Guto Rocha
De Londrina
O senhor tem defendido uma maior flexibilização da legislação trabalhista em vigor. O que isso contempla? Em que ponto isso beneficia o trabalhador e o empregador?
PaulinhoEu tive uma vida muito difícil e hoje tenho um pouco de influência junto aos poderes públicos. E acho que o meu trabalho só terá validade para mim se conseguir mudar aquilo que acho que está errado. E acredito que a legislação trabalhista é um erro, porque ela dá garantias enquanto a pessoa está empregada, e quando perde o emprego fica abandonada. E o Estado não dá nenhum amparo ao desempregado, toda a proteção que ele tinha acaba ali. Então acho que esta legislação não dá para continuar, porque hoje a maioria das pessoas está no mercado informal, 57%. Tenho trabalhado para mudar isso. Não mudar acabando com os direitos das pessoas, mas mudar inclusive no sentido de fazer com que as pessoas concordem com estas mudanças. Como o projeto que nós fizemos do contrato pré-determinado, que ficou conhecido como contrato temporário, o banco de horas, que foi positivo; não resolveu o problema do desemprego, mas garantiu muitos empregos. Fizemos, no final do ano passado, a suspensão do contrato, o que evitou demissões. Se o Artigo 7º da Constituição dá garantia a todos os direitos, não quero acabar com isso. Mas queremos abrir a possibilidade de negociação. Aquilo que o sindicato negocia com a empresa, no meu ponto de vista tem de valer mais do que a lei.
FolhaMas isso não pode colocar em risco alguns direitos dos trabalhadores?
PaulinhoNessa negociação o sindicato deve fazer assembléias com os trabalhadores, tem que ter uma ata, porque você pode encontrar picaretas que podem entregar os direitos das pessoas. Mas se é uma coisa negociada, discutida com os trabalhadores, não tem problema. Por exemplo, eu tenho o 13º salário no final do ano, mas a empresa que tem dificuldades para pagar dois salários, pode negociar com os trabalhadores o pagamento mensal do 13º. Hoje isso não é possível. É para mudar isso que temos trabalhado.
FolhaO senhor acredita que esta relação mais amigável entre empregados e patrões poderia gerar mais empregos?
PaulinhoSem trabalhadores a empresa não vive, e vice-versa. Mas nós temos divergências trabalhistas, temos greves, e as empresas e os trabalhadores têm de aprender a conviver com isso. Mesmo na hora que surge um problema temos de conversar, ao invés de brigar. Na greve da Ford tínhamos negociações diárias. Mas muitas vezes temos problemas comuns, então juntamos as forças dos trabalhadores e empresários para resolvê-los com o governo. E isso tem dado certo. Como o acordo feito recentemente com o setor do álcool, que tem 1 milhão de trabalhadores e estava falindo. Foi uma briga muito grande e convencemos o governo que o aumento da mistura de álcool com a gasolina e a sua adição ao diesel era viável. Então acho que esta união de trabalhadores e empresarios é necessária. Há 10 anos isso era impensável. Hoje não tenho pudor de dizer que os empresários estão ajudando. Antes eu esculhambava. Temos de nos unir.
FolhaNum paralelo entre o trabalhor de hoje e do passado qual é a principal mudança?
PaulinhoVou dar um exemplo prático. Eu era um inspetor de qualidade, o sujeito que media as peças, para saber se estavam no padrão. Mas hoje esta profissão acabou. Com o advento da qualidade total todo mundo dentro da indústria tem de enteder de medidas e padrões. Quando chegei em São Paulo, queria ser torneiro mecânico ou ferramenteiro, também duas profissões hoje extintas. O torno mecânico está sendo substituído pelo torno informatizado. Uma criança hoje opera uma máquina desta. Então não adianta ter um única profissão, isso é até um conselho. Por isso hoje quem tem apenas uma única profissão é candidato a ficar desempregado. Temos trabalhado na requalificação dos trabalhores orientando sempre para que tenham mais de uma profissão. O trabalhador hoje tem que conhecer tecnologia de ponta. Um carro hoje leva 16 segundos na linha de produção. A Ford, com 4 mil funcionários faz 1,1 mil carros/dia. A linha Ford de São Paulo está indo embora porque demora 50 segundos para fazer um caminhão. Você passa pela linha de montagem e vê pouca gente trabalhando e muitos robôs. Então, quem não acompanhou a evolução perdeu o emprego. O trabalhador teve de se reciclar dentro da própria empresa, ou no Senai ou fazendo cursos de requalificação oferecidos pelas centrais sindicais.
FolhaA história dos sindicatos brasileiros se confunde com a história da conquista dos direitos trabalhistas e pela garantia de emprego. E hoje, com a crise que o País enfrenta, a luta dos sindicatos é mais por empregos ou por salários?
Paulo Pereira da SilvaA luta pelo emprego continua muito forte ainda porque o desemprego é muito grande e milhares continuam perdendo emprego. Mas não significa que vamos abandonar a luta por salários. Até agora nós fizemos o diabo para garantir empregos: trocamos benefícios, direitos e até salários, mas não tem resolvido. Quando os trabalhdores perdem o poder de compra, o comércio pára, a indústria pára, aumentando ainda mais o desemprego. Por isso estamos nos preparando para retomar a luta por melhores salários.
FolhaOs metalúrgicos já estão programando algum movimento por salários em setembro?
PaulinhoVamos nos reunir com o pessoal da CUT para discutir o setor automobilístico e a renovação do acordo feito com o governo, que prevê a redução de impostos para baixar os preços dos carros. Nós temos saído na frente porque as montadoras estão meio desmoralizadas. A contrapartida delas tem sido muito pequena; então queremos começar a nossa luta. Mesmo porque a mudança destas empresas de uma região para outra está provocando o que chamo de dumping social internamente. Por exemplo, a média salarial da Ford em São Paulo é de R$ 1,5 mil, e na Bahia será de R$ 300,00. A Alpargatas saiu de São Paulo com uma média de R$ 500,00 e hoje paga menos que um salário mínimo no Nordeste. Isso atrapalha os empresários de outras regiões, que não têm os mesmos benefícios que a empresa que se muda tem. Além dos benefícios, a mão-de-obra é mais barata, quase escrava, produzindo o mesmo produto que a indústria de Londrina, São Paulo. Estas empresas que permanecem no mesmo local vão acabar quebrando.
FolhaQue tipo de saída estas empresas teriam para concorrer em condições de igualdade?
PaulinhoNós queremos fazer uma espécie de contrato coletivo em nível nacional, que garantiria alguns direitos básicos e um piso salarial mais ou menos parecido. Não vamos exigir também que a empresa tenha a mesma média salarial de uma empresa de São Paulo, o que significaria quebrar a empresa em qualquer lugar para onde ela for. Mas temos que garantir alguns direitos mínimos para não acontecer desníveis.
FolhaA indútria automobilística está pedindo ao governo a renovação do acordo automotivo. A Força Sindical também defende a continuidade do acordo?
PaulinhoNós queremos fazer a renovação da frota no País. Mas isso não se faz de um dia para o outro. Teríamos que ter uma estrutura para desmontar os carros velhos, o que geraria mais empregos. Mas isso leva um tempo. Então nós estamos pedindo ao governo que renove o acordo com o setor. E neste período de renovação, por mais três ou quatro meses, queremos que o governo assuma para valer a renovação da frota. Já temos acertado isso com o Estado de São Paulo, e mais ou menos acertado com o Paraná. O Estado entraria com R$ 700,00 do ICMS por carro, as montadoras dariam R$ 300,00 e a revenda mais R$ 300,00. E o governo entraria com o equivalente a R$ 700,00 em IPI. Isso já daria um bônus de R$ 2 mil para o proprietário trocar de carro. No caso do carro a álcool, com a entrada dos usineiros, o bônus ficaria em R$ 3,5 mil. Com isso, os 5 milhões de carros velhos que circulam seriam progressivamente trocados. Isso aumentaria a produção da indústria e criaria novos empregos. Nesta manifestação que faremos nas montadoras vamos entregar ao governo uma pauta solicitando a renovação do acordo.
FolhaA Força Sindical teve um crescimento significativo no movimento sindical. Como estpa a relação da Força com a CUT? É de rivalidade ou parceria?
PaulinhoHoje nós evoluímos para que as pessoas se respeitem. Nos damos muito bem com o Vicentinho e com outros dirigentes da CUT. Mas temos divergências, senão não seríamos duas centrais sindicais. A CUT hoje está muito ligada ao funcionalismo público e nós muito fortemente com a iniciativa privada. Temos 1.280 sindicatos filiados e 9 milhões de trabalhadores. No Paraná já somos a maior central, com 140 sindicatos, e em Santa Catarina 80% dos sindicatos estão com a gente.
FolhaQual o principal ponto divergente entre as duas centrais?
PaulinhoNós fomos favoráveis às privatizações, embora não concordemos muito com a forma que o governo investiu o dinheiro. A CUT sempre foi contra. Com isso nós ganhamos todos os sindicatos do setor siderúrgico. As siderúrgicas estavam todas falidas e nós chegamos dizendo que a solução seria a privatização. Hoje os trabalhores participam das empresas, com poder de voto. Salvamos milhares de empregos. Esta disputa no terreno sindical é natural, mas em cima estamos bem. No que interessa ao trabalhador estamos unidos: defendemos juntos os empregos, a criação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), a requalificação profissional, as negociações com o governo federal. Mas na base estamos disputando, o que é natural. Vamos continuar tendo divergências, o que é bom, porque unanimidade só temos no cemitério.
FolhaE a idéia do senador Antônio Carlos Magalhães de criar o imposto antipobreza? O senhor acredita que esta é a saída para o País?
PaulinhoO Brasil já tem muitos impostos. O dia em que ACM inventou isso eu disse que ele queria arrecadar os R$ 180 milhões para a Ford ir para a Bahia. O problema da desigualdade social no Brasil é falta de investimento nas áreas corretas. Não é se criando mais um imposto que vai resolver. Temos impostos demais e muita sonegação. Uma empresa tem até 60 impostos e é quase impossível fiscalizar isso. Nós temos defendido a redução de impostos. Na medida em que se simplifica, torna-se mais fácil para as pessoas pagarem, todos vão pagar. Por que a empresa vai ficar mal com a Justiça? Se o imposto é menor, o empresário paga e o governo arrecada mais. Acho que no acordo automotivo nós provamos um pouco isso. Na medida que o governo reduziu os impostos, as vendas de carro aumentaram. A previsão do Brasil era fabricar este ano 1 milhão de veículos, e depois do acordo a previsão saltou para 1,5 milhão. E o governo vai arrecadar mais.

Parceria garante requalificação
A Força Sindical tem preocupações com o futuro do trabalhador e mantém um programa de requalificação profissional. Como funciona e quem banca o projeto?
PaulinhoNós fizemos uma proposta ao presidente Fernando Henrique há uns cinco anos, e há três anos o governo adotou a idéia, criando o FAT, que repassa uma parte dos recursos para os Estados e outra para as Centrais Sindicais. Sempre achamos que o melhor era treinar diretamente o trabalhador. Em agosto, entregamos 80 mil diplomas. Procuramos oferecer treinamentos nas áreas que acreditamos que o mercado de trabalho vai absorver. Por exemplo, com as mudanças na área de telefonia, a Telefonica demitiu os técnicos mais velhos, que conheciam o trabalho, e depois não conseguiam contratar gente que sabia trabalhar na área. A empresa colocou 600 vagas no Centro de Solidariedade e ficamos três meses sem encontrar um trabalhador qualificado para instalar telefones. Então, passamos a treinar pessoal. Também oferecemos cursos para conserto de eletrodomésticos. Para cada curso, o governo envia 80% dos custos com recursos do FAT e os 20% restantes são bancados pela Força Sindical.
FolhaEste projeto também está na zona rural?
PaulinhoNas cidades oferecemos cursos de informática e de prestação de serviços. Mas estamos treinando gente a 500 km de Manaus (AM), no meio da Floresta Amazônica. Setecentas famílias estão aprendendo a plantar palmito pupunha e a criar peixes. O objetivo é industrializar e comercializar. Temos uma parceria com uma central de trabalhadores da Itália para que eles possam comercializar esta produção no mercado europeu. O palmito de pupunha chega a produzir três vezes por ano, e a mesma planta produz por 30 anos. Isso evita a derrubada da mata. Em um hectare, uma família pode ter uma renda de US$ 5 mil. Também estamos treinando em Apodi, que fica distante 450 km de Natal (RN), pessoal para trabalhar com fruticultura. O local é bastante seco e estamos fazendo irrigação. Também oferecemos cursos de apicultura e de hidroponia.
FolhaComo funciona o trabalho do Centro de Solidariedade da Força Sindical que procura recolocar pessoas no mercado de trabalho?
PaulinhoO Centro foi criado há um ano, e neste período já cadastramos 450 mil pessoas em busca de trabalho. Deste total, 160 mil foram encaminhadas para um emprego, sendo que 50 mil foram definitivamente absorvidas pelo mercado. A nossa meta é expandir para 500 mil atendimentos por ano. E isso já está crescendo, no início cadastrávamos 300 pessoas/mês, agora atingimos 10 mil pessoas/mês. E a pessoa precisa ir ao Centro apenas para se cadastrar, e se não encontram a vaga na hora, não precisam voltar e enfrentar fila. Temos o serviço gratuito 0800, que num atendimento de 5 e 8 minutos orientamos o trabalhador. Também expandimos estes serviço para Santo André, Guarulhos e Osasco (SP).
FolhaA Força também criou um projeto que atende crianças de rua?
PaulinhoÉ o Projeto Meu Guri, que nós criamos há cerca de um ano e meio. Hoje atendemos 36 crianças com educação, saúde e lazer. As crianças são mantidas com contribuição voluntária de trabalhadores que doam R$ 0,50/mês, descontados na folha. Agora estamos trabalhando para ampliar o projeto para tirar das ruas entre 300 e 400 crianças. Para isso estamos negociando junto com empresários a compra de um terreno de 24 mil metros quadrados, onde queremos construir a sede do projeto. (G.R.)Presidente da Força Sindical critica a atual legislação e defende alternativas para melhorar relações patrões-empregados
Milton DóriaCAMINHOSPaulinho: ‘‘Sem trabalhadores a empresa não vive, e vice-versa’’, mas é preciso o estabelecimento de flexibilização para a manutenção dos empregos

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