ENTREVISTA: PAULO BERNARDO - 'Não vamos jogar tapioca no ventilador'
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domingo, 10 de fevereiro de 2008
Vera Rosa eLu Aiko Otta<br> Agência Estado 
Brasília - Dias depois de ter batizado a tentativa de investigar a farra dos cartões corporativos com o sugestivo nome de ''CPI da Tapioca'', o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, foi obrigado a defender a proposta, adotada pelo governo a contragosto para se antecipar ao bombardeio da oposição no Congresso. Mas, embora engrosse o coro dos que querem ampliar a apuração para vasculhar despesas do governo Fernando Henrique Cardoso, o ministro afirma que o foco da CPI não pode ser familiar.
''Não vamos jogar tapioca no ventilador'', diz Bernardo. ''Não temos de mexer com a família nem do presidente Lula nem do ex-presidente FHC.'' A tapioca que tem provocado indigestão no governo custou R$ 8,30, pagos indevidamente com cartão corporativo pelo ministro do Esporte, Orlando Silva, em maio do ano passado, em Brasília.
O ministro do PT jura, ainda, que o governo Lula leva vantagem sobre a administração de FHC na comparação dos gastos. ''Talvez de um lado tenha tapioca e, de outro, queijo emental ou brie'', provoca.
Agência Estado - O governo mudou de estratégia e propôs uma apuração dos últimos dez anos, para atingir o governo Fernando Henrique. Por que o senhor foi voto vencido?
Paulo Bernardo - Eu acho que seria dispensável fazer uma CPI. Nós poderíamos fazer isso com auditoria, com acompanhamento público. Mas também não podemos ficar só apanhando. O governo tem obrigação de explicar os seus gastos, mas isso não quer dizer que temos de ficar quietos com demonstrações explícitas de demagogia. Não dá para tolerar uma pessoa fazendo discurso indignado quando a gente sabe que a indignação é tão falsa quanto os cabelos do cidadão.
AE - De quem o senhor está falando?
Bernardo - Eu não estou falando de ninguém especificamente. Deputados e senadores da oposição diziam: ''Pode até não ter uma CPI na Câmara, mas vai ter no Senado.'' Então, se é para ficar numa briga enorme, com um desgaste terrível, vamos fazer logo uma CPI e pôr os pingos nos 'is'. Nós não temos medo de CPI.
AE - A intenção é comparar que governo gastou mais?
Bernardo - Isso é público. Em 2002, o volume de suprimento de fundos atingiu R$ 233 milhões. No ano passado, com os Jogos Pan-Americanos no Rio e com os dois censos do IBGE, nós gastamos R$ 177 milhões. Em 2006, foram R$ 127 milhões. Eu vi um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) dizendo que é preciso acabar com o cartão. Então vamos voltar a 1950? O que é isso, gente? Então vai ser tapioca para todo lado na CPI? Talvez de um lado tenha tapioca e de outro, queijo emental ou brie.
AE - O senhor acha que a oposição será favorável a fazer uma investigação abrangendo filhos do presidente Lula e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?
Bernardo - Não temos de mexer com a família nem do presidente Lula nem do ex-presidente Fernando Henrique. Aí, sim, seria jogar tapioca no ventilador e isso nós não vamos fazer. A CPI é para avaliar se há problemas na execução dos gastos com cartão corporativo e nas contas tipo B (que funcionam como cartão, exceto pelo uso de cheques). Provavelmente, haverá incorreções dos dois lados, mas quero lembrar que as contas deles não têm a transparência do cartão, criado em 2001.
AE - Se o governo constatou que as contas tipo B têm mais problemas que o cartão, por que esperou a porta ser arrombada para agir?
Bernardo - Não esperamos. Não é verdade.
AE - Mas só depois dessas denúncias envolvendo a ex-ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, que acabou deixando o cargo, é que o governo tomou providências...
Bernardo - Não seja injusta. A porta não foi arrombada. A porta foi escancarada pelo governo. Se alguém fez algo errado, vai ter que responder por isso.
AE - Há despesas no mínimo estranhas, como a compra de esteira ergométrica por seguranças do presidente e a reforma da mesa de sinuca do Ministério das Comunicações. Como o governo explica esse tipo de gasto?
Bernardo - É preciso ver em que contexto as coisas se encaixam. Será que todas as compras estão erradas? Disseram, por exemplo, que alguém tinha gasto dinheiro num pet shop. Fomos verificar e era uma faculdade de veterinária que teve de comprar remédio para cavalo. Quanto à mesa de sinuca, aparentemente isso está errado.
AE - E a esteira ergométrica?
Bernardo - Normalmente as pessoas que fazem serviço de segurança são militares e têm de se exercitar. Essa curiosidade em torno dos gastos do governo é absolutamente normal e só é possível de ser saciada porque estamos colocando na internet todos os nossos gastos.


