A CPI do Narcotráfico não chegou aos cabeças do esquema no Paraná, mas deu o start a um processo de depuração da Polícia Civil do Estado, com o afastamento, pelo governo, de delegados e policiais suspeitos de envolvimento. O presidente da CPI, deputado federal Magno Malta (PTB-ES), disse que o resultado preliminar das investigações superou todas as expectativas da comissão parlamentar, que tinha certeza que não iria encontrar nada pior do que detectou no Acre. ‘‘As denúncias encontradas no Paraná (contra policiais) superam em muito as do Acre’’, constata o deputado. Em entrevista à ‘Folha’, Malta fala dos trabalhos da CPI e dos seus próximos desafios no Mato Grosso do Sul e em Pernambuco. O deputado trata ainda da importância da imprensa no processo de apuração das denúncias e na necessidade de os governos estaduais reverem seus quadros policiais e adotarem políticas específicas de combate ao narcotráfico e ao crime organizado. Malta diz que o tráfico, o roubo de carros para desmanches, e desvio de cargas, no País são crimes conexos. Malta deixou o Paraná com algumas frustrações. Pela falta de tempo, a CPI não conseguiu avançar em temas como a lavagem de dinheiro. A comissão também não levantou qualquer elo de participação de políticos e de magistrados. E ao final dos trabalhos, a comissão parlamentar foi acusada por integrantes do Ministério Público do Estado de ter amolecido na tomada de depoimento do secretário da Segurança, Cândido Martins de Oliveira, também citado por testemunhas convocadas pela CPI como parte do esquema de corrupção instalado. A seguir a entrevista. ENTREVISTA ‘‘O narcotráfico se ramificou no Brasil’’ Presidente da CPI das drogas diz que o tráfico está sempre atrelado a outros crimes, espalhado em todo País Carmem Murara e Leandro Donatti De CuritibaFolha – Qual a sua avaliação sobre as atividades da CPI do Narcotráfico no Paraná? Magno Malta – Achei extremamente valioso para o País e para o Paraná. Ficou bastante patente que os governadores do País, a partir deste momento, precisam rapidamente cortar a parte podre da Polícia e reciclar a parte significativa. O que está patente hoje é o comprometimento de parcela da polícia, no Brasil, o que tem sido o salvo-conduto para destruição da sociedade. Folha ᖠO senhor esperava encontrar tantas denúncias no Paraná? Malta ᖠA gente espera encontrar cada coisa neste Brasil... Nada nos assusta mais. A gente só não achava que iria encontrar uma polícia tão comprometida, porque a gente achava que não tinha nada que iria conseguir superar o Acre. Folha – O Paraná superou o Acre? Malta – Superou e muito. Folha – O senhor avalia que a cúpula, como por exemplo, o delegado João Ricardo Képes Noronha, pode estar ligada com ramificações pelo País, no tráfico nacional? Malta – Não sei, porque eu não ouvi o Ricardo Noronha. Você não pode julgar um cidadão que você não ouviu. Você precisa se defender. Quem é salvo-conduto, faz salvo-conduto. A droga vem de algum lugar. Alguém fez salvo-conduto para ela entrar. Alguém facilita para o outro levar. Esta ramificação não é de um só local. A droga vem de outro Estado e quando sai daqui vai para outro Estado. É assim, sem fazer reunião. Eles se organizam por pura identificação de instinto. Na verdade os que traficam no Paraná, certamente, estão ligados a traficantes de outros Estados. Folha – Dá para concluir que o tráfico de drogas, roubo de carro, desvio de cargas estão atrelados? Malta ᖠIsso é evidente. Eles estão atrelados. Estes crimes não andam só. Roubo de carga é uma realidade no Brasil, diretamente, ligada ao tráfico de drogas, até porque é uma moeda de troca significativa, principalmente carga de cigarros e carga de medicamentos. Folha ᖠUm dos argumentos que os supostos envolvidos no narcotráfico deram é que os depoimentos foram prestados por presidiários, condenados por tráfico, e isso não dá sustentação para o depoimento. Isto é, não daria para levar em conta o que eles disseram. Malta – Quem sabe é por isso que o Brasil está desse jeito, porque o Brasil nunca levou em conta estes depoimentos. Folha – A Comissão Parlamentar de Inquérito terá tempo para investigar o narcotráfico no País, diante do volume de denúncias? Malta – Uma CPI ou um inquérito parlamentar do Congresso Nacional tem que ter prazo para encerrar. Daí para frente o trabalho é do Ministério Público, que por sinal é uma das poucas coisas boas que o País tem. Tanto o Ministério Público Federal quanto o Ministério Público Estadual. A Justiça há de se compenetrar neste novo momento da nação, para que as coisas andem com mais serenidade. Só assim as coisas vão acontecer. É preciso, por exemplo, acabar com a figura do inquérito. Folha – Como assim? Malta – O cara tá preso? Tem que resolver o problema dele em 30 dias. Mudar os códigos, confiscar bens, empobrecer o tráfico. Tudo isso nós vamos propor como política pública no País para acabar com esta burocracia que só beneficia o bandido. Folha – Hoje a burocracia e a própria Justiça acabam beneficiando o criminoso? Malta – A própria lei favorece o bandido. O sujeito tem o artigo 12 (tráfico de drogas). Ele pega cinco anos, mas nunca cumpre mais de que um ano e meio. Hoje, no Brasil, tem gente na rua porque foi beneficiado com progressão de pena por crime hediondo. Isso não existe. É comprometimento de quem? Das autoridades. Viraram salvo-conduto e se misturaram com essa gente. Então, o País vive um momento de revolta da sociedade que não consegue conviver mais com isso. Nós esperamos que esse momento bom mexa com as autoridades, porque nós vamos propor mudança nos códigos. Folha – Tanta denúncia e tantos fatos graves apurados em três dias pela CPI do narcotráfico. No entanto, sempre tivemos esta situação e nada foi feito pelas autoridades. Precisa vir uma CPI de fora para as coisas acontecerem? Malta ᖠAgora, está tudo levantado. Nós levantamos. Mas na verdade, nós somos de dentro. O problema é do Brasil e não só do Paraná. Folha á– É comum haver uma conivência entre poder público e o crime organizado? Malta – O narcotráfico é um monstro que se ramificou pelo Brasil. É um poder paralelo no Brasil. Ele acabou elegendo gente. O narcotráfico tem braço no Poder Legislativo, no Poder Executivo e no Judiciário. Se ramificou e formou uma rede de segurança. O que a CPI fez é deixar ele nu. Tirou a roupa. Agora, alguém tem de se levantar para matar. E tem que ser os poderes constituídos, as autoridades. Tem que ser o Poder Judiciário, os Ministérios, os homens públicos que detêm o poder. Folha – Mas aqui no Paraná, as investigações da CPI do Narcotráfico ficaram restritas à Polícia Civil. Não se chegou nos políticos ou no Judiciário. Por quê? Malta – Infelizmente, há Estados como este, onde a polícia está comandando o narcotráfico. Agora, o problema não é comando do tráfico, é o salvo-conduto. Quem protege a gente é que faz o tráfico. Fazer o tráfico é um problema, mas quem protege o traficante e deixa ele impune é que é o problema maior. É aqui que os homens públicos têm que entrar para poder debelar o problema. Como é que a riqueza sobe o morro? Pelo salvo-conduto. Porque ninguém passa pelo porto, pelo aeroporto ou pela fronteira sem ter um salvo-conduto. E normalmente o salvo-conduto é uma autoridade. É assim no Brasil inteiro. Folha – Como o senhor analisa o envolvimento do ex-delegado geral da Polícia Civil, João Ricardo Noronha? Malta – Ele tinha um nível de comprometimento com crime inadmissível. Um poder como esse. Não é aquela questão do policial facilitar que o bandido não seja preso. É o policial que assume o comando do crime. A prova é flagrante e evidente. São depoimentos, são provas documentais. Uma coisa estarrecedora. As acusações foram tremendas. Folha – Há indícios no Paraná do envolvimento dos poderes Legislativo e Judiciário com o narcotráfico? Malta – Em todos os lugares deste País há juízes comprometidos. Folha – Mas e aqui no Estado, mais especificamente? Malta – No País inteiro. No País inteiro. O narcotráfico tem poder dentro do Poder Judiciário. Tem poder no Legislativo e no Executivo. O narcotráfico elege prefeito. O dinheiro é muito poderoso. Nós temos um país comprometido. Temos um poder paralelo. Folha – Então, o que fazer? Malta – É preciso que a sociedade se levante e abra os olhos e vote. Ulisses Guimarães (ex-deputado federal pelo PMDB) dizia que somente o povo pode ajudar o povo. Se a gente ficar esperando que a polícia mude a situação do narcotráfico na cidade, ela não vai mudar. O Poder Judiciário não vai recuperar ninguém. Isso é uma ação da sociedade como um todo. Então, nós precisamos nos desiludir destas questões e saber que elas são importantes, mas esta é uma ação da sociedade. Folha – Qual é o próximo passo da CPI do Narcotráfico? Malta – Depois do Paraná, vamos ao Mato Grosso do Sul com diligências e, em seguida, vamos ao Polígono da Maconha, em Pernambuco. Folha – Corre-se o risco de a CPI vir ao Estado, investigar e apurar fatos novos que depois caem no esquecimento, por que não se faz? Malta – A Bíblia diz que um é que semeia e outro é que ceifa. Nós estamos semeando. Alguém vai ter que ceifar. Folha – Vocês querem agora que o governo do Estado ceife? Malta – Exatamente. E vocês vão ter que fazer com eles o que fazem comigo, acuá-los todo o dia. Correr atrás, com o microfone na mão. Porque vocês têm mais força do que nós.

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