer também no âmbito das Assembléias Legislativas (ALs) e do Congresso. ‘‘São situações que, apesar de se ouvir muito falar delas, à boca pequena, só agora estão vindo à tona. Com certeza a grande maioria das câmaras e Assembléias do País têm esse tipo de conduta; isso é muito ruim, mas revela a conivência da sociedade para com os atos das pessoas que a representam’’, avaliou.
  Lepre acredita que o fato só terá reflexos positivos na vida política da cidade, a médio ou longo prazos, se eventuais culpados forem condenados. E, segundo ele, essa decisão está longe de caber apenas à Justiça. ‘‘A Câmara tem que dar respostas, tem que abrir uma investigação pela Comissão de Ética, por dever, e analisar se houve quebra de decoro parlamentar, dentro, é claro, de todos os parâmetros legais’’, defendeu o estudioso, para completar: ‘‘Esse tipo de atitude esperada dos vereadores independe de condenação jurídica: ao menos uma solução política é esperada a algo que deixou todos estarrecidos’’, concluiu.

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