Entrevista - ''Brasil é oportunidade para o futuro''
Bebeti Amaral
De Curitiba
Especial para a Folha
Folha Por que a Volkswagen/Audi veio para o Brasil?
Nikolaus Feil Nós viemos para o Brasil por dois motivos. Em primeiro lugar, por acharmos que aqui temos muitos consumidores, muitos clientes. Se queremos vender carros no mundo, temos que sentir o que os clientes querem. Se estamos na Alemanha, não podemos perceber qual a expectativa dos brasileiros em relação aos carros. O mercado europeu está satisfeito e os mercados latino-americanos mostram uma chance para o futuro. Para se ter sucesso nesses mercados, é preciso estar perto do cliente. Em segundo lugar é porque os mercados aqui crescem mais.
Folha Quando o senhor diz aqui significa o Brasil, em particular?
Nikolaus Feil Para nós, o Brasil é o país mais importante da América do Sul.
Folha Só para nos situarmos no processo: Por que o Estado escolhido foi o Paraná?
Nikolaus Feil Pela infra-estrutura e nível de escolaridade dos paranaenses.
Folha É sabido, no entanto, que a fábrica foi apoiada em uma política de incentivos e isenções fiscais, fruto de polêmica e muito debate entre Estados. Quais foram esses acordos, como e onde foram feitos?
Nikolaus Feil Não comentamos esse assunto porque envolve aspectos comerciais que não discutimos pela imprensa.
Folha E por que é um assunto que não pode ser discutido com a imprensa?
Nikolaus Feil Assinamos um contrato. Nada além disso.
Folha Estima-se que o investimento para a instalação da fábrica foi de US$ 750 milhões, sendo uma grande parte subsidiada pelo governo do Paraná.
Nikolaus Feil O investimento foi de US$ 700 milhões, totalmente feito pela Volkswagen e pela Audi.
Folha Na época da instalação do parque automotivo do Paraná, houve muita divergência de opiniões e a instalação das montadoras tornou-se até tema de campanha. A oposição alegava que os empréstimos feitos pelo governo do Paraná deveriam ser dados a pequenos agricultores ou a companhias locais. Como o senhor avalia isso?
Nikolaus Feil Eu acredito que a tarefa dos políticos seja a de trabalhar para desenvolver a região onde atuam. A história já provou que uma região sem indústria fica estagnada. Atrair indústrias com futuro são as chances para as regiões se desenvolverem. E o Paraná está mostrando que o caminho da indústria é o melhor caminho para a região se desenvolver.
Folha Uma guerra fiscal entre estados brasileiros está em pleno curso no Brasil, principalmente com São Paulo no ataque. Como o senhor vê isso?
Nikolaus Feil Essa é uma falsa questão. Há anos, em todos os países, há disputa entre os estados para ver quem vai receber um investimento importante, porque ele traz riqueza, empregos e desenvolvimento. Isso acontece nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países. Por que seria diferente no Brasil? Dentro da lei, não vejo problemas em que cidades e estados queiram para si algo que vai trazer progresso e riqueza.
Folha Quantos empregos diretos e quantos indiretos a montadora está criando?
Nikolaus Feil São dois mil empregos diretos já contratados, sendo que mais de noventa por cento são brasileiros. Indiretos são 10 mil empregos. Mas acreditamos que muito mais pessoas acabem se envolvendo de uma maneira ou outra com a fábrica.
Folha Como é a política de oportunidades iguais na Volskwagen/Audi? Há muitas mulheres trabalhando na fábrica?
Nikolaus Feil A fábrica da Audi na Alemanha foi a primeira a treinar mulheres em profissões que eram geralmente exercidas por homens. Aqui na Volkswagen/Audi temos 122 mulheres nas linhas de produção. Em quase todos os departamentos temos mulheres trabalhando.
Folha Inclusive na diretoria?
Nikolaus Feil Não, na diretoria aqui ainda não. Mas em São Paulo sim.
Folha Quantas fábricas da Volkswagen existem fora da Alemanha?
Nikolaus Feil Se somarmos todas as joint ventures e incluirmos todas as fábricas, temos mais de 20 fábricas fora da Alemanha.
Folha E por que a maioria das fábricas está em países em desenvolvimento? A mão-de-obra é mais barata ou são pelos incentivos a impostos?
Nikolaus Feil Eu não diria que a maioria das fábricas da Volkswagen esteja em países em desenvolvimento. Há unidades na Bélgica, em Portugal, duas na Espanha. De qualquer forma, quando estávamos fazendo estudos para nos instalarmos aqui no Brasil, descobrimos que o Brasil tinha impostos de 70% em cima dos carros importados. Se nós queríamos vender um volume significativo aqui, nunca teríamos chance se o carro importado estava custando 70% a mais do que o carro produzido no País. E isso acontece em muitos países em desenvolvimento porque todos querem proteger seus mercados internos e por isso cobram taxas tão altas de importação. Foi a política de importação que nos atraiu.
Folha O ex-presidente Collor provocou um grande debate nacional com a declaração de que os carros brasileiros eram todos carroças. O senhor concorda com ele?
Nikolaus Feil Temos que considerar que, antes do ex-presidente Collor, o mercado brasileiro era extremamente fechado para todos os produtos e, além disso, durante dezenas de anos houve controle de preços. Dentro dos mercados fechados, o desenvolvimento nunca é tão rápido quanto nos mercados abertos. Isso trouxe grande ineficiência e perda de produtividade para a indústria nacional. Mas, depois da abertura, pode-se dizer que houve um grande salto em relação ao que se fazia na década de 80.
Folha Na sua visão, o Brasil ainda é um mercado fechado?
Nikolaus Feil Foi, agora não é mais. Num período curto, você pode viver num mercado fechado até bem melhor do que num mercado aberto. Mas por um período longo, você perde a capacidade de competir num mercado mundial. Essa é a minha opinião do que estava ocorrendo no Brasil. O Brasil ainda não é um país competitivo para o mercado mundial, mas já está se encaminhando para isso.
Folha Com passos largos ou lentos?
Nikolaus Feil No início, foram passos rápidos, porque o atraso era muito grande. Agora, os passos são mais lentos. Mas, com o mercado aberto e uma pressão muito forte para que o País se desenvolva rapidamente, não se pode mais perder tempo.
Folha Qual seria a maior diferença entre um operário brasileiro e um operário alemão desempenhando a mesma função?
Nikolaus Feil Existem diferenças culturais enormes. Todo mundo sabe que os alemães são muito duros, decididos e determinados em todos os assuntos. São severos com eles mesmos. Quando uma reunião está marcada para as duas horas, os alemães chegam às duas horas. Os brasileiros nunca chegam na hora marcada. A pontualidade aqui não é levada tão a sério como na Alemanha. Por outro lado, os brasileiros são mais descontraídos e isso deixa o ambiente mais agradável. Além disso, temos que admitir que os brasileiros são muito mais criativos do que nós.
Folha Nós, os brasileiros, estamos acostumados a viver o improviso porque temos uma economia instável que também vive de medidas provisórias. É verdade que os alemães entram em pânico quando têm que improvisar?
Nikolaus Feil Nós vivemos em uma cultura onde traçamos um plano de vida. Tudo é organizado e preparado para cinco, dez ou até quinze anos. Existe um certo improviso na Alemanha, mas a porcentagem desse improviso é com certeza muito menor do que a vivida aqui.
Folha É mundialmente reconhecida e aprovada a preocupação com o meio ambiente existente na Alemanha. Como o senhor se sente sabendo que na área onde a fábrica Volkswagen/Audi foi instalada, em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), muitas árvores foram destruídas?
Nikolaus Feil De fato, algumas árvores foram cortadas. Mas nós temos um acordo com o governo para manter cuidadosamente o meio ambiente e plantar novas árvores. Temos uma consciência ambiental muito grande e por isso nossas cabines de pintura estão operando com solventes à base de água e não de resina, para diminuir os danos ao meio ambiente. Além disso, antes da construção da fábrica, apresentamos nosso estudo de impacto ambiental em audiência publica, inclusive com a presença de partidos de oposição e organizações não-governamentais ligadas à defesa do meio ambiente. Esse relatório foi aprovado sem nenhum problema.
Folha Que carro o senhor tem?
Nikolaus Feil Um Passat e um Audi A6.
Folha Nós temos carros movidos a álcool e carros que utilizam gasolina misturada com álcool. Quais os danos de uma mistura dessas sobre o motor?
Nikolaus Feil Poucos países usam gasolina misturada com álcool. Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns estados que são grandes produtores agrícolas já têm esse sistema. Mas, como a mistura tem sido usada no Brasil há quase trinta anos, não há problemas de tecnologia envolvidos nas adaptações necessárias para que um motor funcione com a mistura gasolina/álcool. Os motores dos nossos carros já foram adaptados para isso.
Folha Parece que a Alemanha está pagando um preço muito alto depois da reunificação com a desmontagem do parque produtivo da parte oriental, que acabou provocando um alto índice de desemprego. Qual é sua opinião sobre a situação atual?
Nikolaus Feil O fechamento de algumas indústrias da Alemanha Oriental ajudou a aumentar o desemprego, com certeza. A indústria da ex-Alemanha Oriental é um bom exemplo de um mercado fechado, de uma indústria que não era competitiva no mundo. Agora as fronteiras foram abertas e todas nossas indústrias têm que estar igualmente aptas a competir num mercado mundial. É um processo muito doloroso e custa muito dinheiro e tempo. Está demorando mais tempo do que nós alemães imaginávamos. É exatamente o mesmo processo que está acontecendo no Brasil, essa mudança de postura diante do mercado mundial.
Folha A Volkswagen/Audi veio para o Brasil às vésperas de uma desvalorização do real, depois de tremores em economias emergentes. Será que veio na hora certa?
Nikolaus Feil Na indústria automobilística há muitas alterações. Não se pode prever muito, mas devo admitir que as oscilações econômicas aqui no Brasil são realmente um pouco mais constantes do que em outros países. Temos que estar conscientes de que o mundo muda, a conjuntura muda, mas sempre depois de um baixo vem um alto e vice-versa.
Folha Nós brasileiros fomos educados com a filosofia de que o Brasil é o país do futuro, apesar de esse futuro nunca chegar. O senhor concorda com essa perspectiva de futuro promissor? Em que prazo?
Nikolaus Feil Eu concordo. O Brasil tem tudo para se desenvolver, mas em primeiro lugar é necessário melhorar o sistema de escolaridade porque educação é a base de um país. Logo que a educação for mais considerada, o futuro vai chegar.
Folha É bom morar no Brasil?
Nikolaus Feil Eu pessoalmente gosto, mas existe uma diferença cultural muito grande entre o Brasil e a Alemanha. Quando tomei a decisão de vir morar aqui eu já sabia disso então me preparei. Culturas vão ser sempre diferentes, são as pessoas que podem se adaptar mais ou menos a elas. Quando uma pessoa vai morar em outro país, é necessário que faça um esforço para se adaptar a um novo ambiente, à comida, ao clima. Só assim ela poderá gozar das diferenças culturais que são justamente o que fascina e atrai no outro país.
Folha Português é uma língua difícil?
Nikolaus Feil E como!Depois de três anos de atividades no País, Audi do Brasil consegue aumentar produção e inicia fase de exportação
DivulgaçãoO Brasil ainda não é competitivo no mercado mundial, mas está caminhandoDivulgaçãoOPORTUNIDADENikolaus Feil: O mercado europeu está satisfeito e os mercados latino-americanos mostram uma chance para o futuro.





