Entrevista
Quem se surpreendeu com o mar de lama que a CPI do Narcotráfico tem encontrado em Estados brasileiros como o Acre, e na cidade de Campinas (SP) não terá emoções menos fortes quando os deputados federais desembarcarem no Paraná. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) chega ao Estado amanhã e deve provocar furor, se foram confirmadas as denúncias feitas pelo delegado de Polícia Adauto Abreu de Oliveira. A CPI tinha intenção de ficar dois dias, mas decidiu prolongar sua permanência no Paraná, pela gravidade da situação. Chefe da Força Especial de Repressão Antitóxico (Fera), Adauto acredita que, num prazo médio, a CPI pode prendar entre 80 e 100 pessoas no Paraná. E não são, como o próprio delegado afirma, ‘‘pés-de-chinelo’’. Adauto disse ter entregue à comissão, durante seu depoimento na semana passada, em Brasília, provas do envolvimento de executivos, empresários, profissionais liberais, professores universitários e integrantes de alta sociedade do Estado com o crime organizado. O delegado também põe lenha na fogueira que dividiu os integrantes da Comissão Especial de Investigação (CEI), da Assembléia Legislativa do Paraná, durante a semana. O líder do governo na casa, Valdir Luiz Rossoni (PTB), criticou duramente o presidente da CEI, Ângelo Vanhoni (PT), por este ter dito que há um deputado estadual ligado ao tráfico de drogas. ‘‘Tem mesmo’’, afirma Adauto. Há ainda, revela ele, o envolvimento de funcionários do Três Poderes do Estado. ‘‘Se por culpa ou dolo, não sei, mas que há, há.’’ Leia a seguir os principais techos da entrevista, concedida pelo delegado na quarta-feira passada, na sede da Fera.

Arquivo FolhaNA PISTADelegado Adauto de Oliveira: ‘‘No começo fui chamado de alarmista quando me referi ao envolvimento de policiais e executivos’’‘‘Classe alta está mergulhada na droga’’
Delegado que chefia grupo de combate ao narcotráfico no Paraná mantém nomes de suspeitos em segredo e aposta na CPI Nacional que chega amanhã
James Alberti
De Curitiba
Folha Ao contrário dos outros depoimentos à CPI em Brasília, o seu depoimento não foi recheado de denúncias ou, pelos menos, a eles a imprensa não teve acesso e portanto não noticiou. As denúncias não chegaram à comissão ou a CPI mudou a forma de trabalhar?
Adauto Não sei qual a estratégia da CPI. O que eu sei é que o nosso depoimento era para confirmar uma série de documentos que estão de posse da comissão. As denúncias feitas por testemunhas mascaradas tiveram um peso maior. E eu entendo a preocupação da CPI em não revelar os dados. Veja que, mesmo sendo uma sessão sigilosa, houve vazamentos. Os depoentes anunciaram dados do envolvimento de juiz, de deputado e houve vazamentos. Então você imagina se a gente vai revelar dados de uma investigação que vem sendo feita há anos.
Folha O sigilo da CPI não é regra. Basta observar o caso do colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez, que teve seu depoimento sobre lavagem de dinheiro do Cartel de Cali divulgado imediatamente.
Adauto Mas são pessoas diferentes. Você está mencionando criminosos envolvidos com narcotráfico, que hoje participam como testemunhas em troca de benefícios judiciais. Eu fui levar dados de uma investigação séria, que está sendo feita há anos e não vai ser revelada. Talvez no dia 29 (amanhã) ou nos próximos dias isso apareça de público, com as pessoas que a CPI chamar para depor, aí sim criminosos. Uma das testemunhas que estavam em Brasília, começou dizendo: ‘‘Eu sou traficante.’’ Ela estava negociando situações penais em relação a sua pessoa, mas mostrou a realidade que nós já sabemos pela investigações. Essa pessoa disse ‘‘eu vendi droga para tal juiz’’.
Folha Então o senhor confirma o envolvimento de juiz e deputado no tráfico de drogas no Estado?
Adauto Confirmo segundo as testemunhas que disseram isso.
Folha Durante a semana passada, o líder do governo na Assembléia, Valdir Rossoni, criticou duramente o presidente da CEI do Narcotráfico, Ângelo Vanhoni, por este ter dito que havia participação de um deputado estadual no crime organizado...
Adauto Mas não foi o deputado Vanhoni quem disse. E o estranho é isso. Todas as pessoas que estão polemizando a participação do delegado Adauto e do deputado Vanhoni na CPI, primeiro, são ignorantes. Sequer tiveram a iniciativa de assistir ao programa. Basearam-se nas notícias erradas de um jornal da capital, que misturou todos os informes, alguns totalmente infundados.
Folha Os nomes do juiz e do deputado aparecem nas investigações que o senhor tem feito nesses últimos anos sobre o tráfico de drogas?
Adauto Sim. Na verdade, nós temos uma gama de mais de 2 mil denúncias. De um mês e meio para cá fomos buscar essas informações antigas e, comparando com as novas e as prisões que efetuamos, elas coincidiram. Nós temos cinco presos e cinco presos de nível, ou seja, executivos, empresários, profissionais liberais, todos envolvidos com o narcotráfico. Não é aquela ‘‘chinelada’’ que vende drogas ali nas confluências da rua tal com tal. É gente ligada realmente ao tráfico. E essas pessoas, em troca de benefícios, entregaram informações que confirmaram parte dessas denúncias. Um traficante de Curitiba, que também agia em Santa Catarina, entregou mais de 60 pessoas. São jovens executivos, profissionais de renome na cidade, envolvidos com o narcotráfico.
Folha Para esclarecer a polêmica que se instalou nessa semana. Existe realmente quantos deputados envolvidos com o narcotráfico, segundo suas investigações? E quais os nomes deles?
Adauto Eu seria leviano se falasse. São denúncias anônimas. Eu tenho obrigação de investigar. A denúncia é o ponto de partida para uma possível investigação. Nós tivemos, por exemplo, notícias recentes de que um jovem de família boa de Curitiba que era apontado como usuário. No entanto, com a prisão de um traficante, esse jovem aparece agora, oficialmente, como repassador de droga numa área nobre da cidade, como traficante.
Folha Qual é a realidade do tráfico de drogas na cidade? Como se pode mensurar? As pessoas vêem o problema com relativa tanquilidade, mas em outros Estados brasileiros decobriu-se barbaridades. O senhor acredita que no Paraná há barbaridades também?
Adauto Eu acho que tem. Fui chamado de alarmista por algumas autoridades, quando em 1998, eu dizia do envolvimento de policiais e de executivos com o tráfico de drogas na capital e Região Metropolitana. Eu estava assustado. Nunca tinha trabalhado antes com o narcotráfico. Em dezembro de 1996, comecei a entrar nessa área. Eu imaginava, como tenho certeza que imaginava a grande maioria da população até a instalação da CPI, que o problema de drogas era coisa de submundo, de periferia, de marginais. Hoje vemos que os filhos da classe média, os filhos da classe alta são a principal parcela da sociedade envolvida. E o mar de pessoas envolvidas é muito mais amplo do que se imaginava. A mim chocou, primeiro, quando em 1997 e 1998, mais de 100 colégios de Curitiba visitados, de classe A a Z, todos, sem nenhuma exceção, apresentaram problemas com drogas. Ou dentro ou nas suas imediações, envolvendo os alunos dos colégios. Não é de apavorar? Agora, viram que é uma realidade dura, nua e crua: o jovem brasileiro está mergulhado até o pescoço com a droga.
Folha A classe alta do Paraná também está envolvida no narcotráfico, deixou de ser apenas usuária?
Adauto Está envolvida. Infelizmente está, e por essas denúncias anônimas se observa a falência de famílias tradicionais, de famílias que tomaram projeção social grande. São denúncias anônimas, por enquanto, mas com as prisões vão se confirmando cada vez mais esse envolvimento. Dá a impressão que a quebra de valores morais, éticos, religiosos da família brasileira permitiu isso.
Folha O crime atingiu todas as escalas...
Adauto É. E os jovens hoje, na busca de querer ter, esquecendo o querer ser, mergulharam de corpo e alma nessa chance de lucro fácil vendendo droga.
Folha Mas para se chegar nesse nível, é preciso que haja a participação de altos funcionários do poder. Do contrário, os crimes seriam reprimidos. No Paraná há a participação de funcionários dos Três Poderes?
Adauto Claramente se vê. Antes dessa CPI, como eu disse, tínhamos a impressão que o problema do narcotráfico era problema do submundo. E se passava a mão na cabeça daquele jovem de classe média envolvido. Traficantes sequer chegaram a ser julgados, como levei ao conhecimento da comissão. Três quadrilhas que prendemos em 1997 e 1998 saíram pela porta da frente, sem julgamento, sob a alegação de excesso de prazo da Justiça. Ou seja, por desconhecimento, despreparo ou conivência, juízes ou funcionários da Justiça colocaram a ação de tráfico junto com crimes menores. Nesse caos, nessa babilônia de papel que nossos fóruns hoje reúnem, entra um processo de dessa gravidade na mesma pilha de processos de briga de vizinho, pequeno estelionato, pequenos furtos. E como o traficante tem dinheiro, bons advogados, sai pela porta da frente, aproveitando as brechas da lei. Se esse envolvimento da Justiça é criminoso, cabe a Justiça apurar.

Folha A solução seria a criação de uma vara para julgar casos específicos do crime organizado?
Adauto O Conselho Estadual de Entorpecentes, do qual nós fazíamos parte por iniciativa nossa, pediu oficialmente a criação de uma vara privativa para julgamento de crimes ligados ao narcotráfico, há anos já. Faz mais de dois anos que isso está se arrastando em discussões estéreis e não se cria a vara. Ficou comprovado no pedido, que o número de procedimentos em 1997 justifica a criação. E tem mais: o juiz que estaria naquela vara seria habilitado. Um juiz amigo nosso, pessoa idônea e decente, confidenciou-nos que, no primeiro julgamento de droga que ele fez, ele estava absolvendo o traficante porque achava que 300 gramas de droga era pouca coisa. Para ele, 300 gramas era 300 gramas de presunto, de queijo. Nunca tinha visto droga antes. Até que o promotor disse: ‘‘Meu amigo, 300 gramas é tráfico e tráfico grande.’’
Folha Eu volto a perguntar, então. Há o envolvimento de funcionários dos Três Poderes do Estado com o narcotráfico?
Adauto Se por culpa ou dolo, não sei, mas que há, há. O traficante sai pela porta de frente, sem ir a julgamento. Para mim isso é uma forma de responsabilidade ou de irresponsabilidade. Tivemos, por exemplo, o caso desse rapaz, Maurício Miranda, que está preso aqui conosco. Ele foi preso após uma investigação de meses, com escutas, com fotografias, imagens e depoimentos de outras pessoas envolvidas no crime e foi preso em flagrante. E esse traficante saiu sem ser julgado.
Folha E agora está preso de novo?
Adauto O juiz que assumiu a vara, uma vez que a juíza anterior foi afastada por uma série de irregularidades, viu a seriedade, a gravidade do problema e, com a pressão do Ministério Público, emitiu os mandados de prisão.
Folha Os tais 33 policiais envolvidos com o tráfico, que ‘‘viraram’’ 200: quando a sociedade vai saber os nomes deles?
Adauto Nomes eu não vou adiantar, isso já foi repassado à CPI. O nosso trabalho policial tem que se adequar à realidade. Aquela denúncia nos causou problemas porque estávamos investigando em sigilo. E esse sigilo foi quebrado. Houve uma mudança nos modos de atuação desses traficantes. Eles passaram a tomar outros cuidados e nós ficamos a ver navios, vulgarmente falando. Aí policiais pressionaram a cúpula da Polícia, a Segurança Pública quer saber nomes e você sabe que, se revelar nomes, não prende mais ninguém.
Folha Com o anúncio da vinda da Comissão Parlamentar, os traficantes devem ter se protegido ainda mais. A CPI vai conseguir chegar de fato a essas pessoas?
Adauto Vai, com certeza vai. O que nós apresentamos à CPI são provas, diretas e indiretas, e esses envolvidos serão presos. As provas permitirão a CPI anunciar a quebra de sigilo bancário e fiscal, que comprovarão o envolvimento dessas pessoas no narcotráfico. A formação de banco ou quadrilha, isso também nós podemos comprovar com os dados que já temos. Então parte desses 33 supostos policiais serão presos.
Folha Baseado nas provas que o senhor entregou à CPI, exatamente quantas pessoas do Estado estão envolvidas com o narcotráfico? Quantas a comissão poderá prender com essas provas?
Adauto A CPI vai ficar em Curitiba dois, três dias ou mais. Essa é a abertura dos trabalhos. Não sei se nesses dias, irão prender alguém. Agora, as denúncias já apresentadas, as provas já colhidas, permitirão que, em médio espaço de tempo, essa CPI tenha condições de prender dezenas de pessoas.
Folha Quantas? 80, 100 pessoas?
Adauto Depende do tempo que a comissão permanecer no Paraná. Mas de forma direta, quem sabe até esse número. E tem mais. Recentemente outros criminosos se apresentaram para depor. Presos procuraram o Ministério Público buscando redução de penas e em troca vão entregar outros traficantes.
Folha Com essa briga entre os deputados estaduais da CEI, o senhor vê alguma contribuição efetiva da CEI para a CPI?
Adauto Eu entendo que a participação do deputado Vanhoni foi intensa até o momento, principalmente, em campo que não tínhamos como investigar, o da lavagem de dinheiro, por exemplo. Não temos nem recursos ténicos, nem humanos. E a CEI está fazendo esse trabalho. Então é positiva essa contribuição.
Folha O deputado Ângelo Vanhoni já anunciou que está sendo ameaçado de morte e anda de escola policial. Isso ocorreu com o senhor também?
Adauto Desde que retornamos à Fera, as ameaças ressurgiram e foram se avolumando, a verdade é essa. Com algumas que, realmente, nos dão motivo de preocupação. Ou seja, nós temos que redobrar nossa segurança. As ameaças existem como uma realidade, mas não temos medo. Eu confio em Deus e repito muitas vezes a frase do Rei Davi, dizendo que ‘‘o Senhor é minha fortaleza, minha salvação, meu caminho’’. É óbvio que tomo meus cuidados, ando armado, treino frequentemente meus tiros. Eles também têm que tomar cuidado se prezarem as suas vidas.
Folha Essas ameaças fazem o senhor agir com menos rigor?
Adauto Ao contrário. Eu entendo que, quando chega esse momento, que uma autoridade pública policial é ameaçada, supostamente por outros policiais envolvidos com o crime, é a hora de intensificarmos as prisões. Essa repressão tem que ser o mais rápido possível. Porque se nós policiais estamos sendo ameaçados, imagine o que sofre a população nas mãos desses caras. Esse bandido atrás da insígnia é o pior que existe; é o meu alvo número 1, eu não nego isso. Essa escória tem que ser reprimida o mais rápido possível.
Folha O senhor acha que a sociedade paranaense vai se chocar com as revelações da CPI?
Adauto Eu não sei como a CPI vai operar. Se vai fazer uma jogada de impacto, prendendo gente logo no início, ou se, como nós fazemos, vai buscar mais provas e dar o bote. Hoje temos só cinco presos no xadrez. Só que nenhum é ‘‘pé-de-chinelo’’. São executivos, profissionais liberais, professor de nível superior, pessoas altamente sociabilizadas aqui em Curitiba. Essas pessoas, alguns nomes estarão indo a público, entregaram outras pessoas do mesmo nível ou de nível superior. Como esse traficante que disse ‘‘eu vendo para juiz tal’’. Esse traficante é um bandido, mas teve coragem de mostrar uma realidade que nós mesmos não temos coragem de ver.

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