Empresa burlava declarando prejuízo
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de fevereiro de 1997
Agência Estado De Brasília 
Os agentes da Polícia Federal que fizeram a apreensão dos livros de contabilidade da empresa IBF Factoring, na quinta-feira, levaram um susto. O balanço da empresa relativo a 1996 registra um faturamento de R$ 100 milhões e despesas de R$ 270 milhões, com um prejuízo de R$ 170 milhões. Se o escândalo dos títulos não tivesse estourado, a IBF Factoring não pagaria um centavo sequer de Imposto de Renda sobre o lucro obtido nas operações com títulos estaduais e municipais.
Com as demonstrações financeiras em mãos, o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Títulos Públicos, senador Roberto Requião (PMDB-PR), não tem mais dúvidas. A IBF Factoring era utilizada pelo esquema de empresas que atuou no mercado financeiro para descarregar os prejuízos. A contabilidade era feita pela própria distribuidora Split, denunciou. O Ibrahim Borges Filho já recebia tudo pronto, acrescentou.
Com os livros de contabilidade e os arquivos da IBF Factoring, o relator da CPI passa a contar com uma enorme massa de informações sobre como atuava o esquema e suas ramificações. Além de ser um mapa da sonegação fiscal, os livros de Ibrahim devem mostrar o que mais interessa neste momento à CPI dos Títulos Públicos: quais foram os beneficiários finais do lucro obtido nas operações.
A IBF Factoring tem um capital de apenas R$ 10 mil e lucrou, em 1996, cerca de R$ 100 milhões, de acordo com o seu proprietário, Ibrahim Borges Filho. Mas o Banco Central somente conseguiu comprovar até agora um lucro de R 77,9 milhões com as negociações com títulos públicos emitidos para pagar os débitos judiciais transitados em julgado - os precatórios. A IBF lucrou R$ 40,8 milhões com os títulos de Pernambuco, R$ 4,6 milhões com os títulos de Alagoas, e R$ 32,5 milhões com os títulos de Santa Catarina, Osasco (SP) e Guarulhos (SP).
A explicação para a diferença do lucro que Ibrahim Borges Filho diz ter obtido em 1996 e o lucro comprovado pelo Banco Central pode ser mais simples do que parece. O BC apurou apenas o lucro obtido com as negociações dos títulos destinados ao pagamento dos precatórios. A IBF negociou com todos os títulos municipais e estaduais, inclusive aqueles relacionados com a rolagem das dívidas mobiliárias.
O total dos títulos emitidos pelos Estados e Municípios para pagar precatórios é de R$ 10,3 bilhões. A dívida mobiliária (títulos) total dos governos estaduais e prefeituras ultrapassa R$ 46 bilhões. Assim, a IBF pode ter lucrado também nas negociações com os outros títulos.


