O empresário paulista Antonio Ermírio de Moraes, diretor-superintendente do Grupo Votorantin, disse ontem em São Paulo que os juros elevados e a supervalorização do real inviabilizariam a atuação do Ministério da Produção, a ser criado no segundo governo Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Acho que a criação do Ministério da Produção seria benéfica, mas ele terá que contrariar alguns princípios básicos do governo, como os juros elevados e o real muito valorizado. Se não for para mexer nesses dois pontos então é melhor deixar como está, como Ministério da Indústria e Comércio, que não faz nada, mas também não atrapalha’’, disse Ermírio.
Na avaliação do empresário, a criação da nova pasta é importante porque estaria diretamente ligada à capacidade de estimular o desenvolvimento e a geração de emprego. No entanto, ele acredita que haverá confronto entre as políticas que vierem a ser criadas pelo novo ministério e as estabelecidas pela equipe econômica. ‘‘É realmente um ministério importante, porque vai trabalhar para a produção e não para a especulação, afinal está na hora de prestigiar um pouco quem produz e um pouco menos quem especula. Por enquanto estamos prestigiando quem especula e não quem produz, daí a dificuldade desse novo ministério’’, disse. ‘‘Além disso haverá choque com o Banco Central e a equipe da Fazenda, então deve ficar bem claro que, se não houver vontade política, o Ministério da Produção, ao invés de ajudar vai piorar.’’
‘‘Cotado’’ para assumir a nova Pasta, o empresário disse que a indicação deve ter partido de algum desafeto. ‘‘Pára com isso, só se a indicação for de algum amigo da onça, deve ter alguém que está querendo acabar com a minha vida, porque eu não tenho o menor desejo de assumir esse cargo’’, disse Ermírio.
O empresário criticou também o ritmo da queda da taxa de juros e o corte de subsídios do governo para combustíveis. ‘‘Quem está pagando a conta do aumento da gasolina e do aumento do CPF é o consumidor. Lá fora, para ativar a economia o governo baixa os juros e o preço do petróleo, aqui nós fazemos o contrário. Em Portugal, por exemplo, a taxa de juros é de 4,5% ao ano, aqui está entre 33% e 35%, e com uma queda muito lenta’’, disse Ermírio.

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