FOLHA - O senhor nunca teve um mandato eletivo. Por que se candidatar logo ao governo do Paraná? Acredita que tem experiência para assumir a função?

Tomazini - Eu entrei na militância política em 1999. Já tinha militado no movimento estudantil secundarista, mas com as privatizações da Copel (Companhia Paranaense de Energia), da Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) e do Banestado (Banco do Estado do Paraná), no governo (Jaime) Lerner e no do Fernando Henrique – Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional – aquele período teve muitas lutas. Eu era da direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) e a partir dali eu conheci o PSTU. Entrei no PSTU já em 2000. Comecei a participar de todas as lutas daquele movimento e após disso eu participava do partido, mas geralmente coordenava as campanhas, fazia toda a estrutura. Em 2010 eu saí candidato a deputado estadual e também ajudei a coordenar a campanha do Avanilson (Araújo), que foi o nosso candidato ao governo do Estado. Agora em 2014 a gente fez um debate dentro do partido, por conta de junho do ano passado, das mobilizações, a necessidade de ter uma figura que representasse de fato aquelas lutas – eu estive em todas elas e também participei ativamente das greves que vieram depois, por conta dos movimentos sociais e dos sindicatos – e daí o partido entendeu que o meu nome era o melhor para representar um programa. Na verdade, no PSTU não é o nome do candidato. Nós temos um programa, levamos o programa a sério e entendemos que o nosso programa é o único capaz de realmente modificar a vida da classe trabalhadora. E não só pelo programa, mas pelos princípios que nós temos. E foi decidido que seria eu. Gostei muito e tranquilamente aceitei.


FOLHA - Além de firmar o posicionamento do PSTU, há a expectativa de o partido eleger algum deputado, por exemplo? Existem metas neste sentido?

Tomazini - A nossa meta realmente é aumentar bastante a quantidade de votos que fizemos na campanha passada. Temos aí a Mariane (Siqueira), que é uma candidata que sempre recebeu bastante voto. Por conta de sairmos sozinhos e não aceitarmos dinheiro de bancos ou do agronegócio, grandes empresas – sempre utilizamos a lógica de que quem paga a banda escolhe a música – nós recebemos contribuições dos trabalhadores e da juventude. Realmente se nós estamos dizendo, se o nosso slogan de campanha é "Um Paraná para os Trabalhadores", nós vamos governar com o dinheiro dos trabalhadores. Campanha será feita através da doação espontânea da classe trabalhadora. Então é muito difícil você disputar num cenário em que Requião tem R$ 30 milhões, Gleisi e Beto R$ 35 milhões e nós R$ 25 mil. A campanha do PSTU é uma campanha conjunta – nos materiais saem todos os candidatos – mas não chega a R$ 100 mil. É porque a classe trabalhadora é pobre, não é rica, não tem rios de dinheiro como a burguesia tem. Temos a nossa campanha modesta, garantimos a nossa independência financeira e também a independência política e de classe. Outra questão é do tempo de TV – são 50 segundos para apresentar um programa de governo. Tem candidato aí que, por conta das alianças, tem sete minutos e meio. É muito desigual. Já que nós tivemos a oportunidade de registrar nossa candidatura no Tribunal Regional Eleitoral, nós deveríamos ter tratamento igual, para a população poder democraticamente escolher. Dessa maneira não é democrático. Vai terminar a eleição e muita gente nem vai saber que nós saímos candidatos. É muito difícil termos uma expectativa de vencer desta forma, de ganhar a eleição, de conseguir eleger alguém. E realmente as eleições, para nós, são feitas desta maneira justamente para aqueles que estão continuarem nos cargos ou mudando de cargo – sai do Senado e vai para o governo, sai de deputado estadual e vai para deputado federal. Aquilo que a juventude, inicialmente, e depois a classe trabalhadora, em junho do ano passado, pediu, que eram as mudanças, nós vemos que não é possível, na forma como se organiza o processo eleitoral. Então, para além disso, nós falamos, sempre que fazemos o debate, que a mudança vai acontecer nas ruas, nas mobilizações, nas greves, nas paralisações, que é onde a classe trabalhadora tem nas suas mãos a possibilidade de mudar.

FOLHA - Psol, PSTU e PCB, que acabou desistindo, lançaram candidaturas sem coligação. Por que não houve, por exemplo, um entendimento no Paraná para se firmar uma aliança de esquerda?

Tomazini – Nós tentamos. A aliança seria só com esses dois partidos – o Psol e o PCB. Diferente de outros que procuram ali para aglutinar mais tempo de TV, nós entendemos que é complicado, porque eu chego para você, que tem um partido e eu outro, e digo: "Quero fazer uma aliança com você". Você diz: "Legal, vamos fazer, nós vamos ter mais tempo de TV". Aí eu mostro meu programa e você fala: "Mas risca isso daqui, que eu não concordo". Aí chega outra pessoa e diz: "Risca isso também". No final, numa aliança de dez, 15 partidos, não há mais programa. Então nós fazemos (aliança) tradicionalmente com o Psol e o PCB, por conta de o programa ser próximo. Não é igual, tem diferenças, mas é similar. O PCB teve uma posição nacional de que faria uma candidatura própria, voltada à construção partidária, e nós respeitamos, entendemos que isso é importante. Foi louvável a forma como eles vieram conversar, abertamente. Infelizmente não foi assim com o Psol. Nós fizemos quatro reuniões. Na primeira parecia que ia avançando, inclusive na segunda eu deixei que poderia até retirar a candidatura de governador, caso pudesse ir para o Senado, por exemplo, mas que nós não iríamos fazer uma simples adesão ao Psol. Queríamos o nosso espaço, porque, como eu disse, os nossos programas não são idênticos. Infelizmente não teve acordo. Eles queriam que nós saíssemos com deputados e tudo o mais. Agora também tem muita diferença. Em nível nacional mesmo o Psol faz uma coisa que nós abominamos – aceita doações de empresas, e de grandes empresas, inclusive. Nós não pegamos nem de pequenas. A Luciana Genro, candidata a presidente, pouco tempo atrás declarou R$ 50 mil de uma grande rede de supermercados, a quinta maior do País. E algumas questões políticas também – você vai lutar contra os pedágios para rever os contratos ou acabar? Nós entendemos que tem que acabar. A revisão dos contratos foi o que o Requião tentou fazer na Justiça e não conseguiu. Então, nós chegamos a um consenso no partido de que deveríamos sair sozinhos. Agora, logo que acabar as eleições, nós estaremos juntos nas ruas. Para nós isso é tranquilo.

FOLHA - Algo que se discute muito, tanto no Congresso como na Assembleia, é a governabilidade. Como o PSTU, que chega ao pleito sem coligação, "isolado", conseguiria implementar suas propostas?

Tomazini - Em prol da governabilidade que se criou o mensalão. A corrupção vem dessa discussão. Para você poder aprovar um projeto de lei que é importante para o País, você compra outros partidos. Mesmo o PT, que sempre disse que não ia privatizar... O Lula, que era contra o fator previdenciário, fez em 2003 uma reforma da previdência que atrapalhou muito o servidor público. E hoje nós vemos o PT privatizando portos, estradas e aeroportos. O último foi o Leilão de Libra. Inclusive é uma coisa que a gente tem que pensar além da privatização, porque são setores estratégicos para o País. A estrada, o aeroporto e o petróleo seriam as últimas empresas a serem privatizadas. E eles estão entregando, inclusive para acionistas internacionais. Então nós entendemos que é difícil mesmo um partido chegar assim e governar. Agora, a partir do momento em que um partido como o nosso, que é um partido de mudanças, tiver a adesão popular para obter uma votação expressiva e ganhar as eleições, nós vamos governar com a população. Mesmo tendo minoria, nós vamos ter apoio popular para pressionar os deputados que estiverem lá a votar nos projetos do governo. E temos certeza – junho já mostrou isso; as passagens eram para subir e não subiram. Nós acreditamos muito na força da classe trabalhadora e na da juventude, unidas. Se há mesmo uma expressiva votação que faça o Rodrigo ser eleito governador do Paraná, mesmo que a gente não consiga eleger um número importante de deputados, sejamos minoria, teremos o apoio popular para governar. Nós acreditamos que é possível.


FOLHA - Seu plano de governo pega como gancho os protestos de junho de 2013. As manifestações, porém, vêm sendo exploradas por praticamente todas as legendas que lançaram candidatos, sejam de esquerda ou direita. Como o PSTU pretende mostrar que representa, de fato, as vozes vindas das ruas?

Tomazini – O que sempre dizemos é que, primeiro, essas manifestações foram muito legítimas. A própria reação das ruas de expurgar e enfrentar os partidos políticos foi importante. O fato de queimar bandeira de partido nós achamos que, simbolicamente, mostra que as pessoas não estão contentes com o que está acontecendo aí. Governou o PSDB, governou o PMDB, governou o PT. Todos governaram e ninguém mudou. Pelo contrário: sempre houve corrupção. Não mudou. O PT, tendo uma política econômica voltada aos interesses do grande empresariado, pelo menos poderia ter ética. Mas não é possível, dentro daquilo que ele se propõe a fazer. A juventude se indignou. Nós do PSTU não temos culpa nenhuma disso. Nós nunca governamos o País, não temos deputado federal, não temos senador, mas fomos jogados no mesmo bolo. E uma coisa é importante dizer: nós estivemos antes, durante e continuamos depois que as manifestações acabaram. Nas manifestações do passe livre, em São Paulo, nós participamos de todas. Tanto é que na região que eu faço parte (de Maringá) a primeira manifestação teve 150 pessoas. Nós organizamos. Na segunda deu 700. Tivemos faixas, tivemos bandeiras. Na terceira deu dez mil e mandaram a gente embora. Nós não fomos. Continuamos no fundo, com a bandeira nas costas, para não apanhar e tudo. Mas assim: nós achamos que é um erro expulsar os partidos que sempre estiveram na luta. A juventude tem de entender que hoje nós continuamos na luta. Foram induzidos, uma parte pela direita, que tentou colocar algumas coisas ali, mas era justíssima aquela indignação. Não tem como falar que o transporte está bom, a educação. Está tudo ruim. Precisa mudar radicalmente o que está aí. É por isso que a gente diz: nós que vamos mudar. Acabam as eleições, continuaremos na luta. Hoje eu estava na manifestação da APP (sindicato dos professores). Ontem eu estava na da EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares). Mas não é porque eu sou candidato. Nós sempre estivemos nas manifestações. Uma hora eles vão perceber. Como aquilo tudo era muito novo, muita gente foi para fazer selfie, inclusive. A gente via isso. Mas é porque era novo. É natural. O partido político revolucionário tem toda a tática e a estratégica utilizada numa manifestação para conseguir um objetivo. Ali eles não tinham. Sabiam o que queriam, mas não sabiam como. Ficavam andando, trancavam uma rua aqui ou outra ali. E deu no que deu. Infelizmente acabou. Conseguiram canalizar para um sentimento de que estagnou tudo e vamos esperar ver o que vai acontecer depois das eleições.

FOLHA – Mas todos têm pouco tempo de TV, os partidos menores, e de uma forma ou de outra querem dizer que representam a mudança discutida nas ruas. Como a população irá entender essa diferença?

Tomazini - Os partidos representam setores da sociedade. Mesmo sendo laranjas, eles vão representar os interesses de um partido maior. Primeiro é preciso separar aqueles que representam a esquerda e aqueles que representam a direita. Por quê? Não existe esse papinho que a Marina (Silva, candidata à Presidência pelo PSB) está dizendo, de que não existe direita e esquerda, "eu quero os bons do PT e do PSDB". Isso o (Fernando) Collor já falou lá atrás e deu no que deu. É impossível e vai contra toda a teoria política e econômica estudada pelos grandes teóricos – existem classes sociais na sociedade e elas são antagônicas. O que a Marina diz é uma mentira. Dentro daqueles que se dizem de esquerda, também tem de entender para quem eles governam. Não adianta nada o PT ter uma base social de esquerda – ele foi fundado no final da década de 1970, com prisões; o Lula foi preso junto com o Zé Maria, nosso candidato a presidente. Depois nós fomos expulsos, graças a Deus, pelo Zé Dirceu que hoje está lá na Papuda. Então, o PT é um partido que tem uma base social, mas não governa para os trabalhadores. Não é possível que um partido que receba, por exemplo, R$ 1 milhão da JBS Friboi, que é o grande do agronegócio, e o PSDB e a Marina, antes o Eduardo Campos, também recebeu... Como uma empresa doa para os três? Nós nunca iríamos aceitar e eles nunca doariam para nós, porque sabem que nosso programa quer estatizar a empresa, tirar do controle de dois ou três empresários. A gente consegue, para nós, ter bem claro quem tem um programa para os trabalhadores e quem irá governar para a burguesia, independente da classe social. Agora, a forma de levar isso para fora é mais complicada, porque envolve tempo de TV. Como a gente vai provar que Rodrigo Tomazini é a mudança que o povo quer, e não Geonísio Marinho, que é de direita declarado? Ele fala. A direita governa para os interesses dos empresários. São questões muito difíceis de discutir em 50 segundos. É por isso inclusive que é muito difícil entrar no processo eleitoral. Para nós é um dos grandes obstáculos.


FOLHA - Entre as medidas a serem tomadas pelo senhor, caso eleito, está a reestatização do Banco do Estado do Paraná (Banestado), privatizado em outubro de 2000, durante a gestão do ex-governador Jaime Lerner (então no PFL). O PSTU também sugere a realização de uma auditoria pública para demonstrar que a dívida do banco já foi paga e o direcionamento de todos os recursos na implantação de um amplo plano de habitação popular. Como o senhor pretende fazer isso, e ainda mais considerando que o banco foi vendido para o Itaú já há algum tempo?

Tomazini – O Banestado vem de uma série, desde a década de 1990, de problemas financeiros, com remessa inclusive de dinheiro ao exterior. Alguns levantamentos dizem que chega em torno de R$ 45 bilhões. Em 2000 vem o Lerner e diz que há necessidade de privatização, que o banco está quebrado e precisa ser saneado. Ele faz um empréstimo de R$ 5,1 bilhões, e vende por R$ 1,6 (bilhões). Faz aí um negócio da China. E fica a dívida para o Paraná de R$ 3,5 (bilhões). Essa dívida vem sendo paga. Nós já pagamos R$ 10,4 (bilhões) e ainda devemos R$ 14 (bilhões). Ela vai continuar aumentando. É uma tremenda agiotagem. O que acontece com a venda do Banestado é que já existem várias ações na Justiça dizendo que essa venda foi completamente... Foi uma entrega do patrimônio público, para satisfazer planos e interesses particulares. Nós queremos nos apoiar, primeiro: que o Paraná não possui um banco estatal; que a entrega do Banestado foi uma entrega a um preço que não é o valor do Banestado; e que inclusive o Itaú já lucrou muito mais do que foi o valor que ele pagou. Apoiados nisso, nós queremos fazer um debate com a população da necessidade de estatização do banco. O que queremos é que o Paraná tenha um banco e que através disso a gente possa fazer um grande plano de obras públicas. Como seria para que o banco capitalizasse? Poderíamos pegar inclusive as contas que já eram do Banestado, que passaram para o Itaú. E também tem uma proposta para discutir, que todo servidor público do Paraná passe a ter suas contas no Banestado. Hoje nós temos no Banco do Brasil e o Banco do Brasil não dá nada. Eu sou servidor público e não dá nada – conta salário não tem nada e as outras têm taxas altíssimas. Aí daria para começar a capitalizar o banco. Somente com um banco estatal vamos conseguir empréstimos a juros baixos. É complicado? É difícil? Nós vamos enfrentar interesses duríssimos, grandes interesses, de pessoas muito poderosas, mas estamos dispostos. Desde 1978, por exemplo, três famílias governam o Paraná e não mudou nada. Não vai mudar nada, de novo, com esses três que estão aí. Garanto. Depois a gente pode sentar daqui a quatro anos e vou responder a mesma coisa.

FOLHA - E quanto à redução imediata das tarifas de água e energia em 50%, lembrando que tanto Copel como Sanepar possuem acionistas privados?

Tomazini – Complementando com a questão da dívida. Na Constituição Federal existe um dispositivo para a dívida pública nacional, que pode ser trazido para cá, que é a questão de se fazer uma auditoria. Em 1988, já deveria ter sido feita essa auditoria e não foi feita até agora. Então a imediata suspensão da dívida do Banestado também faz parte da nossa proposta. É R$ 1 bilhão por ano, que nós vamos pagar até 2028. Isso é uma parte que a gente pode investir para ajudar a custear a questão das tarifas. Mas isso não é fundamental, porque preferimos inclusive usar em saúde e educação. O serviço público tem que criar condições para satisfazer aquilo que é público. Não é possível utilizar um serviço dito público para interesses privados, para o lucro. O que acontece hoje na Copel é isso: são acionistas. Hoje o capital social da Copel é praticamente metade público e metade privado. Eles negociam na Bolsa de Nova Iorque, na Bolsa da Espanha, as ações da empresa. Estávamos fazendo um cálculo – quando estava fazendo o programa de governo descobri que a Copel, no primeiro trimestre de 2014, a Copel Geradora, teve um lucro de R$ 583 milhões. Se esse lucro foi em três meses, nós vamos ter aí R$ 2,4 bilhões em um ano. Se tem esse lucro, não dá para entender a necessidade de aumentar a tarifa. Mesmo quando faz os investimentos, muitos vêm de fora, de dinheiro da União, por exemplo. Então nós entendemos que muito desse dinheiro vai para encher os bolsos dos acionistas. E aí, para nós, é a mesma lógica do Banestado. O neoliberalismo, quando vem, traz que o Estado está falido, que não sabe administrar.


FOLHA - Durante os debates, tanto o PSTU como o PSOL acabam criticando duramente os candidatos do PT, em alguns momentos mais até do que os do PSDB. Esses dois partidos são, na sua visão, iguais? Não seria o caso de unir forças para primeiro derrubar aqueles candidatos mais próximos do conceito de direita?

Tomazini - O PSDB é abertamente neoliberal, diz que vai privatizar e trazer fundações. Não tem uma base social de trabalhadores. É a burguesia que está ali. O PT não diz que vai privatizar, tanto que a Dilma ganhou a eleição dizendo que o Brasil teria autonomia e soberania. Em relação à Petrobras, privatizou. Só que o que acontece? A visão do PT é "eu não privatizei; eu fiz concessões". Ora, para nós, se você tirou do controle público e passou para a iniciativa privada... São formas diferentes. Você pega a Margaret Thatcher, por exemplo, que vem com o primeiro debate sobre Parceria Público-Privada. E é (era) a mais liberal de todas. Então, quando o PT vai fazer, diz "mas o meu não é privatização, é PPP", ao nosso modo de ver é pior ainda, porque você põe dinheiro público numa coisa que vai passar para a iniciativa privada. O PT possui essa base social de trabalhadores. Mas governa para quem? A política econômica do PT é muito parecida com a do PSDB. Tanto é que quando o Lula ganha, quer dizer, antes um pouquinho de ele ganhar, quando se dizia que o risco-país estava muito alto, ele escreve um documento chamado Carta ao Povo Brasileiro. Nessa carta ele diz: "Manteremos todos os contratos". Ele quis dizer: "Faremos a mesma coisa que foi feita até agora; podem ficar tranquilos". Tanto que ele entra, o (Barack) Obama (presidente dos Estados Unidos) chama ele de "o cara" e ele começa a ser elogiado por toda a burguesia. Inclusive ele cumpre um papel muito, para nós, traidor, de segurar as mobilizações. Trouxe os movimentos sociais para junto dele, a CUT (Central Única dos Trabalhadores), o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), a UNE (União Nacional dos Estudantes), e essas grandes forças sociais passam, ao invés de atacar o governo e a querer cobrar, a defendê-lo; se calam diante do mensalão, diante das alianças com o (José) Sarney e o Collor. Ou seja, infelizmente, nós vemos que não adianta a gente apoiar o PT hoje e bater só no PSDB. Infelizmente não dá. A gente acha que seria iludir a população.


FOLHA - Na segurança, na educação e na saúde, algumas das propostas do PSTU demandariam uma alteração na Constituição Federal, como a legalização das drogas, "para acabar com o tráfico e o crime organizado", a estatização do sistema privado e a descriminalização do aborto, que passaria a ser realizado pelos hospitais públicos do Estado. Como o senhor, se eleito, pretende conduzir essas questões?

Tomazini – Esse debate todos os nossos candidatos – nos Estados e também o nosso candidato a presidente – colocam para que a gente possa avançar, para que a população tenha um acúmulo e possa se posicionar. Aqui no Paraná nós podemos, por exemplo, melhorar o tratamento que a polícia dá a isso. Não podemos desmilitarizar a polícia, porque depende de uma resolução federal. Mas podemos mudar, por exemplo, como que se elege o secretário de segurança pública. Ao invés de indicação, começar de baixo para cima, que as comunidades passem a discutir. Nós vemos, hoje, que a Polícia Militar, que é um resquício da Ditadura, só serve para criminalizar a periferia, a pobreza. Teve aí o problema da penitenciária de Cascavel (a rebelião) e o que nós observamos? Que 70% dos presos têm entre 18 e 34 anos. São jovens. E se envolvem de uma forma ou de outra, na maioria das vezes, com o tráfico - tem também os furtos e roubos, que muitas vezes está relacionada ao tráfico. Nós achamos que o debate tem que ser feito no País inteiro. Aqui no Paraná, esses jovens que se envolvem com esse tipo de substância... Eu acho que a medida que a polícia adota em relação a eles é a medida de chegar primeiro atirando e depois perguntando. Pode ser diferente. A gente tem que incentivar que eles não tenham medo de procurar uma saída. Porque quando a gente fala nacionalmente em descriminalizar, não é incentivar. Nós não incentivamos a mulher a abortar também. Mas nós entendemos que o jovem hoje fica com muito medo de chegar a um pai, a uma mãe, professor, professora ou mesmo para a polícia e dizer: "Olha, estou com droga aqui, estou usando e tem um traficante me ameaçando". O grande traficante não está na favela. Está lavando dinheiro nos bairros nobres das cidades. Uma coisa também que nós achamos no Paraná: não concordamos em gastar dinheiro com Unidade Paraná Seguro, fazer módulos da polícia em localizações periféricas muitas vezes sem critério social, vinculada à classe trabalhadora e não ao que pensa a burguesia; eles que dizem que aquela região é perigosa ou não. Nós achamos que esse dinheiro pode ser investido em acesso à cultura, ao lazer, ao esporte. Isso é vinculado também ao nosso programa de educação. Tivemos que fazer uma greve neste ano porque a educação no governo Beto Richa é uma tragédia. Era ruim no Requião – não resolveu nossos problemas em relação à lei do piso, pelo contrário, entrou na Justiça; não resolveu a hora-atividade, não resolveu número de funcionários das escolas, número de alunos por turma, ou seja, não resolveu nada. Agora, o Beto tentou introduzir na escola a privatização, começando por alguns setores. A educação em tempo integral ajudaria muito nessa discussão de como resolver o problema da polícia com a comunidade. Nós somos contra a Patrulha Escolar, por exemplo. Trabalho na escola de Sarandi e uma vez a Patrulha Escolar chegou, encostou na parede três menores de idade que estavam em frente à escola e apontou uma arma para eles. Mesmo sendo a Polícia Militar como é, queremos uma interferência para que essa formação deixe de existir.

FOLHA - É possível então implementar algumas medidas desmilitarizantes, mesmo sem o aval do governo federal e do Congresso, principalmente?

Tomazini - Isso. Transitórias. Agora, não vai resolver o problema. Resolve se for feito de maneira nacional. Aqui podemos atenuar algumas situações.

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