Rio de Janeiro - Lágrimas e palavras de ordem marcaram o sepultamento dos restos mortais de Flávio Carvalho Molina, torturado e assassinado em novembro de 1971, no Doi-Codi, em São Paulo. A cerimônia realizada na manhã de ontem no cemitério São João Batista, no Rio, pôs fim a uma longa batalha de familiares e amigos em busca do corpo de Molina.
''O nosso sentimento é de alívio pelo fim de uma angústia que nos consumiu por mais de 30 anos'', disse, em nome da família, Geraldo Molina, 62, um dos quatro irmãos de Flávio e vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais no Rio.
Geraldo e os irmãos Celso e Cláudio - a primogênita Marta já morreu - passaram boa parte do tempo preocupados com a mãe, Maria Helena, 89, que fez questão de ir ao cemitério mesmo de cadeira de rodas e sem poder enxergar. Ela passou a mão na urna funerária, no retrato do filho assassinado e chorou no momento do sepultamento.
Militante do Molipo (Movimento de Libertação Popular) - o mesmo grupo do qual fez parte o deputado federal José Dirceu (PT-SP) - Molina deixou a casa dos pais em 1969, porque já fora preso uma vez em razão de sua atuação política. Esteve na clandestinidade por dois anos, vivendo parte do tempo em Cuba - como Dirceu.
Preso em 1971, em São Paulo, às vésperas de completar 24 anos, tornou-se um desaparecido político. Seu corpo foi enterrado no cemitério Dom Bosco, em Perus, com o nome falso Álvaro Lopes Peralta.
A vala comum em que seus restos estavam misturados aos de outros mortos pela ditadura militar só foi aberta em 4 de setembro de 1990. De lá para cá, a família recorreu a oito instituições, do Brasil e do exterior, até conseguir, em 2 de setembro passado, a prova incontestável de que a ossada era de Molina.
''Fizemos questão de que todo esse trabalho fosse feito com recursos da União. Já que ela nos tirou o Flávio, que nos devolvesse identificado'', explicou Geraldo Molina, ressaltando que ''a luta continua''. ''Estamos pedindo a abertura dos arquivos das Forças Armadas e a criação de um banco de DNA, que depende do governo federal. Muitas mães estão morrendo sem poder enterrar seus filhos'', disse.
Cerca de 50 pessoas acompanharam o sepultamento, muitas delas ex-militantes de organizações de luta armada. Elas gritaram nomes de outras pessoas mortas pelo regime militar, como Carlos Lamarca, Carlos Marighella e Stuart Angel, e palavras de ordem como ''Tortura nunca mais/ Pela vida e pela paz''. Carlos Fayal, amigo de adolescência, chamou Flávio Molina em seu discurso de ''herói do povo brasileiro''.
A cerimônia teve orações conduzidas pelo padre Ricardo Rezende, notabilizado pela defesa de lavradores no Pará.

mockup