Os agentes da Polícia Federal que fizeram a apreensão dos livros de contabilidade da empresa IBF Factoring, na quinta-feira, levaram um susto. O balanço da empresa relativo a 1996 registra um faturamento de R$ 100 milhões e despesas de R$ 270 milhões, com um prejuízo de R$ 170 milhões. Se o ‘‘escândalo dos títulos’’ não tivesse estourado, a IBF Factoring não pagaria um centavo sequer de Imposto de Renda sobre o lucro obtido nas operações com títulos estaduais e municipais.
Com as demonstrações financeiras em mãos, o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Títulos Públicos, senador Roberto Requião (PMDB-PR), não tem mais dúvidas. A IBF Factoring era utilizada pelo esquema de empresas que atuou no mercado financeiro para descarregar os prejuízos. ‘‘A contabilidade era feita pela própria distribuidora Split’’, denunciou. ‘‘O Ibrahim Borges Filho já recebia tudo pronto’’, acrescentou.
Com os livros de contabilidade e os arquivos da IBF Factoring, o relator da CPI passa a contar com uma enorme massa de informações sobre como atuava o esquema e suas ramificações. Além de ser um mapa da sonegação fiscal, os livros de Ibrahim devem mostrar o que mais interessa neste momento à CPI dos Títulos Públicos: quais foram os beneficiários finais do lucro obtido nas operações.
A IBF Factoring tem um capital de apenas R$ 10 mil e lucrou, em 1996, cerca de R$ 100 milhões, de acordo com o seu proprietário, Ibrahim Borges Filho. Mas o Banco Central somente conseguiu comprovar até agora um lucro de R 77,9 milhões com as negociações com títulos públicos emitidos para pagar os débitos judiciais transitados em julgado - os precatórios. A IBF lucrou R$ 40,8 milhões com os títulos de Pernambuco, R$ 4,6 milhões com os títulos de Alagoas, e R$ 32,5 milhões com os títulos de Santa Catarina, Osasco (SP) e Guarulhos (SP).
A explicação para a diferença do lucro que Ibrahim Borges Filho diz ter obtido em 1996 e o lucro comprovado pelo Banco Central pode ser mais simples do que parece. O BC apurou apenas o lucro obtido com as negociações dos títulos destinados ao pagamento dos precatórios. A IBF negociou com todos os títulos municipais e estaduais, inclusive aqueles relacionados com a rolagem das dívidas mobiliárias.
O total dos títulos emitidos pelos Estados e Municípios para pagar precatórios é de R$ 10,3 bilhões. A dívida mobiliária (títulos) total dos governos estaduais e prefeituras ultrapassa R$ 46 bilhões. Assim, a IBF pode ter lucrado também nas negociações com os outros títulos.

mockup