Entrevista - Maria de Lourdes Montenegro
Folha - Como a senhora vê a situação da mulher hoje, sobretudo no mercado de trabalho?
Maria de Lourdes Montenegro - A mulher é uma vencedora. Hoje, por exemplo, há um número tão grande de jornalistas, que assusta os homens. A produtora do programa do Jô Soares é uma mulher. Nas empresas, elas também estão assumindo cargos. As mulheres sempre estiveram em funções muito importantes dentro das empresas americanas. Foi nos Estados Unidos que começou toda essa briga por espaço. Hoje você vê isso no Brasil. Na Justiça, antes não havia lugar para as mulheres. E elas estão ganhando espaço. Apesar disso, há uma dificuldade grande da política, tanto local como nacional, em aceitar essa mulher preparada, moderna, que não tem medo.
Folha - A presença das mulheres na política realmente ainda é tímida. No Paraná, apesar de termos uma vice-governadora, não elegemos sequer uma deputada federal. Por que isso ainda ocorre?
Maria de Lourdes - Não é só no Paraná que isso acontece, é no Brasil inteiro. Eu sou de 1932. Foi naquele ano que as mulheres tiveram direito ao voto. Para a história, 67 anos é pouco. Mas nesse tempo, vimos uma Marta Suplicy quase ser eleita governadora de São Paulo. Isso tem um peso em termos de movimentos feministas muito importante. É sinal que muita gente - homens e mulheres - acreditou naquela mulher.
Folha - A dificuldade de a mulher se inserir na política também se deve a uma falta de vontade delas?
Maria de Lourdes - Primeiro é a falta de vontade delas. É uma questão cultural. Como elas sempre serviram cafezinho, não se sentem à vontade de sentar e tomar o cafezinho. Em segundo lugar, a mulher é mais honesta. Que os homens me desculpem, mas ela tem pavor do que está acontecendo hoje no âmbito nacional com as representações políticas. É um representante que rouba, outro que mata, e essa troca de favores. A mulher não é dessa área. Gostaria de ser eleita para defender a população e não para explorar.
Folha - Mulher vota em mulher?
Maria de Lourdes - Hoje vota. Antes não votava porque não tinha nenhum direito. A ignorância da mulher fazia com que ela dependesse sempre da opinião do marido, sem discutir. Ela perguntava: Querido, em quem vamos votar? Atualmente, na maioria das casas, há um debate na hora da eleição. Eu já fui candidata a deputada federal, em 1986. Na época, tive 12 mil votos, mas precisava de quase 20 mil para ser eleita. Seria a primeira deputada federal do Paraná, mas naquela época era muito difícil votar em mulher.
Folha - E depois da derrota, desistiu de tentar?
Maria de Lourdes - Eu nunca mais quis saber de política. Acho que eu era muito infantil para enfrentar uma derrota. Não devia ter saído da jogada. Como eu queria ser constituinte e não haveria outra Constituição, não quis mais saber.
Folha - Por que a senhora queria ser constituinte?
Maria de Lourdes - Achava que eu tinha direito e dever por ser uma professora, socióloga, que trabalhou a vida inteira, que ouviu o povo. Eu não precisava ser uma política eleita para ouvir o povo, eu sempre ouvi. Sempre participei de partido, fui do PMDB e depois do PSDB. Fui presidente do PSDB. Eu continuei fazendo política porque a minha ação é política em todo o lugar que vou. Afinal, sou uma educadora e é isso que eu quero ser, mas não apenas dentro da universidade.
Folha - Em que áreas as mulheres têm mais dificuldades de progredir?
Maria de Lourdes - Antes era nos jornais. Hoje, não é mais. Nas universidades, a mulher está onde quer. Está dando aula em todos os setores, mas é raro chegar a reitora. Já temos mulheres governadoras, mas não que tenham chegado no cargo pelo seu valor. A Roseana Sarney, do Maranhão, que hoje é considerada uma ótima governadora, chegou lá por ser filha do Sarney. Na Polícia, também é muito difícil. A maioria está na área burocrática. Se elas tivessem em maior número nas ruas, a situação seria melhor. A mulher consegue enxergar mais o problema das pessoas. Nas empresas, as mulheres também não são diretoras, a menos que sejam mulheres dos donos.
Folha - Quais as desvantagens da mulher?
Maria de Lourdes - Mulher engravida e isso é um pecado dentro de qualquer atividade profissional. Se pudessem castrar todas as mulheres, achariam uma maravilha. Castrariam as mulheres e comprariam bebês em supermercado. Na época em que surgiu a licença maternidade, por exemplo, nunca houve tanta mulher na rua.
Folha - A mulher é competitiva?
Maria de Lourdes - Ela não tem a mesma competitividade que os homens, tem medo de competir. A mulher é pacifista. Se formos procurar uma mulher que não signifique pacifismo, só encontraremos a Margareth Tatcher e acabou. A mulher, desde jovenzinha, disputa o mercado de trabalho, mas sem a violência do homem. No geral, é preciso ser mais agressiva para melhorar.
Folha - O que mais as mulheres precisam fazer para melhorar?
Maria de Lourdes - Elas têm que se capacitar para melhorar de nível dentro das empresas. Precisam estudar e se tornar melhores. A capacitação das mulheres é que vai levá-las a um momento ideal no mercado de trabalho.
Folha - Com o avanço no mercado de trabalho, o salário da mulher está melhor?
Maria de Lourdes - A mulher continua ganhando menos pelo mesmo trabalho. Ela precisa ser ótima para disputar com um bom. Elas estão há pouco tempo no mercado e os homens também estão demorando para aceitar essa nova mulher.
Folha - A maioria das mulheres está no mercado de trabalho?
Maria de Lourdes - Está, mas a maioria ainda é diarista e empregada doméstica. À medida que começam a melhorar a profissão e o salário, daí não é a mulher que está na função e sim o homem.
Folha - Mas as mulheres estão chegando em maior número às universidades, não estão?
Maria de Lourdes - As mulheres estão querendo mais do que ser professoras, diferente do que ocorria antigamente. Por outro lado, os homens estão desistindo de profissões que pagam pouco. Há 30 anos, as mulheres eram apenas 5% nas universidades. Mesmo assim, hoje, os homens ainda têm mais oportunidade. Ainda é difícil acreditar que a mulher esteja capacitada para um cargo, que até agora foi comandado por homens.
Folha - Como o homem, muitas mulheres estão deixando de lado a vida pessoal para se dedicar ao trabalho?
Maria de Lourdes - É igual com homens e mulheres. Tem homem que considera o trabalho tudo na vida. O trabalho é religião, esporte e alegria. A consequência disso é isolamento, solidão e um fim horrível. O trabalho pode trazer milhares de alegrias, satisfações e dinheiro, só que chega uma hora em que se tem de voltar. Mas voltar para onde, se a pessoa não preparou o lugar para voltar?
Folha - A mulher paranaense também está no mercado de trabalho ou ainda é conservadora?
Maria de Lourdes - Ela já foi bem mais conservadora. Hoje, existem mulheres nas federações, nos jornais e nas empresas. Além disso, não ficam mais encabuladas em falar que estão trabalhando fora. A jornada dupla antes era uma vergonha. Entre as minhas amigas, fui a primeira a sair de casa para trabalhar. E era uma vergonha. As outras diziam: Nossa, será que ela precisa tanto? Hoje, as mulheres estão saindo de casa e dizendo que têm capacidade e direito. O comércio, por exemplo, é uma área em que as mulheres estão em grande maioria.
Folha - Mesmo as que optaram por ser donas de casa estão mais independentes?
Maria de Lourdes - A mulher está participando mais. A dona de casa é uma mulher que tem prazer em ter a casa em ordem, mas é diferente da dona de casa de antigamente, que não saía pra rua, não participava, não lia jornal, não ouvia rádio, não ia para a escola e não participava da discussão sobre o futuro dos filhos. A submissão já é bem menor. Mas não podemos dizer que não existem mais mulheres submissas.
Folha - A mulher gosta da dupla jornada?
Maria de Lourdes - Escutei outro dia a Marta Suplicy falando que ela adora esse acúmulo de funções, que ela se sente importante. Acho que a mulher, em geral, tem vaidade de dizer que tem capacidade de fazer tudo, tem orgulho. Para uma mulher inteligente que chega a conquistar espaços e, assim mesmo, faz café da manhã e serve para o marido, acredito que a dupla jornada seja um prazer. E também hoje a mulher não faz mais tudo isso sozinha. O homem ajuda, troca até fraldas.
Folha - O que mudou no contexto geral para as mulheres dos anos 70 para cá?
Maria de Lourdes - Naquela época, não tínhamos licença-maternidade, não víamos mulheres no meio de comunicação, e tínhamos que enfrentar os tabus. A Constituição também quebrou muitos tabus. Os homens deixaram de ser os cabeças do casal e as mulheres passaram a ser olhadas com mais respeito. Hoje, a mulher tem o mesmo direito de discutir sobre os filhos e as propriedades.
Folha - Mas a violência contra a mulher ainda é uma evidência.
Maria de Lourdes - A violência é enorme, tanto que o número de delegacias da Mulher aumentou da década de 80 para cá. A violência aumentou ou se tornou visível. Antigamente, uma mulher apanhava do marido e ficava quieta porque dependia economicamente dele, e para não se expor. Hoje, se apanha, é só uma vez. Isso quando se fala em mulheres de classe média. As outras têm medo. O problema econômico ainda é muito sério dentro da família.
Folha - Como a senhora tem visto a mulher na maturidade?
Maria de Lourdes - Muito bem. Eu que acompanhei toda essa evolução - trabalho com as questões femininas há 48 anos - vi a antipatia que existe em relação aos movimentos da mulher. Essa antipatia desaparece quando a mulher atinge a maturidade. A maioria, que está na classe abaixo da média, está preocupada com a família, o espaço e os clubes que dão a essa mulher um pouco de chance de viver. As de classe média estão no mercado de trabalho e não param mais. Uma mulher com mais de 60 anos aproveita para estudar e trabalhar. As que podem, viajam mais. As que gostam de ler, lêem mais. Hoje, também tem muita mulher na frente do computador.
Folha - Como é a sexualidade da mulher na maturidade?
Maria de Lourdes - Há uma tranquilidade, que não significa morte da sexualidade. Mais nas mulheres e menos nos homens. O homem tem aquela cultura do machista, do eterno conquistador. Ele sempre está pensando que tem 18 anos. A mulher não, ela sente que os anos passaram. A mulher pode até aproveitar uma oportunidade, se ela já não é casada, é viúva ou divorciada, mas não se expõe. Ela não é ridícula. Quando eu digo não se expor, não significa medo, mas é uma noção exata do limite. Se uma mulher é avó, é mãe de família, tem um tipo de atitute que pode ser copiada pela outra geração. Ela tem a preocupação de que os netos podem se espelhar nela, então acha que tem que deixar um bom exemplo. Não é a mesma coisa com o homem.
Folha - E o casamento, como é?
Maria de Lourdes - É uma tragédia. Eu vou dar o exemplo do homem aposentado. Não tem nada mais chato que o homem aposentado. Por quê? Porque a mulher sempre quis que ele a acompanhasse e desse atenção à família. Ele nunca fez isso porque tinha o trabalho, os amigos, o futebol - milhares de atividade - e sobrava o mínimo para a mulher. E daí, quando ele se aposenta, em vez de voltar atrás, fica o maior chato em casa, com a limpeza da casa. Que me desculpem as mulheres que têm um marido inteligente, que diz: Agora nós estamos aposentados e vamos passear. A maioria não faz isso.
Folha - E nesses casos, como fica a sexualidade?
Maria de Lourdes - Vai para o brejo. O grande problema da sexualidade é preciso que se queira. Depois, eles querem tomar Viagra, mas não para sair com as mulheres deles, querem com outras. Os homens querem fazer bonito com as mocinhas. A mulher, se for uma boa companheira, não vai exigir que ele seja o herói. É importante lembrar que sexualidade não tem tempo. Ela é eterna porque a sexualidade não é a relação sexual entre um casal. Pode haver uma relação de amor muito grande, sem que haja um ato sexual. É um conjunto de atitudes que faz um casal feliz: tato, beijo, abraço, mão dada, olhar carinhoso e elogio.Mauro FrassonSexto sentidoMaria de Lourdes: A mulher consegue enxergar mais o problema das pessoasAnna CamanducaiaA socióloga, professora e militante política que sempre esteve à frente das causas femininas, agora está preocupada principalmente com a educação da população. Maria de Lourdes Montenegro, 66 anos, acredita que as mulheres já estão seguindo seu caminho. Deposta a bandeira da igualdade de condições e espaço na sociedade, ela agora se engaja em projetos de educação e relacionamento comunitário de outros segmentos. A rotina de hoje desta lapeana, que chegou a Curitiba com 18 anos de idade e logo começou a trabalhar, é dar palestras por todo o Brasil. Um dos novos projetos é trabalhar com o treinamento de policiais militares do Paraná, dentro da proposta Polícia Cidadã, em implantação pela Secretaria da Segurança Pública. Treinamento de funcionários de empresas
é outra atribuição ativa. Atualmente, Maria de Lourdes Montenegro está voltada a palestras sobre relacionamento humano em empresas da Cidade Industrial de Curitiba, entre elas, a Inepar. As discussões sobre a mulher ocuparam 48 anos da vida da socióloga e hoje, no Dia Internacional da Mulher, ela faz uma avaliação sobre avanços e deficiências da mulher no mercado de trabalho e dentro da própria família. Para ela, as mulheres conquistaram espaços, que antes não imaginavam ter, mas ainda há muito por fazer. Nas empresas, ainda é difícil chegar ao topo e, na política, a participação é tímida em todo o Brasil. Acompanhe o que pensa Maria de Lourdes Montenegro sobre as mulheres e também os homens, nesta entrevista à Folha:
Ainda falta mais agressividade à mulher
Socióloga e professora que há 48 anos se dedica às questões femininas acredita que a mulher avançou, mas pode mais





