Empresário recebeu R$ 242,8 mi na gestão Lula
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quarta-feira, 06 de julho de 2005
João Domingos e Rosa Costa<br> Agência Estado 
Brasília - O empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, suspeito de ser o operador do chamado ''mensalão'', afirmou, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) Mista dos Correios, que, somente no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu R$ 242,8 milhões do Banco do Brasil (BB) R$ 218,8 milhões do BB e R$ 24 milhões do Banco Popular, para o qual foi feita uma concorrência interna, entre as três agências de publicidade prestadoras de serviço para a instituição financeira.
Durante os dois últimos anos da gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Valério recebeu R$ 109,1 milhões do BB, com o qual a DNA, uma das empresas dele, tem contrato desde 1994. Esse contrato é prorrogado e aumentado por termos aditivos. Em 2001, a conta foi de R$ 43,8 milhões; em 2002, R$ 65,2 milhões; em 2003, R$ 75,7 milhões; em 2004, R$ 103,3 milhões e, em 2005, R$ 39 milhões até agora. De acordo com o relator da CPI Mista dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), os aditivos não poderiam passar o porcentual de 40%.
Um detalhe levantado pela senadora Heloisa Helena (Psol-AL) chamou a atenção: a conta da campanha publicitária inicial do Banco Popular, do BB, foi de R$ 24 milhões, mas a financeira só conseguiu emprestar até agora R$ 20 milhões. O empresário, no entanto, negou que a ligação com o secretário afastado de Finanças e Planejamento do PT, Delúbio Soares, tenha influenciado o sucesso. ''Foi minha eficiência profissional'', alegou Valério.
Sobre o destino dos R$ 20,9 milhões sacados no caixa do Banco Rural conforme documentação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) , o empresário repetiu, várias vezes, que o vazamento da informação ''foi um ato ilícito''. Valério afirmou que o dinheiro era destinado ao pagamento de fornecedores, equipes de TV e cachê de artistas. Recusou-se a dizer quanto tem e onde faz aplicações financeiras. Para os gastos pessoais, disse que a retirada mensal é de R$ 30 mil.
Respondendo ao senador Alvaro Dias (PSDB-PR), o empresário disse que Eliane Alves, mulher do funcionário Marco Antônio Silva, da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República, foi gerente da Multi Action Eventos, uma das empresas dele, em Brasília. Valério opinou que esse grau de parentesco não significa tráfico de influência na secretaria, que cuida dos contratos de publicidade de todo o governo. ''Não vejo tráfico de influência porque a Secom não controla as licitações'', disse. O empresário afirmou ainda que não conhece o ministro Luiz Gushiken e que presenteou o secretário-executivo da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência, Marcus Flora, e o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) com uma caneta Mont Blanc.
Ao responder ao relator da CPI, Osmar Serraglio (PMDB-PR), o empresário disse que as empresas de publicidade DNA e SMP&B faturam R$ 400 milhões por ano R$ 200 milhões para cada uma. A DNA tem a conta do BB; a SMP&B tem a dos Correios R$ 28 milhões em 2004 e a da Câmara, neste ano, com um aditivo de R$ 8,16 milhões.
As duas agências têm ainda contas das Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte) e dos Ministérios dos Esportes e do Trabalho. Valério admitiu que fez a campanha do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) para a presidência da Câmara, em 2003, e do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), em 2005. Fez também as campanhas para candidatos a prefeito de Petrópolis (na Região Serrana do Rio), Osasco, na Grande São Paulo, e São Bernardo do Campo, no Grande ABC (SP).
O empresário pôs sob suspeita a reportagem da revista ''IstoÉ Dinheiro'', para a qual a ex-secretária de Fernanda Karina Somaggio informou que ele sacava recursos com o objetivo de efetuar pagamentos a parlamentares. ''Tem algumas diferenças de conteúdo'', disse, referindo-se à primeira entrevista de Karina, concedida à revista e que ele teve acesso por intermédio do diretor do periódico, Domingos Alzugaray, no fim de 2004, e a publicação feita em junho.
Valério disse que, quando o presidente nacional licenciado do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), depôs no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, ele dispunha de informações do que seria publicado pela ''IstoÉ Dinheiro'', com base nas declarações da ex-secretária. ''Não sei se alguém estava a serviço de grupos econômicos. Não quero macular ninguém. Caberá à imprensa e a esta CPI descobrir'', disse Valério. O encontro de Valério com Alzuraray, segundo ele mesmo, foi intermediado pelo jornalista Gilberto Mansur. O empresário disse que Mansur presta serviço para as agências de publicidade dele. A CPI tem documentos que comprovam pagamento de R$ 300 mil a Mansur.
Curiosa foi a resposta dada por Valério para a insistência de Jefferson em acusá-lo de ser o operador do ''mensalão'': ''Deve ser porque sou meio careca e porque tenho relacionamento próximo com Delúbio Soares.''


