Em Veneza, Lula adverte sobre genocídio no Timor
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza
Especial para a Folha
O ex-candidato à Presidência e líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, disse ontem em Veneza que a Europa não pode ignorar o que está acontecendo neste momento no Timor Leste. Até agora não vi nenhum país europeu se movimentar em apoio aos timorenses. Um outro genocídio já está acontecendo, e até agora ninguém fez nada. A declaração de Lula foi feita ontem à tarde no Hotel Excelsior, durante encontro de personalidades latino-americanas convidadas para debater os direitos humanos na América Latina.
O encontro, denominado Existem os Direitos Humanos na América Latina?, foi aberto com a exibição de Guatemala Nunca Mais, um documentário de 50 minutos, ainda não concluído. Realizado por dois jornalistas, o americano Peter Tompkins e a italiana Maria Luisa Forenza, o filme é um impressionante relato sobre o genocídio do povo maia na Guatemala.
Também convidada, a ativista Rigoberta Menchú, Premio Nobel da Paz em 92, fez um relato emocionado sobre os últimos 36 anos naquele país, durante os quais ocorreu o extermínio da população maia. Rigoberta, que está lançando na Itália o livro Nunca Mas, reunindo relatórios de atrocidades elaborados pelo bispo guatemalteco Juan Gerardi e pela ONU, responsabilizou diretamente a CIA, os governos Nixon e Reagan e as várias ditaduras militares pela faxina étnica ocorrida na Guatemala. O bispo Gerardi foi assassinado em 1998.
Quem também participou do debate foi Frei Beto, apresentado como expoente da teologia da libertação. O religioso, que enumerou dados e citou estatísticas sobre a situação de pobreza extremada em que vive a maioria da população brasileira, foi muito aplaudido quando se referiu, segundo ele, ao mais recente processo de empobrecimento pelo qual passam os países do Terceiro Mundo: a globocolonização. E não poupou críticas à desnacionalização do Brasil promovida por Fernando Henrique Cardoso.
Coube a Lula encerrar o encontro. Apresentado biograficamente no programa impresso com uma única frase, três vezes candidato à Presidência do Brasil, ele fez justiça ao econômico perfil e foi o único a falar em pé. Com o habitual tom discursivo e valendo-se das figuras retóricas habituais, Lula levou a platéia ao riso e à quase euforia quando, ajudando pela empolgação da tradutora, falou sobre a distribuição de riqueza no Brasil, país onde a cadeia está cheia de pobres e ladrões chegam a ser ministros.
Sobre o tema globalização, Lula disse das grandes diferenças do processo econômico no primeiro e no terceiro mundos, realidades desiguais: mundo globalizado, problemas sociais nacionalizados. Foi adiante no tema e discorreu muito sobre economia para concluir sobre a impossibilidade de de haver respeito aos direitos humanos, enquanto o modelo economico e político for perverso.
Lula acabou surpreendendo os participantes do encontro quando se referiu, além do Timor Leste, a um outro país que está com a soberania ameaçada. Segundo ele, o mundo ainda não se deu conta do que se passa na Colômbia, onde os Estados Unidos, a pretexto de combater o narcotráfico, estão promovendo uma verdadeira invasão militar sem que ninguém ainda tenha percebido o perigo dessa atitude.





