Brasília - A empresária do ramo de transportes Rosângela Gabrilli reafirmou ontem em depoimento à CPI dos Bingos ter contribuído para um esquema de cobrança de propina durante a gestão de Celso Daniel (PT) em Santo André (SP), morto em 2002. Segundo ela, o dinheiro arrecadado com empresas de ônibus era destinado a custear campanhas do PT. A família Gabrilli, que controla um terço das linhas de ônibus em Santo André, foi a primeira a denunciar ao Ministério Público o suposto esquema de corrupção na prefeitura logo após o assassinato de Daniel. Ontem, ela também voltou a dizer que sua família tentou alertar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, meses antes da sua eleição em 2002, que o esquema continuou funcionando após a morte do prefeito.
  Segundo a empresária, o caso foi relatado ao presidente por sua irmã, Mara Gabrilli, que hoje chefia a pasta da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da Prefeitura de São Paulo. O encontro, segundo ela, ocorreu no apartamento do presidente em São Bernardo do Campo (SP).
  ‘‘Ele [Lula] estava em São Bernardo e ela foi lá. Pela situação física dela, foi prontamente atendida. Ele conversou, ouviu e disse que iria averiguar’’, disse. ‘‘Ela ficou por volta de 20 minutos, foi muito bem atendida pela primeira-dama [Marisa Letícia] e pelo presidente. Tomou café, expôs tudo que ainda continuava acontecendo na cidade. Ele ouviu com muita atenção e disse que iria averiguar’’, completou.
  O Palácio do Planalto não se pronunciou sobre o caso até o momento. A empresária entregou aos senadores cópia de uma planilha na qual detalha os valores ‘‘extorquidos’’ de empresas de ônibus, de 1997 a 2001, para abastecer o que chamou de ‘‘caixinha’’ do PT. Nos documentos, constam remessas mensais que variavam de R$ 20 mil a
R$ 50 mil, pagas a maioria em dinheiro vivo.
  Ela disse ainda ter ouvido do empresário Ronan Maria Pinto, acusado pelo Ministério Público de integrar o esquema de propina, que ‘‘esse dinheiro não fica aqui [em Santo André], mas vai para São Paulo’’. Conforme o médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado, Gilberto Carvalho (ex-secretário da cidade e hoje chefe-de-gabinete de Lula) teria lhe contado que o montante recolhido era entregue ao então presidente do PT, o deputado José Dirceu. Gilberto e Dirceu negam as acusações.
  Ronan disse, por meio de nota, que as afirmações da empresária ‘‘são a continuidade do espetáculo que ela e a família de Celso Daniel protagonizam tentando envolvê-lo numa trama terrível para lucrar comercial-mente’’. O esquema de propina, conforme relato de Gabrilli, era capitaneado pelo então secretário de Serviços Urbanos, Klinger Luiz de Oliveira Souza, com a ajuda de Ronan e do empresário Sérgio Gomes da Silva, considerado pelo Ministério Público como mandante da morte do
prefeito.

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