O presidente Fernando Henrique Cardoso não gostou, mais uma vez, das declarações do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, criticando todos os partidos e vários ministros. Segundo um interlocutor muito próximo ao presidente, Fernando Henrique está ‘‘aborrecido’’, ‘‘triste’’ e ‘‘preocupado’’ com o que chama de ‘‘deslizes de Motta’’. Para o presidente, Motta é um de seus melhores amigos.
As afirmações de Motta atingiram todos os partidos, inclusive o próprio PSDB. No caso do PMDB, um dos mais atacados, a reação foi negativa. O partido pretende lembrar ao presidente Fernando Henrique Cardoso que a indicação dos ministros da Justiça e dos Transportes não foi apenas para conseguir votos, mas também para serem ministros. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, limitou-se a dar duas boas gargalhadas ao ler a entrevista.
No caso do PFL, a avaliação é de que as afirmações poderão criar novas dificuldades na votação da reforma da Previdência, prevista para esta semana. ‘‘Qualquer coisa que possa estremecer as relações não é bom e precisa ser vista com cuidado’’, observou o líder do Governo no Senado, Élcio Álvares. Para o senador, o PFL representa a governabilidade porque permitiu que as reformas, que dependem de 3/5 de votos no Congresso fossem aprovadas.
O vice-líder do PSDB, deputado Arnaldo Madeira (SP), compartilha da mesma idéia de Élcio Álvares, ao falar sobre as aprovações das reformas. Segundo ele, há um aprendizado constante entre os dois partidos e ambos são ‘‘mutuamente necessários’’. Na opinião de Madeira, o que Sérgio Motta quis dizer é que o presidente Fernando Henrique, quando concorreu às eleições, talvez não tivesse precisado nem do PFL, nem do PSDB porque foi o Real que o elegeu. Segundo ele, não há motivo para se promover discussões filosóficas neste momento. ‘‘Precisamos é de consolidar as relações.’’
O ministro Eliseu Padilha, dos Transportes, por exemplo, leu logo de manhã a entrevista de Motta e não gostou. Mesmo assim, decidiu não se manifestar. Segundo avaliações do Ministério dos Transportes, a fala de Motta mostra um total desconhecimento do que se passa dois andares abaixo do seu gabinete. Padilha e Motta dividem o mesmo prédio na Esplanada dos Ministérios.
O senador Ronaldo Cunha Lima (PMDB-PB) disse que a avaliação do Sérgio Motta é ‘‘circunstancial’’, que deve ter tido como base a votação da reforma administrativa. ‘‘Naquela ocasião, o partido não fechou questão e a estabilidade é um problema da consciência pessoal de cada parlamentar.’’ Cunha Lima preferiu não dar importância ao tom usado pelo ministro. ‘‘Foi mais um estalo e temos de reduzir o impacto das declarações em função do temperamento do ministro’’, prosseguiu. Segundo ele, Padilha, Íris Resende e o secretário de Desenvolvimento Regional, Fernando Catão, continuam firmes no governo. O deputado Arnaldo Madeira acha que Íris e Padilha representam a parte do PMDB que sempre vota com o governo.

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