Pesos pesados do empresariado brasileiro sugeriram ontem ao presidente Fernando Henrique Cardoso a ‘‘privatização da gestão dos recursos’’ que suas empresas pagam direta e indiretamente ao governo para aplicação em programas da área social. Na visão dos empresários, se as empresas assumirem diretamente a responsabilidade pela gestão destes recursos, ‘‘o resgate da dívida social seria mais efetivo, imediato e de melhores padrões de qualidade’’.
O documento com a proposta elaborada pelo Fórum de Líderes Empresariais Gazeta Mercantil no ano passado foi entregue ontem à tarde a Fernando Henrique, durante solenidade realizada no Palácio do Planalto. Falando em nome dos empresários, o presidente do Fórum, Rinaldo Campos Soares, que também preside a Usiminas, disse ao presidente que a proposta não retira do Estado a responsabilidade de diminuir a distância entre os mais ricos e mais pobres. ‘‘Caracteriza-se como um esforço complementar, de engajamento das lideranças empresariais em torno da causa da cidadania’’, argumentou.
Antes da cerimônia, o diretor-executivo do Grupo Votorantim, Antônio Ermírio de Morais, disse que há 20 anos os empresários já vem debatendo de que forma os recursos públicos, formados em grande parte pelo dinheiro das empresas, poderiam ser melhor utilizados. ‘‘Trinta e dois por cento da riqueza nacional é formada por tributos que a sociedade e os empresários pagam’’, argumentou Antônio Ermírio. Em seu discurso, Rinaldo Soares explicou que a proposta, além de ampliar a ‘‘produtividade’’ dos recursos pagos pelas empresas ao governo, reduziria a sua peregrinação ‘‘que é onerosa quanto aos meios e ineficaz quanto aos fins’’.
O presidente Fernando Henrique ouviu a proposta, mas não deu uma resposta aos empresários. Em seu discurso, o presidente falou sobre as boas idéias e propostas que estão surgindo no limiar do século XXI e incluiu a sugestão dos empresários entre elas. ‘‘Nós estamos vivendo numa época pós, pós qualquer coisa: pós-liberal, pós-marxista, pós-social democrata’’, afirmou. ‘‘E os que não percebem que isso está acontecendo ficam julgando o presente com os olhos do passado, e são incapazes de vislumbrar o futuro’’, completou o presidente.
Para Fernando Henrique, o momento atual exige a busca de uma nova forma de organização da sociedade: a busca de um novo conceito que não pode se ater ‘‘à eficiência e ao mercado’’, e nem pode dispensá-los.

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