Entrevista
Emerson Cervi
De Curitiba
Quando o senhor aponta para a iminência do fim do ciclo de poder do grupo do governador Jaime Lerner (PFL), está falando do governo estadual ou municipal?
Ricardo Costa de OliveiraAs coisas estão ligadas. Começa em Curitiba e vai para o plano estadual. Como o Jaime Lerner chegou ao poder estadual via Curitiba, todos sabem da importância estratégica da eleição para prefeito de Curitiba. Também nesta década houve um reforço na importância da Região Metropolitana de Curitiba. Em 1970, a Grande Curitiba tinha apenas 10% do eleitorado do Estado. Hoje, a região já tem mais de 25%. Logo, Curitiba ganhou importância nos últimos 30 anos, um peso que havia perdido com o surgimento do Norte do Paraná. Curitiba era o grande centro até a década de 30. Nos 30 anos seguintes, perdeu importância com o crescimento do Norte cafeeiro e, de 1970 até o ano 2000, Curitiba vem recuperando sua importância.
FolhaO senhor considera que a derrota nas eleições municipais já seria o prenúncio do fim do ciclo?
OliveiraSem dúvida alguma. O conservadorismo é uma ameaça ao ciclo Lerner. A derrota para a Prefeitura de Curitiba significa o fim do ciclo do grupo de Jaime Lerner. O plano federal vai atrapalhar muito, como já aconteceu no início da década de 1980. Fernando Henrique Cardoso, com a sua falta de popularidade, vai atrapalhar tanto quanto o general Figueiredo atrapalhou em 1982 o mesmo grupo na época Ney Braga, Saul Raiz e Jaime Lerner. Depois é que, vendo a ascensão do brizolismo, Lerner foi para o PDT e mais tarde voltou ao PFL, vendo que não podia permanecer. Vivemos agora uma situação semelhante. O Figueiredo ajudou a derrota do PDS de Ney como FHC pode ajudar a derrota do PFL paranaense.
FolhaPor que o Paraná é tão conservador na política?
OliveiraParte se deve à composição da classe dominante e também ao perfil da imigração. O imigrante tende a ser individualista. E com isso deixa a ação coletiva num segundo plano. No Paraná, as tendências do conservadorismo permanecem. A classe dominante se prolonga também por muito tempo devido ao ciclo econômico da erva-mate. O aparelho de poder político no Paraná, desde a emancipação em 1853, prioriza o domínio da máquina pública por parte de grupos pequenos.
Kraw PenasConservadorismo do PR tem raízes históricas em pequenos gruposFolhaEntão esse conservadorismo paranaense tem raízes históricas?
OliveiraO Paraná se emancipou de São Paulo em 1853, como parte de um projeto geopolítico de poder do Partido Conservador. Os conservadores visualizaram na comarca de Curitiba um espaço de lealdade à ordem, que controlaria qualquer ameaça de rebeldia do Rio Grande do Sul ou de São Paulo. Como foi o caso da conjuntura de 1842. Então, o Paraná nasceu sob o signo do conservadorismo, que mantém até hoje, tanto que a política paranaense sempre gravitou em torno da política nacional, sempre em sintonia com ela. Já no Rio Grande do Sul é justamente o contrário.
FolhaIsso gera falta de identidade política?
OliveiraEsta é a própria identidade paranaense. Uma identidade que não é, muitas vezes, manifesta ou explicitada. O Paraná tem uma identidade política conservadora muito bem definida, extremamente marcante. Ela privilegia o silêncio e não a expressão em alto som. O melhor exemplo é Rafael Greca de Macedo (ministro de Esporte e Turismo). Quase ninguém sabe que ele é da família Macedo, uma das mais importantes da política paranaense, com quatro prefeitos de Curitiba neste século, seis desembargadores no Tribunal de Justiça ao longo do século, muitos presidentes da Associação Comercial do Paraná, um reitor da Universidade Federal. Mas ele vende o marketing de Rafael Greca, não o Rafael Macedo, o que também é uma jogada porque mostra o lado imigrante, o lado tecnocrata, moderno, do self-made man. Ele fica irritado sempre que é identificado com os Macedo, pelo seu lado oligárquico, tradicional. Mas ele age na política como um Macedo. Neste aspecto, tanto Greca como Requião (Roberto, senador do PMDB) vêm da mesma origem social. Isso fica claro no posicionamento político quando entram em alguma disputa, usam a mesma linguagem, o mesmo léxico conservador do passado.
FolhaTambém o Requião apresenta esta ambiguidade?
OliveiraA mesma coisa. Os Mello e Silva, de onde ele vem, são uma família do Nordeste. O primeiro deles veio como secretário de Adolfo Lamenha Lins. E eles trouxeram a característica da política nordestina que o Requião apresenta, muito ríspida, muito forte, autoritária. Claro que são conexões muito longínquas, que devem ser feitas com as devidas mediações. Essa postura do senador Requião é mais nordestina, no sentido da política mais arcaica do Brasil. No próprio relacionamento humano, ele tem uma tendência a ter confrontos e desentendimentos com muitas pessoas. Seu próprio grupo admite que a convivência com o senador é difícil, apesar de ele ter um carisma imenso, uma retórica muito boa.
FolhaO PT paranaense também é mais conservador?
OliveiraAcho que sim, porque o PT tem votado unanimemente tanto na eleição do presidente da Câmara dos Vereadores de Curitiba, João Carlos Derosso, como na Assembléia, onde Aníbal Khury também havia sido eleito por unanimidade.
FolhaE o partido perdeu espaço na eleição passada...
OliveiraJustamente. O PT se estabilizou, depois de crescer na década de 80. Na década de 90, o PT do Paraná não produziu nenhum crescimento expressivo. Está estagnado.
FolhaO senhor vem estudando a política do Paraná há muito tempo?
OliveiraO meu objeto de estudo é a classe dominante paranaense, logo, é o conjunto social que ao longo dos séculos vem dominando a política, a sociedade, a economia e a cultura do Paraná.
FolhaE ela é a mesma desde o início do Estado?
OliveiraHá continuidades, o que não quer dizer que ela seja exclusivamente a mesma. Mas há continuidade desde o século 17 e 18.
FolhaTrata-se do mesmo grupo que ainda hoje ocupa o poder?
OliveiraHá famílias que ainda permanecem com partes substantivas do poder político no Estado. Por exemplo, a família Macedo, que tem o ministro Rafael Greca de Macedo; a família Camargo, do Affonso Camargo; a família do Ney Braga é bom lembrar que foi do Ney Braga em diante que se deu a composição do atual PFL do governador Jaime Lerner. E vários outros quadros, como o chefe da Casa Civil, Pretextato Taborda Ribas Neto; o Fabiano Braga Cortes Júnior, secretário de Comunicação da Prefeitura, que tem uma inserção muito grande junto ao prefeito Cassio Taniguchi; o secretário Alex Beltrão, bisneto do Barão do Serro Azul. O próprio Requião é da família Mello e Silva, de tradicionais políticos nos últimos 150 anos. Logo, há continuidade e relacionamentos entre estruturas de parentesco e estrutura de poder. É claro que também há muitas novas entradas, de famílias de imigrantes, que entraram agora na política, mas que também reproduzem esquemas de parentesco. O melhor exemplo é a família Dias, com dois senadores. É a única situação na República em que dois irmãos são senadores, o Osmar e o Álvaro Dias. Sendo que um tem uma carreira política completa no Paraná.
FolhaO perfil econômico no Estado mudou várias vezes nesse século, o que se reflete na política. Como é que as famílias tradicionais na política conseguiram essa continuidade, inclusive depois da Revolução de 30?
OliveiraDa Revolução da 30 em diante houve uma continuidade muito grande. As modificações aconteceram principalmente da década de 70 em diante. Tanto que agora temos a seguinte situação: Lerner é brasileiro de primeira geração, filho de judeus poloneses; Taniguchi, é paulista filho de japoneses, e são do mesmo grupo. Você vai perceber a entrada de imigrantes da década de 50 em diante. Tanto que o primeiro governador do Paraná que não pertence a famílias históricas, tradicionais, do período colonial, foi o Moisés Lupion. Ele é filho de um imigrante espanhol. Mas ele se casou dentro de uma família tradicional e sua rede de parentescos também está estruturada em grupos de parentela tradicionais na política paranaense. O Paulo Pimentel, que foi o primeiro governador do Norte do Paraná, também tem, por casamentos, vínculos com grupos muito importantes no Norte a família Lunardelli.
FolhaLerner seria o primeiro fora deste esquema?
Kraw PenasGreca e Requião usam o mesmo léxico quando entram em disputaOliveiraO primeiro no sentido que é brasileiro de primeira geração e, sem dúvida, o primeiro que não tem laços de parentesco com a velha classe dominante. Mas é produto do regime militar: foi indicado prefeito de Curitiba, em 1971, e novamente em 1979, através do Ney Braga. Lerner é um produto do neysmo. Aliás, Ney Braga foi o maior criador de quadros políticos do Paraná. Foi ele quem criou Paulo Pimentel, José Richa, Jaime Canet...
FolhaA ditadura reduziu muito o poder da classe política e beneficiou a entrada de tecnocratas naquele período. A indicação de Jaime Lerner se deu nesse contexto?
OliveiraEle foi indicado por um governador do Paraná, que também havia sido indicado Haroldo León Peres, em 1971. León Peres foi uma indicação palaciana, do Planalto. Há uma versão muito difundida segundo a qual a mulher do Médici, Cila Médici, jogava baralho com a mulher de Haroldo León Peres. Ela teria tido um papel muito importante na indicação de León Peres. O ex-governador não tinha base política no Paraná. Ele era militar, egresso de Maringá, com carreira política no Norte do Paraná e não tinha apoio na Assembléia Legislativa nem no empresariado, e tampouco nas velhas famílias da classe dominante do Paraná tradicional. Tanto que alguns meses depois foi destituído, através de uma denúncia de corrupção gravada pelo empresário Cecílio do Rego Almeida. Como não tinha base política, León Peres sofria menos pressões e indicou o jovem arquiteto desconhecido, o tecnocrata Jaime Lerner, imaginando que não teria nenhuma ameaça política e que, dessa forma, ele controlaria facilmente o prefeito de Curitiba. O resultado é que ele foi destituído e Jaime Lerner permaneceu à frente da Prefeitura, realizando uma boa gestão, tecnocrática, com inovações urbanísticas, o que o fez ser chamado de novo em 1979 pelo então governador Ney Braga. Foi quando Lerner consolidou, de fato, seu perfil político ligado ao planejamento urbano. Logo, há conexões. Uma delas, também muito interessante, é que a eleição para prefeito de Curitiba, em 1954, foi disputada por Ney Braga, que havia sido chefe de polícia, equivalente a secretário de Segurança, e pelo pai de Requião, Wallace de Mello e Silva. Ney Braga venceu a eleição. E agora, na última eleição para governador, quem disputou foi o filho de Mello e Silva, o agora senador Requião, e o herdeiro político de Ney Braga, Jaime Lerner. Logo, a eleição de 1998 nada mais foi que a atualização da eleição para prefeito de Curitiba em 1954. Coisas da continuidade.
FolhaO que a continuidade traz como consequência para a história do Estado?
OliveiraO Paraná é um Estado que se modernizou imensamente, que apresenta um perfil bastante dinâmico na federação brasileira, mas a sua política tende estruturalmente à continuidade. E aí estão, para comprovar, as famílias que vêm desde o período colonial e até políticos novos, mas que mantêm o mesmo padrão de continuidade. Um exemplo é Aníbal Khury. Nenhum Estado brasileiro teve um deputado estadual com a magnitude dele. São famílias novas que entram na política e tendem também a permanecer. É o caso das famílias Dias, Belinati e Fruet.
FolhaIsso contribui para o caráter conservador do Estado?
OliveiraSem dúvida alguma. E também é produto dele.
FolhaAs mudanças da última década na economia do Estado incorporaram novas famílias. Isso vai refletir na continuidade da política?
OliveiraReflete sim. A Revolução de 30 não alterou em praticamente nada o domínio tradicional. O movimento de 64 também não. Tanto que as duas maiores lideranças paranaenses do movimento de 64, do regime autoritário, foram o ministro Flávio Suplicy de Lacerda, de um grupo tradicional da Lapa, e o general Antônio Carlos Muricy, também de um grupo muito tradicional. Ele era do alto comando e foi cotado, pela linha dura do Exército, até para a presidência da República em 1969. Mas sempre há uma renovação. A Assembléia Legislativa foi quase completamente renovada. Mas, no meio da renovação, ainda encontramos personagens como o deputado Plauto Miró Guimarães, de um grupo extremamente tradicional e conservador da região de Ponta Grossa. Trata-se de um nome em ascensão.
FolhaEstamos chegando a duas décadas de eleições gerais democráticas. Com isso, houve um crescimento da importância do agente político. É possível dizer que o tecnocrata está condenado a perder espaço nessa nova realidade?
OliveiraAcho que sim. Essas lideranças tecnocráticas que emergiram durante o regime militar têm de ceder a vez a lideranças temperadas pelo sistema democrático. É difícil, por exemplo, imaginar o Jaime Lerner sendo eleito vereador no início de sua carreira. Provavelmente, na democracia, ele não teria tido a carreira política que teve, porque ele não sabe falar em público, não tem carisma, não tem retórica. Ele deve sua habilidade à incrível capacidade de planejador urbano, de arquiteto talentoso e de um organizador de grupo. Agora está chegando a geração que ingressou na política já na década de 80. O próprio Greca se elegeu vereador em 1982, pelo PDS, enquanto Requião se elegia deputado estadual pelo PMDB. Na mesma eleição, Ney Braga foi derrotado para o Senado e Saul Raiz perdeu a eleição para Richa.Sociólogo conclui que política tradicionalista do Paraná e impopularidade de FHC podem derrotar PFL e acabar com a era do governador
Kraw PenasCONSTATAÇÃOOliveira: O Paraná tem uma identidade política conservadora muito bem definida. Ela privilegia o silêncio e não a expressão em alto som





