Osmani Costa

FolhaDepois da queda do Muro de Berlim, do desmantelamento da União Soviética e da abertura econômica chinesa, o senhor, como intelectual norte-americano, não se considera meio fora de moda pregando a existência da luta de classes e a futura volta do socialismo?
PetrasNão me preocupo em estar dentro ou fora do que hoje está na moda. Os intelectuais, de forma geral, vão mesmo para o lado mais fácil, para onde o vento está soprando. Quando os movimentos sindicais, populares e sociais estão fortes, eles lhes dão apoio. Quando estes estão em refluxo, em baixa como agora, os intelectuais se apegam aos novos donos do poder. Eu prefiro manter minha coerência histórica, apesar de todas as dificuldades.
FolhaE a luta de classes, que a maioria dos cientistas sociais e dos políticos diz ter chegado ao fim, ser coisa do passado. O senhor continua defendendo a sua existência?
PetrasO fim da luta de classes é um dos mitos que sustentam o neoliberalismo e o imperialismo norte-americanos. É óbvio que ela continua existindo. E hoje ela está mais cruel do que nunca. O aumento do desemprego, a privatização das empresas estatais, a mecanização da agricultura e a formação de grandes latifúndios, o desmantelamento da previdência social estatal. Tudo isto são sinais da atual luta de classes. Nela, a massa trabalhadora é prejudicada em benefício de poucas e poderosas empresas privadas.
FolhaO senhor é contra as privatizações? Elas não representam a modernização e o necessário enxugamento do Estado?
PetrasSou contra a privatização das empresas estatais estratégicas, eficientes e necessárias para a prestação de serviços essenciais à população carente. Que modernização é esta, que tira os recursos da maioria da população para concentrá-los nas mãos de poucos grupos econômicos? O que está havendo no Brasil, por exemplo, é péssimo. Nem os poderosos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental poderiam imaginar que seria tão fácil ‘‘comprar’’ estatais tão importantes como a Vale do Rio Doce, a Telebrás e, em breve, o Banco do Brasil e a Petrobrás. Elas estão sendo entregues a preço vil pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.
FolhaO senhor conheceu as pesquisas e teses defendidas por FHC enquanto sociólogo, antes da entrada dele na política?
PetrasConheci, e as respeitava muito até alguns anos atrás. Ele foi um teórico progressista de respeito; fazia uma boa análise da opressão exercida pelos países imperialistas sobre os subdesenvolvidos. Agora, no poder, ele abandonou todas as suas teorias. Ele e seu grupo de sustentação fazem parte da nova direita, que alguns teóricos chamam enganosamente de ‘‘terceira via’’.
FolhaQue avaliação o senhor faz do governo de FHC?
PetrasLastimável. Ele debilitou o Congresso, com a prática da corrupção e cooptação de parlamentares para a formação da maioria. Isto propiciou a efetivação de muitas negociatas com os bens públicos e o surgimento de inúmeros escândalos. FHC centraliza as decisões no Executivo e governa através de decretos; de maneira tão autoritária quanto a que combatia nos governos militares do pós-1964. Ele é um entreguista das riquezas nacionais aos imperialistas, como os últimos presidentes que o antecederam. E do ponto de vista da participação popular e da efetiva democratização da sociedade, seu governo é um fracasso.
FolhaE como é a situação dos outros países latino-americanos, em relação a esta dependência da política ditada pelos Estados Unidos?
PetrasInfelizmente, as posições adotadas pelos governantes dos países que conheço bem - Argentina, Chile, México, Colômbia e outros - não são diferentes das de FHC. As medidas estão levando à concentração das riquezas nas mãos de poucos, à privatização das estatais estratégicas, ao desemprego em massa e ao aumento da pobreza entre a classe operária. Seguindo a cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial - instrumentos de dominação do governo norte-americano - os governos têm jogado pesado no corte dos direitos sociais da população; como por exemplo, com a sistemática privatização de setores da educação, previdência e saúde públicas.
FolhaÉ a chamada diminuição do estado social, que levaria ao Estado mínimo aconselhável para o novo milênio?
PetrasEste tal Estado mínimo é outra bobagem espalhada para os países periféricos a partir de Washington e Londres nas últimas décadas. O que está havendo é uma pilhagem dos Estados, dos bens públicos, em benefício das empresas privadas. As mudanças impostas levam ao fim dos direitos sociais básicos, que foram conquistados pela classe trabalhadora internacional, com duras lutas, em alguns casos há mais de 50 anos. Todo o dinheiro poupado com a vendas das estatais e com o fim dos empregos e direitos sociais vai direto para as mãos da iniciativa privada, para o bolso dos capitalistas que preferem lucrar com a especulação. Estamos chegando ao fim deste século pior do que nele entramos, do ponto de vista de condições de vida para a classe operária.
FolhaComo o senhor analisa o aumento do desemprego nos países não-industrializados, que muitos teóricos dizem ser consequência da falta de aperfeiçoamento da mão-de-obra?
PetrasEsta é uma outra grande mentira, que a mídia centralizada nos interesses do imperialismo norte-americano tenta enfiar na cabeça da população dos países periféricos. O desemprego aumenta por causa da inversão de valores imposta pelos capitalistas. Os investimentos foram transferidos dos setores que geravam empregos para a especulação financeira. Mas, no discurso, jogam a culpa do desemprego nos desempregados. Isto é absurdo. É lógico que é sempre aconselhável o aperfeiçoamento dos trabalhadores. Mas isto não significa a garantia do emprego, o que é facilmente comprovado nos países já industrializados, que também convivem com altas taxas de desemprego.
FolhaIsto seria reflexo então da propalada crise econômica mundial?
PetrasEsta tal crise mundial não existe igualmente para todos. É mais um mito criado para enganar os que sofrem suas consequências. O que há são crises localizadas, em países ainda não-desenvolvidos e fortes. O capitalismo internacional não está em crise. Pelo contrário, nunca as empresas e bancos norte-americanos cresceram tanto e ganharam tanto dinheiro como nos últimos dez anos. A crise existe para a população humilde, mas não para as grandes empresas. Os Estados Unidos prosseguem crescendo como nunca, e fecharão o 2º milêncio como o maior império de todos os tempos, chefe supremo da nova ordem mundial. Tanto que se dão ao luxo de atacar militarmente, no pior estilo possível, um país que ousou tentar se manter independente, como a Iugoslávia.
FolhaO que tem a ver a guerra dos Balcãs com a economia mundial?
PetrasTem tudo a ver, porque ela está ligada ao imperialismo norte-americano, que comanda a economia mundial. As guerras são a nova forma de colonização, de intervenção nos destinos dos países não-alinhados. Os Estados Unidos impõem uma política de pilhagem às economias dos países não-industrializados. E os ataques militares servem para punir os países desobedientes. Além do mais, a guerra contra a Iugoslávia faz parte de um plano de cerco da Otan à Rússia e à China, para a tentativa de expansão final do imperialismo norte-americano. É como se os Estados Unidos quisessem dizer, com esta guerra: ‘‘Nós somos muito poderosos. Nós vamos avançar pelo Leste Europeu e, em breve, pela Ásia e Oceania. Nada poderá nos deter.’’
FolhaSeria, enfim, a tão anunciada globalização da economia mundial? A chegada do mundo sem fronteiras?
PetrasEstas são outras duas grandes bobagens, dois outros mitos criados pelo imperialismo euro-norte-americano para enganar os países não-industrializados. Não existe a globalização da economia - esta coisa de dinheiro sem pátria - e muito menos um mundo sem fronteiras, sem barreiras. Este é o discurso dominante, mas a prática é completamente outra. Tudo bem, as empresas - as montadoras de automóveis, por exemplo - internacionalizaram-se e hoje produzem em muitos países diferentes. Mas, para onde vão seus lucros? Mais de 80% deles vão direto para os países-sede das empresas. Para os governos e trabalhadores dos países em que se instalam, ficam as migalhas. A globalização que existe na prática é esta: as neocolônias produzem, são exploradas, e o império norte-americano lucra.
FolhaE o mundo informatizado, sem fronteiras, pode ajudar a diminuir esta relação desigual?
PetrasO desenvolvimento da informática e a Internet são fatos incontestáveis, mas por si só não significam um mundo sem fronteiras. Porque nos países desenvolvidos prosseguem existindo as barreiras protecionistas, em relação aos produtos saídos dos países não-industrializados. É assim nos Estados Unidos, é assim nos países da Europa Ocidental. Eles discursam que o nacionalismo não tem mais razão de existir. Que o protecionismo cria desigualdades. Que é atrasado ser nacionalista, tanto ou mais que ser comunista. Este é o discurso. Mas na prática, eles continuam defendendo, com barreiras alfandegárias e discriminação seus produtos, suas nações e seus empresários.
FolhaHá movimentos populares que resistem, de forma organizada, a toda esta carga de propaganda dos chamados mitos norte-americanos e suas consequências?
PetrasEste é o grande desafio de nossa época. Resistir à enganação e à ignorância impostas pelo império comandado pelos Estados Unidos. Já temos alguns movimentos que resistem, organizam-se e avançam inclusive com respostas bastante contundentes. São os casos dos sindicatos classistas na Coréia do Sul, com grandes greves, e dos movimentos de saques na Indonésia. No México, temos o Grupo Zapatista controlando uma região importante e resistindo ao cerco da Polícia oficial há anos. Ele, inclusive, já obteve expressivo apoio eleitoral nos últimos pleitos. Na Colômbia, o Exército Popular já controla cerca de 40% do território nacional. No Brasil, o melhor exemplo é o do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que se organiza em assentamentos através do trabalho comunitário com base na alfabetização e na busca da cidadania.
FolhaIsto não é pouco, perante o poderio do capitalismo internacional?
PetrasParece pouco, mas são exemplos concretos de que se pode resistir. Eles fazem parte de um processo, da longa marcha internacional contra o imperialismo; contra os mecanismos reacionários de expansão do capitalismo. É perigoso falar em crise do capitalismo, porque os capitalistas usam o discurso da crise para diminuir as conquistas sociais dos trabalhadores. Vivemos um momento crucial da história da humanidade: ou organizamos a resistência ao avanço do império, ou será a derrocada geral. Mas o crescimento exagerado da especulação financeira e o início da destruição de alguns instrumentos produtivos capitalistas são sinais de que a crise pode vir e chegar aos Estados Unidos. Mas, mais cedo ou mais tarde, o império norte-americano vai ruir; como ocorreu com todos os outros. Só não dá para prever com exatidão quando isto ocorrerá.
FolhaE qual sistema substituirá o capitalismo? O senhor ainda acredita na possibilidade da volta do comunismo do socialismo?
PetrasO antigo comunismo do Leste Europeu cometeu muitos erros. Aprendemos o suficiente com os horrores cometidos naqueles países; e também com os fracassos do neoliberalismo. Por isto, temos que lutar por um socialismo novo, diferente, participativo e democrático. Esta é minha esperança.

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