Escâncalo abala imagem de autoridades no exterior
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quinta-feira, 29 de abril de 1999
Reali Júnior Agência Estado 
O ex-presidente do Banco Central (BC) Francisco Lopes, ao decidir não assinar o termo de compromisso na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos optou por jogar a credibilidade pela janela. Para um banqueiro francês, responsável por essa afirmação, a decisão poderá ser fatal à carreira profissional dele. Comentários dessa natureza têm sido publicados no noticiário da imprensa francesa sobre a evolução dos trabalhos da CPI dos Bancos, que tentou ouvir o homem que comandou a desvalorização do real, mas só permaneceu 17 dias na direção do BC. Isso tem contribuído para abalar a imagem de dirigentes da área econômico-financeira do Brasil no exterior.
Essa não é a primeira vez que a imprensa européia tem tratado de casos dessa natureza. Se a imprensa britânica tem sido a mais vigilante, por meio do jornal Financial Times , os artigos na imprensa francesa também tem sido frequentes.
Já na crise que envolveu o ex-presidente do BNDES André Lara Rezende, quando da privatização da empresa Telecomunicações Brasileiras (Telebrás), as críticas foram contundentes. Posteriormente, quando da escolha do economista Armínio Fraga Neto para substituir Chico Lopes, os jornais exploraram o fato de o novo presidente ter saído dos escritórios novaiorquinos do megaespeculador Georges Soros. Agora, as investigações da CPI dos Bancos têm sido reproduzidas na Europa.
Na quarta-feira, o jornal francês Le Monde havia explorado as denúncias segundo as quais os sócios de Chico Lopes haviam se beneficiado de informações privilegiadas. Ontem, foi o matutino Le Figaro, também da França, que voltou ao assunto, abrindo uma das páginas econômicas com o título: Escândalo no Banco Central do Brasil.
Em artigo de quatro colunas, a jornalista lembra que esse novo episódio tem tudo para preocupar o presidente Fernando Henrique, que teme pelas repercussões junto à economia brasileira, num momento delicado, em que os primeiros sinais de recuperação parecem evidentes. Para a comentarista do Le Figaro, esse escândalo pode relançar uma nova crise de confiança dos investidores, desistimulando-os a participar do processo de estabilização econômica em curso.
Por enquanto, os principais bancos europeus com interesses no Brasil acompanham, por meio dos representantes no País, a evolução dos trabalhos da CPI, mostrando-se discretos e prudentes e evitando pronunciamentos, mas não escondem a preocupação, admitindo a gravidade da situação, pois envolve um ex-presidente do BC, o guardião da moeda do País. Eles esperam que esse seja um episódio isolado e não uma prática comum de diretores do BC. Esse caso, lembram banqueiros franceses, deve relançar a necessidade de o BC brasileiro caminhar para uma reforma de estrutura, tornando-o mais independente, mas aumentando também a responsabilidade dos dirigentes, além de instituir sanções mais severas para os que se servem de informações privilegiadas. Outra recomendação seria a de tornar viável, o mais rapidamente possível, a quarentena para os dirigentes, fórmula adotada com sucesso na Europa.


