Quinze anos depois de serem acusados de integrar a quadrilha chefiada pelo ex-prefeito Antonio Belinati, os principais réus do caso AMA/Comurb seguem normalmente com suas vidas, embora, devido ao número de processo que respondem, façam visitas frequentes ao Fórum de Londrina para audiências nas varas da Fazenda Pública ou nas varas criminais. Hoje, 22 de junho, completa 15 anos que a Câmara de Vereadores cassou o mandato de Belinati.
A reportagem da FOLHA tentou contato com os principais envolvidos – aqueles que figuram no maior número de ações – ou conversou diretamente com seus advogados. Mantendo praticamente o mesmo comportamento da época em que o escândalo estava na berlinda, quase ninguém quis falar abertamente sobre o que aconteceu, sobre sua participação ou a vida atual. "Já tive muitos prejuízos com isso. Fiquei até doente em razão do estresse por causa dos processos", disse um deles, pedindo para não ser identificado.
Uma das figuras mais emblemáticas do caso é o ex-diretor administrativo-financeiro da Comurb, Eduardo Alonso de Oliveira, hoje com 53 anos. Apontado pela antiga diretoria da companhia como o mandante das fraudes, Alonso afirmou, em acordo de delação premiada com o Ministério Público, que o verdadeiro mandante era Belinati, que era quem tinha poder para fazer retiradas do dinheiro do Cogefi, fundo para onde foi o dinheiro da venda de parte da Sercomtel.
O ex-diretor, que já havia trabalhado com Belinati em seu segundo mandato (1989 e 1993) – e junto com ele ajudado a fundar o PDT de Londrina – tinha proximidade com o deputado falecido José Janene, que o teria indicado para o cargo na Comurb, em 1998. À época do escândalo, ele disse que resolveu colaborar com as investigações e confessar as ilicitudes por exigência da igreja que frequenta. Agora, ao ser procurado pela FOLHA, voltou a dizer que "o esquema foi arquitetado no gabinete do prefeito para desviar dinheiro". Nos últimos 15 anos, Alonso, que é advogado formado pela Universidade Estadual de Londrina, morou em Rondônia e Mato Grosso. Desde 2013, estabeleceu-se em Cambé, onde advoga.
O ex-presidente da Comurb, Kakunen Kyosen, hoje com 74 anos, trabalha como advogado e contador, segundo seu próprio advogado no caso, Ronaldo Neves. "Ele tem sido condenado na maioria dos processos cíveis, mas os processos criminais prescreveram para ele", comentou. A principal tese da defesa é que Kyosen embora fosse o presidente da companhia, a presidência, de fato, era exercida por Eduardo Alonso, o então diretor administrativo-financeiro.

"Sem carimbo"
Outro ex-presidente da Comurb, Cleber Toffoli, que teria recebido dinheiro desviado do município como uma espécie de salário após ter sido exonerado do cargo, alega que o dinheiro era devido e foi utilizado em tratamento de saúde. "Obviamente, não sabia de onde o dinheiro vinha. Dinheiro não tem carimbo", afirmou seu advogado, Ronaldo Neves. Radialista, professor aposentado, Toffoli também já foi vereador em Londrina e recentemente foi homenageado com o título de Cidadão Honorário. A ex-diretora de operação da Comurb Lúcia Brandão não foi localizada pela reportagem. Sua advogada não deu retorno à solicitação de entrevista.
Ex-dirigentes da AMA, Nelson Kohatsu (diretor administrativo-financeiro) e Mauro Maggi (presidente) foram réus colaboradores do Ministério Público nas investigações e confessaram as fraudes. Aos 68 anos, Kohatsu, que é engenheiro civil, permanece nas atividades e mora em Londrina. Maggi, que é engenheiro mecânico, tem uma empresa de consultoria ambiental em Ibiporã. "Prefiro não fazer comentários. Já falei tudo o que podia nos processos", afirmou à FOLHA.
Outro diretor da AMA, Júlio Bittencourt, 52 anos, é advogado em Nova Santa Bárbara, cidade onde elegeu-se prefeito logo após o escândalo em Londrina. Exerceu dois mandatos consecutivos, entre 2001 e 2008. Antes disso, o ex-diretor de operações da AMA já havia sido o chefe do Executivo da pequena cidade do Norte Pioneiro, entre 1993 e 1996. "As ações estão tramitando. Um dia, quando isso acabar, vou contar o que sofremos". Nos processos, ele nega envolvimento nos desvios.

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