Carmem Murara e
Patrícia Zanin
De Curitiba
Quando soube da morte do deputado Aníbal Khury, o jardineiro Carlos Francisco de Andrade, 16 anos, não pensou duas vezes. Separou R$ 10 do dinheiro que recebeu após um dia de trabalho e foi até um brechó para comprar o primeiro paletó e gravata da vida. O rapaz queria estar alinhado para ir ao velório do presidente da Assembléia Legislativa. Foi a primeira vez que entrou no Palácio Iguaçu e se disse admirado com o tamanho e imponência do local.
Compenetrado e com um ar de tristeza estampado no rosto, o garoto acompanhou sozinho a cerimônia religiosa, que começou às 8h30 da manhã de ontem. Logo depois, foi até o caixão para se despedir do deputado, que ele considerava o ‘‘melhor político do Paranᒒ, ainda que nunca lhe tenha dado o voto, em função da idade. Pegou na mão do deputado, fez o sinal da cruz e depois se retirou. ‘‘Eu gostava muito dele. Era um bom político para ajudar a gente. Sempre dava cesta básica lá em Araucária’’, disse o garoto, um pouco emocionado. Ele conheceu o deputado na última eleição, quando Khury participou de um comício no município.
Morador da zona rural de Araucária, Carlos destoava das pessoas que acompanhavam o velório (a maioria autoridades, políticos, parentes e amigos do deputado). Poucos eram os eleitores do deputado que optaram em ir ao velório ou enterro. ‘‘Que Deus, lá no céu, abra a porta para ele’’, disse o garoto, minutos antes de ir embora com sensação de missão cumprida.
Em outro momento, Maria das Graças Gomes, de Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, roubou a cena logo após o final do enterro do deputado Aníbal Khury, quando parentes e amigos ainda não haviam deixado o cemitério. Ela chamou a atenção ao fazer um discurso inflamado e chorar de emoção ao recordar passagens da própria vida. Maria das Graças carregava um terço e um livro com a inscrição ‘‘Jesus’’. Durante os discursos antes do sepultamento, ela ajoelhou na grama e rezou.
Depois de encerrado o enterro, repetiu frases desconexas sobre o deputado, o Brasil e a própria vida. ‘‘Não se deve fugir da família. Precisamos comprar uma sepultura, digna’’. Depois, disse que toda a sociedade precisa de políticos. ‘‘Para tudo que der e vier’’.
Dona Maria das Graças disse que, pela lei, está morta e seu título de eleitor está com os vizinhos. ‘‘Milico quer aumento ou com sangue derramado?’’, perguntou, para mais adiante, afirmar: ‘‘O Brasil é lindo, mas falta gente inteligente para governar o País.’’ Entre uma frase e outra e uma lágrima e outra, dona Maria disse que ‘‘perdoava a viúva do deputado’’.

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