Entre correligionários, trajetória meteórica
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sexta-feira, 25 de abril de 2014
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
No início dos anos 90, quando frequentava festas e bares voltados ao público universitário de Londrina, André Vargas provavelmente já sonhava com uma carreira política de sucesso. O que ninguém poderia supor talvez nem ele mesmo é que sua ascensão seria meteórica. Filho de família sem muitas posses, começou a trabalhar cedo. Ainda adolescente, prestava serviços voluntários no Albergue Noturno de Londrina, onde chegou a gerente administrativo. Em 1982 foi superintendente geral da Associação Londrinense de Assistência. Entre 1987 e 1992 foi presidente da Associação das Entidades Sociais Beneficentes do Paraná.
Na época conheceu petistas ligados à Igreja Católica que também faziam trabalhos sociais e o levaram para as primeiras reuniões do PT. Sua filiação ao partido aconteceu em 1990. Um ano depois já era membro do diretório municipal. A partir de 1993 tornou-se diretor social da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), na gestão de Luiz Eduardo Cheida. Ali permaneceu até 1996, quando resolveu se candidatar a vereador, mas não se elegeu. No ano seguinte foi trabalhar pela primeira vez em Brasília, como chefe de gabinete do então deputado federal Nedson Micheleti.
O filho do casal José Ilario e Ana Vargas Ilario não chegou a frequentar faculdade. Concluiu apenas o curso técnico de administração de empresas no Colégio Estadual Marcelino Champagnat, em Londrina. Ainda assim, no final da década de 90 sua carreira política já começava a se consolidar, com a eleição para presidente do diretório municipal do PT. Em 2000 foi eleito vereador em Londrina pelo PT com 1.740 votos, assumindo a liderança do governo na Câmara Municipal, na gestão de Micheleti.
"Ele teve a sorte de ser eleito com um prefeito do mesmo partido e graças a isso fez um mandato com muita visibilidade", lembra Osvaldo Lima, fundador do PT em Londrina. Daí em diante Vargas não parou de subir. Abandonou o mandato de vereador no segundo ano, ganhou a presidência do PT do Paraná, foi eleito deputado estadual e passou a integrar a base de apoio do governador Roberto Requião (PMDB). Jornalistas que faziam cobertura na Assembleia Legislativa do Paraná na época lembram do deputado como um dos que chegavam primeiro às sessões e não dispensavam uma conversa com os profissionais da imprensa. Por não ter travas na língua, era considerado uma boa fonte.
Na Assembleia do Paraná presidiu a CPI dos Pedágios, cujo relatório final foi favorável às concessionárias e ganhou o apelido de "Bocão". Nas eleições de 2006 foi eleito deputado federal pela primeira vez. Já nesta legislatura foi vice-líder do PT na Câmara Federal.
Vargas foi reeleito em 2010 e chegou à Executiva Nacional do PT, impondo uma derrota ao atual presidente nacional da legenda, Rui Falcão, ao ganhar a secretaria de Comunicação do partido. Ali ele já não era mais uma mera liderança regional. "O momento ajudou muito o André. Ele surfou na onda de crescimento do PT. Sua ascensão tem muito a ver com o crescimento do partido", defende Osvaldo Lima, que considera o deputado licenciado "um cara bom de papo, bonachão, fácil de conviver". Lima garante que jamais poderia supor alguma ligação entre o antigo conhecido de partido e o doleiro Alberto Youssef.
Analisando a carreira de Vargas, porém, é possível perceber que sua ascensão coincide com a morte do deputado federal José Janene (PP), chefe político do norte paranaense e um dos pivôs do mensalão, morto em setembro de 2010. A relação com Janene começou em 1998, quando Vargas tentava escalar a pirâmide burocrática petista na condição de mero colaborador da campanha a deputado de Paulo Bernardo (hoje ministro das Comunicações).
Naquela campanha Vargas conheceu o doleiro Alberto Youssef, compadre de Janene e envolvido em um escândalo de desvio de recursos municipais conhecido como caso AMA/Comurb, pelo qual Vargas foi condenado a devolver ao município R$ 10 mil usados na campanha de Bernardo. A amizade com o doleiro, no entanto, só teria se estreitado depois da morte de Janene.
Além da amizade com Youssef, Vargas herdou os serviços de Wagner Pinheiro, seu chefe de gabinete até o início deste mês, quando vieram à tona suas ligações com o doleiro, preso em 17 de março na Operação Lava Jato da Polícia Federal. Pinheiro era considerado homem de confiança de Janene para assuntos políticos.
Nos últimos dois anos Vargas era um dos líderes do grupo de parlamentares petistas insatisfeitos com o governo Dilma, que chamou de inábil.
Ao mesmo tempo em que desafiava a cúpula partidária, ele tentava agradar à base petista com atitudes voluntaristas como o gesto de levantar a mão esquerda imitando os ex-dirigentes presos - José Dirceu e José Genoino - ao lado do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, em fevereiro. "O André é o tiozão do churrasco. É aquela figura que conta piadas sujas na frente das crianças", comparou um petista que pediu anonimato.
A ascensão política veio acompanhada do crescimento patrimonial. Além de viajar de jatinho às custas do doleiro Alberto Youssef, que chamou de "irmão" nas mensagens interceptadas pela Polícia Federal, Vargas tem carros de luxo e mora em um dos endereços mais caros de Londrina: o Condomínio Alphaville Jacarandá, onde as casas podem ter valor superior a R$ 2 milhões, dependendo da metragem e tipo da construção, de acordo com anúncios publicados no caderno de classificados da FOLHA.
O tempo de garoto humilde, nascido em Assaí (Norte), em 1964, definitivamente ficou para trás. Segundo informações disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de 2006 para 2010, seu patrimônio declarado cresceu 614%.
Em 2010 Vargas declarou ter na garagem, entre outros imponentes veículos, um Toyota Hillux no valor de R$ 80.500,00. Se há oito anos o deputado não tinha sequer um imóvel em seu nome, quatro anos mais tarde tinha três casas, um terreno e uma área de terra de pouco mais de um hectare em Ibiporã (Norte), além dos carros. Neste ano, embora contasse com um patrimônio pessoal de R$ 572 mil, Vargas distribuiu R$ 893 mil a 32 candidatos de três partidos. Entre eles os senadores Roberto Requião (PMDB-PR), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e a presidente Dilma Rousseff. (Com Agência Estado)


