Entrevista
Cláudia Lopes
De Londrina
Com a globalização, a situação do trabalhador brasileiro piorou?
LenyPiorou aqui e no resto do mundo. Como este desemprego é estrutural, as pessoas não têm expectativa de que vai melhorar. Isso se deve ao jeito de como a sociedade se organizou em função da economia e do mercado. Não há mais esperança do desemprego ser resolvido daqui a algum tempo como aconteceu na crise do petróleo, por exemplo. Ou seja, que saindo da crise tudo melhore. O desemprego estrutural se deve ao fato de termos incorporado uma série de tecnologias como máquinas e forma de organização em que prescindimos da força de trabalho viva para produzir e gerar serviços. A informática é um exemplo de supressão de forma de trabalho.
FolhaE como reverter esta situação?
LenyA sociedade pode fazer duas escolhas: ou divide o tempo de trabalho humano, que hoje é menor, entre todo mundo, reduzindo as jornadas e aumentando a quantidade de folgas, ou mantém um grupo trabalhando e o resto desempregado - e é isto que estamos observando no momento. Uma saída também é a criação de alternativas de trabalho e renda que não sejam via emprego assalariado, que são as cooperativas. Desta forma, criamos uma maneira de ter renda sem estar empregado. Na Universidade de São Paulo (USP), existe uma incubadora de cooperativas tecnológicas populares formada por um grupo de desempregados que não têm perspectiva de voltar ao mercado. Essa incubadora faz com que as pessoas discutam, pensem, criem e implementem uma forma de ganhar dinheiro prestando serviço. É uma alternativa criada pela sociedade civil, que funciona como contraponto do trabalho assalariado, e que não é terceirização.
FolhaFalando nisso, os empregados estão preparados para a terceirização?
LenyÀs vezes, a terceirização é uma estratégia para fazer de conta que o trabalho sujo não faz parte de um determinado processo de produção. No sistema bancário, por exemplo, terceiriza-se atividades que os bancários realizavam normalmente como a digitação, e que é um serviço essencial. Não é como as terceirizações de setores como limpeza e alimentação numa indústria. Desta forma, os bancos conseguem tirar da base do sindicato um grupo de trabalhadores expostos a risco de doenças como a Lesão por Esforço Repetitivo (LER), desmobilizando o grupo. Como não há mais emprego, os trabalhadores estão sendo forçados a aceitar a terceirização, que até pode ser boa para algumas pessoas. O complicado é que este processo não dá opção aos trabalhadores. Fomos criados para ser empregados e de repente temos que ser marqueteiros de nós mesmos para conseguir trabalho. E tem muita gente que, apesar de muito competente em sua área, não sabe desempenhar este papel.
FolhaA terceirização pode ser nociva também para as empresas que resolveram adotá-la?
LenyAlgumas empresas vão perder com a terceirização porque perdem a lealdade de seus ex-funcionários, que agora são terceirizados. Não dá para ser fiel a uma empresa que não é leal em suas relações de trabalho. O modelo japonês deu tão certo por causa da existência de empregos vitalícios. Com isso, as empresas não tinham medo de investir em treinamento e os funcionários podiam se envolver mais por causa da estabilidade. Por conta da terceirização pode-se perder qualidade porque, para mantê-la, é preciso que o trabalhador se preocupe com o que está fazendo.
FolhaOs conceitos de cooperativismo e terceirização são diferentes?
LenyNos dois casos, o trabalhador oferece seus serviços. A grande diferença é que numa situação de cooperação autogestionada, ele não tem alguém que é dono daquele lugar e que vai lucrar em cima do seu trabalho. Formar uma cooperativa autogestionária é sempre melhor do que trabalhar numa prestadora de serviços.
FolhaQue tipo de mudanças devem ocorrer no mercado de trabalho?
LenyO próprio conceito de trabalho está mudando. Ou melhor, o significado do trabalho para as pessoas. Fomos educados para ser empregados, obedecendo ordens, fazendo o que está definido sem questionamentos. Em cooperativas, temos que passar a trabalhar num esquema de participação. Requer das pessoas outro tipo de envolvimento no trabalho, que é o de não mais executar uma tarefa que alguém definiu para você, mas passar a decidir juntos como será este trabalho, sugerindo mudanças e alternativas. Ou seja, trabalhar num sistema cooperativo é participar da gestão. Mas é importante fazer uma distinção. Existem cooperativas que são apenas fachadas, as coopergatos - usadas pelo empregador para se desvencilhar dos encargos trabalhistas. E tem aquela que é autogestionária, em que de fato as pessoas participam da gestão e da definição do estatuto.
FolhaComo ficam os direitos dos trabalhadores?
LenyCom o desemprego, muitas pessoas estão perdendo direitos como Fundo de Garantia, férias e 13º salário. É preciso se organizar para tentar conquistar outros e criar mecanismos de seguridade social.
FolhaA globalização pode colocar em risco a saúde do trabalhador?
LenyCom a globalização, existe mais possibilidade das empresas instalarem unidades em qualquer lugar do mundo. Esta facilidade de transfêrencia de plantas industriais aumenta o risco de doenças e acidentes nos trabalhadores do Terceiro Mundo porque é mais fácil transportar o trabalho sujo para um lugar onde não tem organização social forte nem legislação. Também não há como proibir que determinados tipos de processo de produção sejam instalados nestes países, já que os trabalhadores sofrem com a supressão de postos de trabalho.
FolhaHoje, não só os desempregados sofrem. Os trabalhadores também estão sofrendo. Quais são os motivos?
LenyO trabalho tem um valor muito forte para as pessoas. Trabalho é igual dignidade, enquanto desocupação significa vagabundagem. Além da questão financeira, há o problema de ordem de valor de quem está desempregado. Já quem está no mercado, vive uma situação em que o poder de pressão da gerência é muito grande por causa do exército de desempregados que existe atualmente. Então, o trabalhador doente evita dizer que não está bem, passando a suportar situações que não aguentaria fora deste contexto. Algumas doenças causadas pelo trabalho às vezes não são tornadas públicas porque os doentes ganham menos estando afastados. Tem gente que também suporta a situação para não sujar sua carteira profissional.
FolhaMuitos trabalhadores brasileiros sofrem de problemas de saúde mental. Por que isso ocorre?
LenyO problema da saúde mental está ligado a impossibilidade das pessoas controlarem as atividades que fazem. O trabalho pode gerar um sofrimento mental ou desencadear uma patologia mental quando as pessoas não têm mecanismos de regular as pressões a que são sujeitas no dia-a-dia. Ter controle é fazer com que a situação funcione de acordo com o que é suportável. O trabalhador pode organizar suas atividades, dividindo o que fará de manhã, à tarde e por onde irá começar. Mas existem situações onde não há nem um espacinho para isso, gerando o sofrimento.
FolhaMas uma dose de angústia não é normal?
LenyÉ sim. O sofrimento em si não é o problema. A falta de condições de administrar o que gera o sofrimento é que é o problema. O trabalho sempre exige algum esforço e incômodo. Mas não pode ser exagerado, pela falta de controle.
FolhaQuais os sintomas do distúrbio mental?
LenyÉ difícil relacionar os sintomas porque cada pessoa tem um jeito de ser. Diante da mesma situação e pressão, cada trabalhador reage de uma forma. Um tem dor de estômago, o outro taquicardia e um terceiro tem ataques histéricos. Há gente na área de administração das empresas que vê as particularidades dos indivíduos como um problema. O trabalho tem que ter possibilidade de flexibilização para que, sendo cada um de um jeito, todos possam ter espaço de regulação. A rigidez de procedimentos, de ritmo e de tempo é complicada porque é difícil que pessoas diferentes consigam cumprir isto sem algum dano.
FolhaOs distúrbios mentais têm aumentado nos últimos anos no País?
LenyApesar de eu não ter dados estatísticos, os números da Previdência mostram que os gastos com patologias mentais são importantes. É um dos primeiros motivos que levam as pessoas a se afastar do trabalho. Houve uma mudança no processo de trabalho, que hoje demanda mais esforço mental, concentração e atenção do que esforço físico. Também cresceram muito os serviços de venda e atendimento pelo telefone. No telemarketing, mesmo quando ofendido, o atendente tem que ser educado.
FolhaQuais os principais distúrbios decorrentes da pressão enfrentada pelos trabalhadores?
LenyAs doenças psicossomáticas em geral e as patologias mentais que se associam com o estresse. Alguns estudos escandinavos mostram que as funções nas quais existe grande pressão associam-se com doenças cardiovasculares, distúrbios do sono, problemas gastrointestinais e com vários tipos de manifestação de irritação. Mas vai depender muito do jeito de cada pessoa. Como já disse, somos tão singulares que, vivendo uma situação comum, cada um de nós reage de maneiras diferentes. Algumas pessoas - que são minoria - conseguem lidar com estas situações evitando a vivência do sofrimento.
FolhaA Lesão por Esforço Repetitivo (LER) está aumentando muito com a utilização dos computadores. Dá para evitar a doença?
LenyA LER é uma das expressões da impossibilidade dos trabalhadores regularem suas atividades. Se uma pessoa tem que fazer uma determinada tarefa, fazendo sempre o mesmo movimento, e não tem um jeitinho de tomar café ou levantar, é provável que desenvolva a doença. Quanto menos condições de administrar o trabalho, de acordo com o ritmo de cada um, maior a chance de ter a lesão.
FolhaQue sugestões a senhora daria para que os empregados possam, então, melhor administrar o trabalho?
LenyAlém da empresa, os trabalhadores têm que fazer uma pressão para promover as mudanças necessárias, pensando em formas de planejar os serviços. As pessoas devem definir o contéudo de atividades que realizam, qual o poder que têm em seu cargo, o conjunto de atribuições, as jornadas diárias de trabalho, quanto têm que produzir, as folgas e o relacionamento com os colegas. Algumas atividades são mais livres. Nestes casos, pode-se negociar a troca de colaboração entre os colegas, encontrando brechas na rotina. É preciso replanejar o trabalho, pensando em como fazer o produto final de um outro jeito. No caso da Lesão por Esforço Repetitivo, não é necessário mudar apenas a cadeira, a mesa e a duração da jornada. É preciso pensar num meio da pessoa mesclar as atividades, flexibilizando o trabalho. Só que às vezes o rodízio piora porque existe uma pressão grande, junto com as tarefas. Se tem um chefe pressionando, o rodízio não adianta, já que a doença se deve à realização de atividades repetitivas em uma situação de pressão.
FolhaQuais são os prejuízos, além do dano à saúde, que o trabalhador com LER tem?
LenyAlgumas empresas descartam candidatos que já trabalharam em determinadas indústrias com histórico da doença. Em Guarulhos (SP), um número tão grande de pessoas teve Lesão por Esforço Repetitivo na linha de montagem de rádios de uma indústria de veículos que, mesmo que o ex-funcionário não tivesse a doença, a nova empresa evitava contratá-lo.
FolhaOs requisitos para arranjar um emprego aumentaram. Eles são tão importantes assim?
LenyAlgumas exigências são feitas apenas por comodismo. Numa época de desemprego tão grande aumentam os requisitos de qualificação para facilitar o recrutamento e evitar que filas de mil pessoas sejam formadas em busca de cinco vagas. Quando existe maior oferta de trabalho não há tanta exigência de escolaridade. Hoje, tem empresa exigindo 2º grau completo para um cargo de auxiliar de produção.
FolhaA grande maioria da população não tem nem primário. Muitos acham normal fazer o discurso da empresa e achar que quem não está preparado está fora do mercado...
LenyNão se pode esquecer que a ideologia existe e tem sua eficácia quando o explorado incorpora o discurso do explorador. A gente vive numa sociedade onde o culto ao individualismo é muito grande. Hoje, a sociedade civil não está conseguindo se organizar suficientemente para enfrentar os problemas. Quem está preparado não consegue ver que isso não é tarefa fácil. Há uma pesquisa da USP que quis entender quais as formas que os trabalhadores usam para explicar o desemprego. Os alunos concluíram que os trabalhadores usam duas matrizes explicativas: uma que é ideológica, que diz que é assim porque a pessoa não estudou e não se preparou. É um discurso que culpabiliza o desempregado. A outra matriz entende que o desemprego está relacionado com política econômica e com todas as mudanças que têm acontecido em relação ao trabalho, a tecnologia, a informatização.Psicóloga analisa efeitos nocivos das mudanças na economia e sugere alternativas para empresas, empregados e desempregados
Mario CesarDIAGNÓSTICOLeny: doenças psicossomáticas e patologias mentais associadas ao estresse formam conjunto de pressão contra os trabalhadores





