Entidades convergem sobre prioridades para o próximo governador
Setor produtivo e representantes dos trabalhadores cobram compromissos do sucessor de Ratinho Jr na indústria, infraestrutura, habitação e trabalho
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2026
Setor produtivo e representantes dos trabalhadores cobram compromissos do sucessor de Ratinho Jr na indústria, infraestrutura, habitação e trabalho

As articulações para a sucessão do governador Ratinho Junior (PSD) ainda estão em curso e os nomes que efetivamente disputarão o Palácio Iguaçu só devem ser confirmados após as convenções partidárias, previstas para julho e agosto. Mesmo assim, setores estratégicos da economia paranaense e entidades representativas dos trabalhadores já começam a se movimentar para influenciar o debate eleitoral e cobrar compromissos concretos dos futuros candidatos ao governo do Estado.
De propostas voltadas à formulação de uma política industrial para o Paraná a reivindicações ligadas à infraestrutura, à qualificação profissional, à desburocratização e à melhoria das condições de trabalho, diferentes segmentos ouvidos pela FOLHA elencam prioridades que consideram centrais para a próxima gestão estadual. A intenção é fazer com que esses temas cheguem ao centro dos planos de governo e sirvam de parâmetro para a cobrança da sociedade ao longo da campanha.
A FOLHA solicitou a entidades do setor produtivo e a organizações sindicais que apontassem quais compromissos esperam ver assumidos pelos postulantes ao governo nas eleições de outubro. As respostas mostram convergências em áreas como desenvolvimento regional, ambiente de negócios, infraestrutura e geração de emprego, mas também revelam demandas específicas de cada setor, em um momento em que o Paraná se prepara para discutir os rumos de sua próxima administração.
A Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) está trabalhando em uma proposta de política industrial que será apresentada aos candidatos. À FOLHA, a entidade pontua que, apesar de a indústria ocupar uma posição de destaque na economia paranaense, ainda tem enorme potencial para evoluir. A formulação de uma política industrial para solucionar desafios e gargalos, para a Fiep, tem papel central para tornar o cenário ainda mais atrativo para o setor.
A proposta que está sendo formulada pelos industriais prevê os seguintes eixos: condições institucionais, com segurança de ativos, segurança jurídica e simplificação burocrática; dinamização econômica, com tributação competitiva, atração de investimentos, financiamento indutor e inserção internacional; infraestrutura produtiva, com segurança energética, logística integrada, áreas industriais estruturadas, conectividade ampliada e sustentabilidade econômico-ambiental; e produtividade e capacidades, com capital humano produtivo, atualização tecnológica, inovação, transformação digital e empreendedorismo industrial.
“Importante ressaltar que as 16 diretrizes ainda serão desdobradas em 100 estratégias e mais de 200 ações, detalhando quais são os caminhos que a Fiep considera fundamentais para que o Paraná aprimore seu ambiente de negócios em cada um dos quatro eixos principais”, afirma a Fiep.
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INDÚSTRIA NO INTERIOR
A ACIL (Associação Comercial e Industrial de Londrina) acredita que é necessário um plano de desenvolvimento industrial para o interior do Paraná, após anos de investimentos maciços dirigidos para Curitiba e para a Região Metropolitana da capital.
“Outro ponto importante é a diminuição do tamanho do Estado. O setor produtivo não tem mais como pagar a carga tributária excessiva para manter uma estrutura de estado que não atende a população e a sociedade. O estado precisa ser diminuído e, paralelamente, ganhar eficiência”, afirma a ACIL.
A entidade também destaca a importância da desburocratização de processos. “Os processos burocráticos, como as exigências do Corpo de Bombeiros e a concessão de licenças, precisam de agilidade para que as empresas possam produzir”, acrescenta.
Para a ACIL, ainda há uma “informalidade gigantesca” na economia e há necessidade urgente de programas de incentivo à formalização.
“Precisamos de um programa inteligente para que tenhamos mais gente pagando menos imposto. Hoje temos pouca gente pagando muito imposto. E aí entra uma concorrência desleal, pois quem não paga imposto pode praticar condições de comercialização e prestação de serviços com valores mais favoráveis do que aqueles empresários que estão formalizados”, continua.
Especificamente para Londrina, a entidade afirma que a segunda maior cidade do Paraná precisa ter uma “representatividade à altura de sua importância no primeiro escalão do governo, para que possamos participar mais ativamente da gestão”.
AGRONEGÓCIO
À FOLHA, o presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Marcelo El-Kadre, destacou que há uma preocupação do setor com a continuidade de avanços alcançados no Paraná nos últimos anos. “Nós acreditamos que o Paraná está num nível muito acima dos outros estados e não podemos permitir um retrocesso ou talvez uma velocidade menor de desenvolvimento”, disse.
Entre as demandas do campo, El-Kadre cita a melhoria da infraestrutura e a continuidade do desenvolvimento do Estado, “sempre olhando para o Norte”. “Não esquecendo da parte social, da parte educacional e da parte institucional do Estado. Nós vamos cobrar o próximo governo em relação a isso”, completou.
A FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) irá apresentar aos candidatos a governador o Plano Diretor para o Agronegócio do Paraná, documento que reúne propostas e contribuições técnicas da entidade e dos 162 sindicatos rurais do Paraná.
“Mais do que uma série de propostas, o documento serve como uma bússola para o futuro do agronegócio estadual, pois o setor tem peso significativo na economia do Estado”, afirmou a FAEP, que aponta que o plano está em desenvolvimento.
CONSTRUÇÃO CIVIL
O Sinduscon-PR Norte (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Norte do Paraná) elencou cinco prioridades que dependem, de forma decisiva, da atuação do governo do Estado para a viabilização e precisam estar no radar da próxima gestão.
A primeira é a modernização do ambiente regulatório, com simplificação e digitalização dos processos de licenciamento, aprovação de projetos e fiscalização.
“A integração entre sistemas estaduais e municipais, aliada ao aumento da previsibilidade e da transparência, configura-se como condição indispensável para a redução de custos, prazos e da insegurança jurídica”, afirma a entidade. “A modernização das relações entre o setor produtivo e o poder público deve ser compreendida como um processo permanente e contínuo, alinhado à velocidade das transformações tecnológicas que impactam diretamente a dinâmica da construção civil.”
O Sinduscon acredita que o Paraná precisa avançar em uma política estadual de industrialização da construção, permitindo a adoção de sistemas construtivos industrializados, como o off-site e a construção modular. Para isso, são necessários incentivos fiscais e linhas de financiamento que facilitem o processo, além do fomento à inovação, da incorporação de novas tecnologias e do avanço de práticas sustentáveis no setor.
A terceira prioridade elencada é a qualificação profissional e a formação de mão de obra, uma vez que a escassez de trabalhadores qualificados ainda é um dos principais gargalos da construção civil.
Para o Sinduscon, a ampliação de programas habitacionais voltados à redução do déficit de moradia deve figurar como prioridade do governo do Estado. “A construção civil exerce papel central como vetor de inclusão social e dinamização econômica, especialmente quando articulada a políticas públicas consistentes e de longo prazo”, reforça o sindicato.
Por fim, a quinta prioridade é a ampliação e modernização da infraestrutura logística, incluindo rodovias, conexões ferroviárias e a estrutura aeroportuária, que são determinantes para o desenvolvimento regional.
“A construção civil é um dos principais vetores de desenvolvimento econômico e social e necessita de um ambiente favorável para responder à demanda por infraestrutura, habitação e novos empreendimentos”, completa o Sinduscon.
CLASSE TRABALHADORA
Marcio Kieller, presidente da CUT-Paraná (Central Única dos Trabalhadores do Paraná), afirma que a entidade está acompanhando as movimentações da conjuntura política e, como em todo ano, vai apresentar uma plataforma com as principais demandas e reivindicações da classe trabalhadora.
“Hoje, a CUT é composta por 18 ramos de atividade, e essa plataforma inclui, claro que pontualmente, as demandas desses setores. Ela nos ajuda a provocar os nomes que se colocam como pré-candidatos ao governo, trazendo temas relacionados ao mundo do trabalho. Sempre colocamos na ordem do dia que esses temas são fundamentais”, afirma Kieller.
Para o dirigente sindical, isso também depende da composição do Congresso Nacional para a próxima legislatura, sendo que a CUT avalia que há baixa representação em termos de deputados e deputadas ligadas à classe trabalhadora.
Em linhas gerais, o presidente da CUT-PR ressalta a necessidade de uma “construção de trabalho decente”, citando como exemplo o fim da escala 6 por 1. “O trabalho, do jeito que se encontra hoje, é um trabalho exploratório. Essa é uma questão na linha de frente do processo.”
Também estão em pauta políticas públicas para o combate à violência contra as mulheres. “É preciso reforçar políticas afirmativas e de empoderamento das mulheres para que tenhamos uma sociedade mais igual”, acrescenta.
Kieller destaca que são necessárias condições objetivas para a melhoria das condições de trabalho e da infraestrutura. Para ele, é necessário avançar no tema da tarifa zero no transporte coletivo.
“Para a classe trabalhadora, além do bem viver e de condições estruturais de habitação, educação, lazer e esporte, nós queremos trabalho decente, trabalho digno e o fortalecimento cada vez maior da dignidade das trabalhadoras e dos trabalhadores no Brasil”, completa.
A reportagem procurou a APP-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná), que não se manifestou sobre o assunto e disse que, em julho, na conferência de educação da entidade, serão definidas as propostas para os debates. “O documento será sistematizado após o evento e publicado.”
A reportagem também procurou o MST-PR (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná), que afirmou que entregará um posicionamento depois do registro das candidaturas ao governo do Estado.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.





