Entrevista: o descobridor do mecanismo
Delegado da PF aposentado, londrinense Gerson Machado é o responsável pelas investigações que deram origem à Lava Jato e ao seriado sobre o tema no Netflix
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sábado, 18 de maio de 2019
Delegado da PF aposentado, londrinense Gerson Machado é o responsável pelas investigações que deram origem à Lava Jato e ao seriado sobre o tema no Netflix
Pedro Moraes - Grupo Folha 

O aviso é claro: o programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais. Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático. Mas o fato é que a história da série “O Mecanismo”, disponível na plataforma de streaming Netflix, cria uma versão, mesmo que ficcional, dos desdobramentos da operação Lava Jato. Em duas temporadas – a segunda foi lançada no último dia 10 –, um obstinado e perturbado delegado da Polícia Federal assume a postura de uma espécie de justiceiro implacável contra a corrupção. Na história de José Padilha, responsável também por “Tropa de Elite”, o protagonista Marco Ruffo, vivido pelo ator Selton Mello, é inspirado no delegado aposentado da PF, o londrinense Gerson Machado, 55.
Machado é o autor do inquérito que, em 2008, reuniu informações de que o Posto da Torre, em Brasília, era usado para lavagem de dinheiro por meio de notas frias. Seus investigados eram o doleiro Alberto Youssef e o ex-deputado José Janene, morto em 2010. A operação foi uma espécie de embrião da Lava Jato. O trabalho só ficou conhecido em 2014, mas uma versão sua foi criada para o universo dos seriados. “A versão do Padilha é dele, não é minha. Acho que o nome 'Mecanismo' ficou bem ligado ao meu pensamento. Desde criança, sempre gostei de entender o porquê das coisas. O que vejo na política é um teatro em que os políticos são marionetes de quem financia a campanha deles”, pontua o delegado em entrevista à FOLHA.
O depoimento de Gerson e sua mulher Valéria Araújo Machado foi tomado pela equipe do cineasta e se tornaram o fio condutor da história. Sem ter recebido nenhuma quantia relacionada à produção, Machado não se atormenta ao se ver como um personagem. Em comum com a realidade, ele garante que a dramaturgia foi fiel em sua obstinação por investigar. “Eu me senti obrigado a ver as temporadas porque as pessoas sempre me perguntam. Não me sinto incomodado porque é uma livre interpretação. Não assinamos nada. O pessoal fala que nós deveríamos ter cobrado, mas nunca pensei nisso”, explica.
Já sua mulher não fica tão confortável em ver a trama criada para a personagem que é correspondente a ela na história. Outra inspiração é que o delegado da série é afastado da corporação por problemas psiquiátricos. Machado enfrentou um duro período de depressão e acabou sendo afastado. “Eu estou aposentado, mas não pedi por ela. Em um dos meus afastamentos, no atestado meu médico falava que eu podia voltar sem arma, gradativamente. A junta médica decidiu aposentar e não falaram mais nada”, lembra.
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“EUQUIPE”
Antes de deixar a Polícia Federal, Gerson Machado encaminhou os trabalhos para Curitiba, que acabaram nas mãos dos delegados Márcio Anselmo e Erika Marena. O gestou culminou na maior operação contra a corrupção no País. Muito antes, em 2008, ele já questionava a delação de Youssef no caso do Banestado e, apesar de sua delação, o delegado acreditava que o investigado continuava operando. O doleiro, inclusive, chegou a acusá-lo de perseguição por seu empenho em extrair a verdade, em meio a precárias condições.
“Tem um colega que fala que na verdade a investigação não era de equipe, mas de 'euquipe'. Por muito tempo, trabalhei sozinho. Precisava de gente, mas não tinha”, conta. Há um ano, Gerson Machado vive com a mulher e os dois filhos em Portugal, distante da polarização política no Brasil. A experiência acumulada ao longo da carreira, desde quando era analista da Receita Federal, lhe dá a certeza de que só a participação da população pode ser capaz de combater a corrupção. “Sempre tive a compreensão de que precisa ser cumprido o artigo da Constituição que garante que educação é direito de todos, dever do Estado e da família. Defendo isso com fé e paixão porque só assim o povo poderá exercer seu poder”, afirma o ex-delegado, que na entrevista à FOLHA opinou sobre Justiça, a Polícia Federal e os rumos do País.
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