ENTREVISTA - É possível fazer mais do que está sendo feito aqui
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quinta-feira, 04 de setembro de 2014
Mariana Franco Ramos e Roger Pereira<br>Reportagem Local
FOLHA - O PT tem, historicamente, dificuldade de eleger políticos no Estado. No pleito de 2010, por exemplo, mesmo vitoriosa, Dilma Rousseff (PT) teve desempenho inferior a José Serra (PSDB) no Estado. Foram 2,59 milhões (44,56%) de votos válidos, contra 3,26 milhões (55,43%) do então adversário. Por que a senhora acredita que isso ocorre e como pretende conquistar esses eleitores?
Gleisi Eu penso que tem mais uma disseminação do preconceito do que efetivamente uma aversão do eleitorado ao PT. Nós já governamos no Paraná três das maiores cidades Londrina, Maringá e Ponta Grossa. E eu fui eleita senadora com a maior votação entre todos os candidatos. Então me parece que às vezes há também uma disseminação de que há esse preconceito e essa falta de vontade para com os candidatos do PT. É importante dizer que a presidenta Dilma na eleição passada, no primeiro turno, ficou com uma diferença muito pequena aqui, atrás do Serra. E não podemos esquecer que nasceu daqui, inclusive, uma das grandes ações contra o PT e contra ela, que foi dizer que ela era a favor do aborto. Na época saiu aqui, de uma igreja de Curitiba. Por isso que eu digo: insistem muito no preconceito em relação ao PT e sempre fizeram uma campanha assim no Paraná. Mas, apesar disso, volto a afirmar, nós já governamos as três maiores cidades, somos vice na capital, com a eleição do Gustavo (Fruet, do PDT), eu fui eleita muito bem senadora. Então acredito que a população entende a nossa proposta. E essa é uma eleição aqui, primeiro, no Estado, de renovação. As pessoas querem mudança, não querem ficar como está, e querem uma alternativa de renovação. Temos uma boa perspectiva.
FOLHA - É possível "furar" esse preconceito, ainda mais disputando contra o atual governador e contra um ex-governador?
Gleisi Eu me elegi senadora, com todo o preconceito, e tive 3,2 milhões de votos.
FOLHA A sua campanha não utiliza muito o vermelho, cor tradicional do partido, nem tampouco a característica estrela nas peças publicitárias. Por quê? É uma tentativa de frear essa rejeição, ou melhor, essa discriminação que a senhora cita no Estado?
Gleisi Porque ela é uma coligação. Eu tenho junto comigo o PDT, tenho junto o PCdoB, tenho junto o PTN... Como que nós iríamos usar o símbolo do partido? A foice e o martelo, a rosa e mais a estrela? Nós adequamos a uma coligação, ou seja, o número da candidatura, a mensagem que é o nosso slogan "Mudar é Olhar Pra Frente" e as nossas propostas, que são propostas já muitas delas discutidas aqui no Paraná e implementadas em nível nacional.
FOLHA Em relação às pesquisas eleitorais: a senhora aparece em terceiro lugar, com uma certa distância em relação aos outros dois principais candidatos. Como que a senhora, primeiro, recebeu esses números e, segundo: é possível reverter a situação nesse mês final de campanha?
Gleisi Eu não comento pesquisa, nem em viés de baixa, nem em viés de alta. A nossa campanha é baseada em propostas, aquilo que dá para fazer no Estado do Paraná. Eu fui diretora financeira da Itaipu, fui secretária de Estado em Londrina, fui secretária de Estado no Mato Grosso do Sul e chefe da Casa Civil da presidenta Dilma. Conheço o governo federal, sei o que nós temos lá de programas e propostas, sei os recursos que estão à disposição do Paraná, tenho a experiência na gestão, na administração, a experiência técnica também. É isso que eu quero colocar à disposição do povo paranaense, e mostrar que é possível fazer diferente e fazer mais do que está sendo feito no Paraná. Não precisamos nem desta situação parada falta de protagonismo, de liderança nem muito menos voltar ao passado para tentar a renovação.
FOLHA A senhora propõe, na sua prévia de plano de governo protocolada junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), criar o "Gabinete Digital", para articular as ações do sistema estadual de participação social, e o Conselho de Transparência Pública e Combate à Corrupção, que seria vinculado à Controladoria Geral do Estado. A corrupção na administração pública é hoje um dos principais problemas das administrações?
Gleisi A corrupção é um problema em qualquer setor da sociedade, não só na administração pública. Também temos na administração privada, também temos no Judiciário, também temos no Legislativo. Infelizmente é um drama que a gente tem de combater. Por isso que é importante as coisas serem transparentes. Por exemplo, a proposta do gabinete, eu diria até governo digital: para que as pessoas tenham informações. Hoje no governo federal nós temos o Portal da Transparência tudo o que é gasto no governo federal está lá, tudo; todos os empenhos, todas as liquidações de empenhos, convênios. O cidadão entra lá e sabe para onde foi o dinheiro, o que está acontecendo, tanto que qualquer problema que dá na administração federal você tem onde buscar as informações. Eu acho isso muito importante, porque dá base tanto para quem vai fazer investigação, como para o cidadão. E a questão do Conselho Estadual de Transparência e Combate à Corrupção, eu acho fundamental ter. Ter pessoa da sociedade, das entidades que acompanham cotidianamente a administração pública e mesmo de outras unidades representativas da sociedade, para fazer essa avaliação, junto com a Controladoria Geral do Estado, para propor medidas, para dizer como que fica melhor, inclusive a informação levada ao público, ou onde a gente tem que melhorar a tramitação dos projetos, os processos administrativos. E nós também queremos implementar o mesmo modelo da Lei de Acesso à Informação que implantamos no governo federal. Eu acompanhei isso, que é o e-SIC (Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão), é um sistema informatizado: quem está buscando a informação consegue acompanhar o processo, saber se a informação foi dada a tempo, se não foi, onde está e quem é o responsável. De fato, a gente pode radicalizar nesse sentido, e é o que eu pretendo fazer.
FOLHA - O ex-vice-presidente da Câmara, André Vargas, acusado de envolvimento em negócios do doleiro Alberto Youssef, era apontado como um nome importante, alguém que participaria até da coordenação da sua campanha. Qual o impacto dessas denúncias na sua candidatura?
Gleisi É importante dizer que o André nunca foi coordenador da campanha. Um deputado federal importante, vice-presidente da Câmara, e ia ser candidato à reeleição. Nós não colocamos os candidatos proporcionais em coordenação de campanha. Isso é importante dizer. Segundo, obviamente que isso tem impacto. Repito: tem para o PT, mas tem para a política em geral. O André já se afastou do partido, está respondendo as acusações e cabe a ele os esclarecimentos.
FOLHA E o PT tem ajudado ele na defesa?
Gleisi Ele se desfiliou. Ele não está mais no PT.
FOLHA - Em relação ao ex-assessor da Casa Civil, Eduardo Gaievski, também seu correligionário aqui no Estado (Gaievski é suspeito de estuprar adolescentes quando ainda era prefeito de Realeza, no sudoeste)... Não prejudicou a campanha?
Gleisi Você acha, sinceramente, que eu sendo mãe, sendo uma mulher que sempre lutou em defesa dos direitos da mulher, se soubesse da situação do Eduardo Gaievski, teria deixado o governo contratá-lo? É óbvio que não. Assim como eu não sabia, Realeza não sabia. Tanto que elegeu e reelegeu o Eduardo. Vocês mesmos fizeram matérias sobre prêmios que ele ganhou da ONU (Organização das Nações Unidas) como melhor gestor. E o processo corria em segredo de Justiça. Eu lamento muito isso que aconteceu. Ele vai responder pelos seus atos, se tiver realmente responsabilidade tem de pagar por elas. Eu não vejo como posso ser responsável por essa situação.
FOLHA Voltando à questão do acesso à informação, a política nacional de participação foi duramente criticada pela oposição, que discorda da instituição dos conselhos por meio de decreto. Um dos argumentos da oposição é de que ela "burocratizaria a tomada de decisões" e "favoreceria" a partidarização dos processos de tomada de decisão. Como a senhora analisa essas críticas, considerando essa possibilidade de trazer o modelo ao governo estadual?
Gleisi Críticas equivocadas, porque o decreto da presidenta regulamenta tão somente as ações do Executivo em relação à participação social. Não regulamenta o Legislativo, nem o Judiciário. Como é uma regulamentação própria da administração direta, não há necessidade de ser lei. E nós estamos falando já de instâncias de participação que existem há muito tempo na nossa sociedade. E que foram instituídas por lei Conselho Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Educação, Conselho do Idoso, Conselho da Mulher. Já existem. Esses conselhos estão lá, foram instituídos por lei. O problema é que não tinha um procedimento organizado de oitiva desses conselhos. Às vezes faziam um projeto de lei, mandavam para o Congresso e o Conselho, que é consultivo e assessor do Executivo, não tinha sido ouvido e tinha um monte de críticas. Isso não quer dizer que o Executivo vai aceitar tudo o que os Conselhos colocam, até porque eles são consultivos, mas se você criou para consultar, tem de ser consultado, certo? Senão nós vamos estar fazendo algo apenas para mostrar ou para dizer que fizemos. Então acho que isso é importante. Por isso é uma crítica equivocada que se fez. A participação popular é importante em qualquer fase de um governo e de decisão. Nós estamos em uma democracia. Isso jamais vai tirar a força das instituições ou principalmente do parlamento. Aqui no Paraná a gente pretende instituir o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em nível de Estado, e nas regiões os Conselhos Regionais de Desenvolvimento, que vão discutir a política integrada de desenvolvimento local, sob o aspecto econômico, social e ambiental. Porque eu não posso ter uma visão centralizada do Palácio Iguaçu, e achar que eu tenho a solução para tudo. Eu tenho de ouvir a sociedade que está lá na ponta trabalhando, industrializando produtos, plantando e produzindo. É importante. Nós temos, por exemplo, aqui no Paraná, uma instituição que é o Fórum Futuro 10 Paraná, que tem uma visão de longo prazo e que discute políticas e entrega ao governo, gosta que o governo considere as políticas que está entregando. Isso para mim é participação também. São várias entidades participando. Então é melhor que a gente tenha institucionalizado um Conselho Estadual e os Conselhos regionais e possa, desse processo, tirar: quais são os investimentos prioritários para cada região, quais os investimentos na área social que precisamos fazer, quais as ações na área ambiental, qual o espaço que temos que ter para auxiliar a produção no Estado, enfim, e a partir daí traçar as políticas públicas que nós vamos desempenhar nos planos de governo.
FOLHA Sobre a polêmica dos empréstimos: o governador reclamou que teve ministros do governo atuando contra e a senhora criticou sempre os problemas do Estado quanto à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e a inadimplência. Qual o peso desses financiamentos para os investimentos que deixaram de ser feitos e como a senhora explica a sua atuação em Brasília?
Gleisi Esse é um governo que reclama de tudo. Aliás, o que ele melhor faz é reclamar. E usa essas reclamações e desculpas, como você está falando, dos empréstimos, para encobrir a incapacidade e a incompetência de sua administração. Prometeu um choque de gestão e está entregando uma gestão chocante aos paranaenses, lamentavelmente. Nunca teve perseguição em relação ao governo do Paraná. Por que outros Estados que são governados pelo PSDB conseguiram fazer seus empréstimos? Minas, São Paulo, Goiás, Pará tiveram problemas, foram lá, apresentaram a documentação e retiraram o Proinveste (Programa de Apoio ao Investimento dos Estados e Distrito Federal). O Paraná, primeiro, não cumpriu a Lei de Responsabilidade Fiscal, porque extrapolou o limite prudencial, contratou um monte de cargos comissionados, não cuidou da folha de pessoal inativo, e quando conseguiu consertar isso, acertar essa situação da folha, não investiu os 12% em saúde, que deveria investir. Isso é público e notório. Tanto que para liberar um empréstimo fez um acordo judicial dizendo que iria gastar em 2014 o montante que não gastou em 2013. Aí conseguiu liberar o empréstimo. Agora, tem um outro detalhe: esse empréstimo que nós estamos falando é de R$ 817 milhões. É um volume de recursos considerável? É. Mas o orçamento do Estado é de, em média, R$ 30 bilhões por ano. Então o governo já administrou nos últimos três anos e meio mais de R$ 100 bilhões. Será que R$ 817 milhões foram a gota d'água para deixar o Estado nesta situação? Parece que não. É menos de 1% do que foi administrado em três anos e meio. Impossível justificar falta de gasolina em carro de polícia, falta de conserto de ambulância, dever para fornecedores, não ter política estruturada na área de educação, nem na área de saúde, não ter investimentos. É um dos governos com menores índices de investimento ao longo do tempo. É uma desculpa para tentar encobrir a incompetência administrativa.
FOLHA - O governador alega que entrou com recurso no STF (Supremo Tribunal Federal), ganhou na Justiça o direito dos empréstimos e mesmo assim precisou pedir a prisão do secretário do Tesouro, personalizando na senhora. Diz que Minas e São Paulo conseguiram empréstimos porque não tinham uma adversária na eleição como ministra. Como a senhora recebe essas declarações?
Gleisi Ah, não? E o Pimentel era o quê? Era assessor? Era ministro da Indústria e Comércio. Está disputando com o candidato do PSDB em Minas.
FOLHA Mas segundo ele a senhora tinha a caneta na Casa Civil...
Gleisi Quando a gente quer justificar a incompetência, a gente justifica. Eu lamento muito que essa seja a desculpa que ele dê para a falência do Estado. De fato ele ganhou na Justiça depois que fez esse acordo e tinha menos de 15 dias que estava para ser liberado no Banco do Brasil tem os procedimentos ele entrou com mandado de prisão para fazer uma ação política. Tanto que a AGU (Advocacia Geral da União) entrou com uma ação de litigância por má-fé em cima do Estado porque não havia justificativa para entrar com aquela ação, estava no prazo processual a liberação.
FOLHA Essa questão que a senhora levanta da falência financeira do Estado consta logo da apresentação do seu plano de governo. A senhora coloca ali tanto alfinetadas ao atual governador como ao senador Roberto Requião, quando fala em dar adeus ao "tempo do jogo de cena, das ameaças". Caso assuma o Palácio Iguaçu no início do próximo ano, quais os principais problemas que a senhora acredita que irá herdar das gestões anteriores? O que acredita que teria de ser resolvido primeiro?
Gleisi Primeiro colocar a casa em ordem: saber direitinho as receitas que temos, quais são as despesas necessárias para manter o Estado e quais são aquelas que dão amparo aos serviços prestados à população. Todo o resto não tem que ser considerado. Nós já fizemos isso no governo federal. Quando o presidente Lula entrou, e eu fui da equipe de transição, o Brasil estava literalmente quebrado. Nós não tínhamos um centavo de investimento estrangeiro no Brasil. O orçamento do Brasil para investimento era pífio, não tinha recurso, o funcionalismo não recebia aumento há oito anos, uma situação muito difícil. E o que o presidente Lula fez? As primeiras medidas foram de colocar a casa em ordem, ajustar as questões econômicas e já em seguida começou a lançar programas que mudaram a vida do povo brasileiro, como o Bolsa Família, depois o Prouni (Programa Universidade para Todos), o Minha Casa, Minha Vida. Como que nós conseguimos fazer em nível federal? Se foi possível lá, é possível aqui.
FOLHA - A senhora engloba grande parte das suas propostas no PAC Paraná tanto na área de infraestrutura como para saúde, educação e habitação. O orçamento do Estado, porém, não é tão vasto quanto o da União, para fazer esses investimentos. Como viabilizar? Em parceria com o governo federal? Ou a senhora pretende recorrer a empréstimos estrangeiros?
Gleisi O PAC da União também não é só de recursos federais. É de recursos da AGU, operações de crédito e de Parcerias Público-Privadas, investimentos privados, que estão na carteira do PAC, só que eles são organizados, então são potencializados. A partir do momento em que você olha para uma região e define uma carteira de investimentos, você tem inclusive como influenciar os próprios investimentos privados que vão trazer melhorias. Então o PAC tem o objetivo principal de organizar e planejar os investimentos que serão feitos em todas as áreas do governo. Vamos ter recursos do Estado? Vamos ter recursos do Estado sim. Vamos ter recursos da União? Vamos ter. E tem muito recurso à disposição. Por exemplo, para a construção de escola estadual, tem recurso à disposição no FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Eu não acredito quando chego a algum município e não tem escola da rede estadual, está faltando, usando partilhada com o município, muitas vezes só tendo aula à noite para o Ensino Médio ou para o Fundamental Integrado. Por que isso? Por que não faz projeto e não vai atrás? Mesmo para recuperação de escolas... Ou seja, se nós tivermos a visualização do conjunto de investimentos, fica muito mais fácil termos recursos para investir. Você sabe onde ir atrás, como fazer, e se precisar termos operações de crédito, faremos operações de crédito, até porque nós vamos estar em dia com toda a legislação.
FOLHA - Quanto aos programas iniciados na atual gestão, algum deles a senhora analisa como positivo e pretende manter?
Gleisi Você quer me dar um exemplo?
FOLHA - Paraná Competitivo, Unidades Paraná Seguro, Mãe Paranaense...?
Gleisi O Mãe Paranaense tem muito a ver com o Rede Cegonha, que é um programa do governo federal. Na realidade é propriamente esse programa com outro nome. Nós vamos estar adequados aos programas federais. Questão de cuidar da gestante, do nascituro, é uma prioridade, e para mim até como mulher. Sempre defendi isso e vamos com certeza aprofundar um programa como esse, cuidando muito. Por exemplo: jamais vou achar que é certo tirar uma mulher de Telêmaco Borba para vir ter o bebê em Curitiba, mesmo sendo uma gestação de risco, porque uma cesárea não é uma cirurgia que precise sair de uma região para ir a outra; é uma cirurgia relativamente simples. Se você tiver o acompanhamento da gestante, mesmo de risco, no lugar onde ela mora, e tiver sistema hospitalar lá, tem de fazer lá a cirurgia. Então não é o melhor exemplo do Mãe Paranaense esse que foi ventilado no programa de TV. Em relação à questão do Paraná Competitivo, é importante que um programa de desenvolvimento, de atração de investimentos industriais, não fique só na desoneração tributária ou diferimento de imposto. O que nós temos ali? É só diferimento de ICMS, não é nem isenção. Eu difiro o ICMS de energia e do empreendimento e dou condições melhores para quem vem de fora se instalar aqui. E para quem está aqui eu obrigo que o investimento seja permanente. Acho que tem alguns equívocos nisso. Primeiro que o diferimento do ICMS pode ser um instrumento importante, mas não pode ser só isso. Segundo que eu não posso deixar por demanda das empresas. Eu tenho que induzir investimentos. Porque se eu só dou isso e deixo por demanda, eu vou concentrar investimento industrial. Concentrar na região metropolitana de Curitiba, como está acontecendo, na região de Ponta Grossa, na região metropolitana de Londrina... E o resto do Estado, não vai ter investimento industrial? Eu tenho que fazer planejamento, e aí colocar infraestrutura, condições tecnológicas, pegar o que eu tenho de positivo que pode gerar inovação no Estado e colocar a serviço desses empreendimentos. E tenho que ter um tratamento bom também para quem já está investindo aqui. Muitas vezes eu potencializo um investimento que tem no Paraná com menos incentivo tributário, mas com mais incentivo de infraestrutura, de tecnologia, de inovação. Portanto, ele é um programa muito limitado. E se nós tivemos grandes investimentos feitos no Paraná, deve-se quase que exclusivamente à política industrial do governo federal inova empresa, isenção de 30% de IPI. Essas empresas grande parte das que vieram para cá são internacionais. Empresas multinacionais. Vieram para o Brasil. Por que vieram para o Paraná? Teve diferimento de ICMS? Teve. Mas o Paraná geograficamente é bem localizado, nós estamos perto do maior centro de consumo do Brasil, que é São Paulo, temos porto, e infraestrutura melhor que muitas regiões.
FOLHA E as UPS, já que a senhora comentou os outros dois?
Gleisi Em relação à UPS, eu não acho que simplesmente importar modelos que nós temos em outros Estados possa resolver ou dar resultados positivos. Nós tivemos agora, com a Copa, um resultado efetivo em todos os Estados que foram base, capitais, inclusive Curitiba, no Paraná, com o comando de controle integrado das forças de segurança. Nós, pela primeira vez, estivemos trabalhando de forma integrada Forças Armadas, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal. Na chefia da Casa Civil eu participei do início da articulação da organização da Copa. E penso que esse foi um grande legado da Copa. As pessoas todas avaliaram como positiva a segurança, quem veio de fora, e mesmo os brasileiros que participaram dos jogos. E esses centros de comando e controle ficaram para os Estados, tanto que o ministro José Eduardo Cardozo há cerca de duas semanas veio para o Paraná fazer a entrega definitiva. Eu acompanhei, no governo do Estado. Para quê? Para que cuide do cotidiano da segurança e cuide também da segurança de fronteira. Tem um exemplo aqui muito próximo de nós que é em Pinhais. O município fez um centro de comando integrado, que atua a Polícia Militar, a Guarda Municipal, a Polícia Civil também participa, porque precisa dos dados para investigação, e tem convênio com a Polícia Rodoviária Federal. Todas as saídas da cidade têm câmeras de videomonitoramento e têm câmeras também nas principais ruas da cidade, nas praças, tanto que o centro serve inclusive para alertar a prefeitura quando precisa trocar a iluminação pública, que foi quebrada ou está escura. E atua de maneira integrada. Tem o policiamento ostensivo ligado a esse centro que fica 24 horas monitorando a cidade. Eles conseguiram reduzir em um ano e pouco mais de 50% os índices de criminalidade. Se conseguiu fazer em Pinhais, se conseguiu fazer no Paraná, no Brasil essa integração, eu penso que é a saída que nós temos. Nós podemos fazer esses centros de comando e controle 24 horas regionais, por regiões e cidades quando elas são grandes, como Maringá, Londrina, Curitiba, Ponta Grossa, ou então por regiões do Estado, quando você pega municípios menores. Você tem uma visualização 24 horas por dia e coloca a tecnologia a serviço da segurança, ajudando a força policial.
FOLHA - Na saúde, senadora, um dos carros-chefes da sua proposta é o Mais Médicos Especialistas. Como funcionaria, considerando que não existem tantos especialistas no mercado para as cidades do interior? Como atrair esse pessoal?
Gleisi Nós temos muitos médicos especialistas, mais do que generalistas. Tanto que nós fizemos o Mais Médicos com a presidenta Dilma para trazer generalistas, o que a gente chama de especialistas em saúde básica, porque aí nós temos dificuldades. Agora, especialistas nós temos muitos. Você falou uma coisa concreta: tem a maior concentração nos grandes centros. Mas hoje o Paraná tem uma distribuição de grandes e centros médios em todas as regiões do Estado. Se nós organizarmos a contratação de consultas junto aos consórcios municipais de saúde e tivermos referências de centros regionais que não precisa o Estado construir; podemos até construir, mas podemos também contratar consultas onde já existe nós conseguimos resolver esse problema. Não é um problema insolúvel. A situação é que não tem dinheiro hoje para pagar consultas com médicos. Quem está fazendo são só os consórcios municipais. Aí cada prefeito tem uma cota, diz 'ó, eu posso contratar tantas consultas'. Junta com o consórcio e contrata um número que é inferior à demanda. As filas começam a aumentar. O governo do Estado não coloca recursos para contratar médicos especialistas. Não tem recurso para isso, não tem dinheiro. Bom, não coloca nem os 12% na saúde, como devia colocar. Então o que nós temos que fazer? Nós temos que nos organizar com os consórcios de saúde e contratar essas consultas. Penso que num primeiro momento, para aquelas especialidades mais requeridas e com maior fila nós temos que fazer mutirão. Tem condições de fazer isso, já foi feito em outros Estados, nós podemos organizar aqui e fazer um aporte de recursos para que a fila diminua e para que a gente consiga dar encaminhamento. Assim também como para exame. Não pode ficar nove meses esperando uma endoscopia. Vai fazer a endoscopia e já descobriu que tem um câncer. É um drama na vida da pessoa, da família, sai mais caro para o Estado tratar depois. Tem como organizar isso. Falta gestão, falta planejamento e faltam prioridades.
FOLHA - O profissional não precisa necessariamente estar no município, então?
Gleisi - Não precisa estar no município. Muitas vezes, para fazer uma consulta com especialista, você vai ter que se deslocar, até porque pode ser uma especialidade que requeira uma internação hospitalar depois e você não tenha naquele município a referência do tratamento daquela doença. Agora, para isso tem que ser uma fila organizada. A pessoa não pode esperar oito meses. Vai lá, o médico pediu para que seja analisada por um especialista, tem que ser encaminhada e a consulta marcada o mais rápido possível.
FOLHA Outra polêmica recente envolvendo o governo do Estado e o governo federal diz respeito à tarifa de energia. Houve o pedido de reajuste de 32,4% por parte da Copel, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) autorizou 35,05%, depois o governador se disse surpreso e pediu para reajustar em 24,8%. O próximo governador já irá herdar esses 12% de deficit que ficou para o ano que vem. Qual a sua política para a tarifa de energia? É possível ter uma tarifa controlada, como a Petrobras faz com a gasolina, por exemplo?
Gleisi Não é possível que a política administrativa da Copel seja tão somente a distribuição de dividendos. Porque o aumento que nós tivemos da tarifa agora da Copel Distribuidora é basicamente para dar guarida a fazer distribuição de lucros, de dividendos da Copel Geradora. A Copel, vocês lembram disso, não quis entrar nos leilões da Aneel, para vender energia contratada. E nem aderiu à medida provisória. Então a Copel Geradora ficou com energia descontratada e vendeu no mercado de curto prazo, que a gente chama, o mercado spot, por um preço muito acima do que era a energia contratada. Por exemplo: a energia contratada estava na casa de 140 megawatts. A Copel Geradora vendeu por 800 megawatts. O problema é que a Distribuidora também ficou descontratada. E como ela ficou descontratada, não podia comprar megawatt a 140. Teve também que comprar a 800. O que está acontecendo agora? Está distribuindo o lucro na Copel Geradora e distribuindo prejuízo para a população com o aumento na tarifa de luz. Isso é um escândalo, um crime que estão fazendo com a Copel e com o povo paranaense. Com a economia paranaense, porque energia é insumo básico de produção. Podia ser o nosso diferencial competitivo. Mais do que diferir ICMS de energia, nós tínhamos que ter a energia mais barata do Brasil aqui, atrair indústrias com energia barata e fazer com que o ICMS da energia ficasse no Paraná. Então é um escândalo o que eles fizeram. Por que não fizeram uma integração? A Copel é uma holding. Você pode fazer compensação, pode fazer aporte de capital. Tira da Copel Geradora, faz aporte na Distribuidora e não dá esse aumento. Você vai ter um pouco menos de divisão de lucratividade, mas ela não pode ser feita só como uma empresa para distribuir dividendos. O seu investidor tem que ser remunerado, mas tem que ter limite. E nós não podemos esquecer que o maior responsável pela Copel é o governo do Estado. Quando faz distribuição de dividendo, grande parte desse recurso vai para os cofres do Estado. O Estado do Paraná, além de ter sido o que mais arrecadou ICMS nos últimos tempos, mais de 50%, está no topo do aumento de arrecadação dos Estados, não teve redução de repasse de recursos da União e ainda está levando dividendos da Copel e da Sanepar, porque aumentou a distribuição de 25% para 50%. Para onde está indo esse dinheiro? O que está sendo feito com isso?
FOLHA - O Tribunal de Contas tem alertado para o deficit na Paranaprevidência. O que está previsto no seu plano de governo para tentar solucionar o problema? Há possibilidade de cobrança dos inativos?
Gleisi Não. Nós não cobramos de inativos e não há nenhuma possibilidade de cobrança. Temos de ver direitinho qual a carteira de investimentos da Paranaprevidência, onde se está investindo, qual o aporte que o governo está fazendo, porque pelo que eu saiba também há deficit nos aportes do poder público. Temos de abrir as contas e administrar isso com bastante clareza e transparência.
FOLHA - O Paraná foi o penúltimo Estado a implementar a sua Defensoria Pública. E, apesar da realização do concurso público, ainda há muitos profissionais aguardando para serem chamados. Qual a sua avaliação sobre o órgão?
Gleisi A Defensoria Pública é fundamental. Nós estamos falando da defesa dos pobres no Poder Judiciário. Muita gente fica sem ter garantia de direitos porque não tem um advogado ou um defensor. Nós precisamos dar essas condições para a população. E acaba sendo a população que mais sofre injustiça porque não tem quem a acompanhe. Tem de estruturar a Defensoria Pública. Não é algo simples, não é algo fácil, nem tampouco com poucos recursos você vai fazer, mas tem de fazer. É fundamental para o exercício do direito de toda a população.
FOLHA O senador Requião declarou no Twitter que a senhora não seria adversária dele no primeiro turno; que no segundo, se for o caso, ambos irão debater as ideias, mas que por enquanto até pediu à equipe dele para não atacá-la durante a campanha. Existe esse acordo de "cavalheiros", para que o Beto Richa seja o alvo preferencial?
Gleisi - Não tem nenhum acordo de cavalheiros e também não tem, por parte da minha campanha, nenhum direcionamento de ataque a nenhum dos dois candidatos. Temos um direcionamento de propostas e crítica de oposição. Eu defendo, por exemplo, a integração do transporte coletivo das regiões metropolitanas do Paraná com subsídio. Transporte público é política pública. Nós já desoneramos praticamente todos os tributos e impostos federais do transporte coletivo. Já isentamos também de IPI os ônibus, para ficar mais baixa a tarifa. Está na hora de o Estado membro fazer a sua parte também, junto ao município. Não pode por exemplo Curitiba responder pelo subsídio da região metropolitana. Quem tem que responder é o governo do Estado, que é responsável pelo conjunto do Estado. E tampouco pode isso ser feito através de convênio, sem regras claras, sem critérios claros, sem ser uma política pública estruturada, que fica a deriva da vontade do governante de plantão. Ou não pode ser uma política só para a região metropolitana de Curitiba. Por que a região metropolitana de Curitiba é diferente da região metropolitana de Londrina, de Maringá ou de Umuarama? Nós temos de ter uma política clara de financiamento do transporte coletivo. Hoje é um dos grandes problemas da população no Brasil e aqui no Paraná, onde mais de 80% moram nos centros urbanos, principalmente nos aglomerados.
FOLHA - Já houve o tempo em que se falava que para ganhar a eleição era preciso um bom marqueteiro. Hoje, com o grande número de pedidos de impugnações e de representações contra candidatos, é mais importante ter um bom advogado? Como a senhora analisa essa judicialização das campanhas?
Gleisi A legislação eleitoral se alterou muito nos últimos tempos e foi ficando muito mais restritiva, para tentar resguardar as condições de igualdade na disputa. Portanto, é importante que elas sejam resguardadas efetivamente. Não adianta você ter a lei e as práticas não reguardarem. Quando tem abuso de poder econômico ou abuso da utilização da máquina pública e isso é perceptível, tem de entrar na Justiça. É para isso que existe a Justiça Eleitoral, para que ela responda a essa situação. Acho que é um conjunto de ações que nós temos durante a campanha e que têm que ser respeitadas a questão legal, a questão da propaganda, a questão das propostas. É assim que está organizada a nossa eleição. Agora, eu sou favorável que a gente faça uma grande reforma eleitoral. Acho que a proposta que a presidenta Dilma tinha feito em julho de 2013 era a que melhor poderia responder ao que nós estamos vivendo: ter uma constituinte exclusiva para discutir a reforma eleitoral.
FOLHA - O programa de TV do senador Fernando Collor (PTB), candidato à reeleição em Alagoas, traz um depoimento seu: "a verdade é um barco que balança, mas não afunda. E o tempo é sempre senhor da razão". A senhora não vê problema nesta relação que o eleitor pode fazer entre a sua imagem e a do ex-presidente?
Gleisi Eu fiquei surpresa com ele utilizar esse depoimento, porque não foi pedida a minha autorização. Isso foi no momento em que ele fazia um discurso muito emocionado no plenário, eu estava lá e fui discursar depois dele. Apenas fiz uma referência, porque ele estava falando de um processo que estava falando da vida dele. Foi tão somente um ato de solidariedade num momento do plenário. Fiquei bem surpresa de ele ter utilizado isso na campanha eleitoral.