Entrevista de Lula sugere conexão governo/PT
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segunda-feira, 18 de julho de 2005
Agência Estado 
Brasília - A entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à jornalista brasileira Melissa Monteiro, em Paris, sugere uma articulação entre o governo e a nova direção nacional do PT. As declarações de Lula, transmitidas domingo pelo programa ''Fantástico'', da Rede Globo de Televisão, coincidem no conteúdo com as entrevistas dadas ao ''Jornal Nacional'' pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, na sexta-feira, e pelo ex-secretário nacional de Finanças e Planejamento do partido Delúbio Soares, no sábado.
O presidente falou a Melissa por volta do meio-dia de sexta-feira, nos jardins da Residence Marigny, durante o intervalo das audiências que teve com o primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, e o presidente do Partido Socialista, François Hollande. Ao falar da crise no Brasil, Lula atribuiu-a a erros da legenda e ao sistema de financiamento das campanhas eleitorais, que seria, estruturalmente, permeável à corrupção.
A descoberta de que a jornalista seria uma cinegrafista e produtora de vídeo independente, e não uma repórter de uma TV francesa, como o anunciado pelo ''Fantástico'', gerou no mundo político de Brasília a impressão de que o presidente pode ter participado de uma estratégia destinada a amenizar as implicações judiciais dos escândalos. De acordo com fontes diplomáticas ouvidas pela reportagem, não é usual que chefes de governo concedam entrevistas a jornalistas independentes. Melissa, no entanto, passou à frente dos mais importantes jornalistas europeus e brasileiros, que têm pedidos de entrevistas com Lula, oficialmente, protocolados.
Além desses detalhes, contribuiu para aumentar a desconfiança de que a entrevista presidencial fez parte de uma articulação o fato de Lula ter gravado-a quando eram 7 horas, antes, portanto, que a nova versão de Valério e Delúbio para o episódio se tornasse pública.
A entrevista do empresário foi ao ar por volta de 21 horas de sexta-feira e o ex-secretário nacional de Finanças e Planejamento do PT só falou no sábado.
A cientista política Lúcia Hipólito percebeu a coincidência: ''Na entrevista concedida em Paris, o presidente Lula indica que sabia do caixa dois do PT, ao afirmar que isso era feito, sistematicamente, pelos partidos brasileiros.''
Fontes do Palácio do Planalto deram, entre outras explicações, a versão que o presidente Lula realmente queria falar e precisava falar ao País sobre a crise e que teria pensado até em fazer um pronunciamento, como já fizera há alguns dias atrás. Mas a fórmula da entrevista teria sido considerada ''conveniente'' e ''muito boa''.
No plenário do Senado, a oposição fez severas críticas às declarações do presidente. A mais contundente partiu do senador pefelista Romeu Tuma (SP), que viu nas declarações de Lula e nas últimas ações do PT uma tentativa de usar a popularidade do presidente em alta, a despeito da crise, para encobrir as denúncias de corrupção no governo.
''Se o PT está nu, não diria que o presidente é a cueca porque o momento não permite, mas diria que ele é a sunga para esconder as partes pudicas. Se o PT está nu, o presidente Lula não é a cueca, é a sunga'', afirmou.
O senador, com o apoio do também pefelista Marco Maciel (PE), viu na entrevista, concedida na França, uma afronta à imprensa brasileira. Desde que assumiu a presidência, Lula concedeu uma entrevista coletiva apenas neste ano.


