Enquanto nas ruas do País intensificam-se as grandes manifestações públicas a favor e contra o governo da presidente Dilma Rousseff (PT), um outro tipo de engajamento político, mais discreto, vai ganhando espaço no dia a dia do cidadão, onde permanece aceso o assunto do momento. Usando as redes sociais para potencializar o alcance das suas convicções, predominam os grupos do "impeachment já" e do "não vai ter golpe". No entanto, nesse meio estão proliferando os discursos de intolerância, muitas vezes até ameaçadores, comprometendo a qualidade da discussão e o aperfeiçoamento da democracia, em meio a "gritaria", conforme definição do professor de filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Aguinaldo Pavão.
Com a arena virtual dividida entre aliados e inimigos, quem pensa diferente é logo taxado de coxinha ou petralha, alusão popular aos simpatizantes dos principais partidos, PSDB e PT, respectivamente. "Quando chega a esse ponto, não temos discussão política, isso é criação de estereótipos", definiu o sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Augusto Prando. Especialistas ouvidos pela FOLHA concordam que a crise provoca significativo aumento no interesse pelo assunto, "mas é baixa qualidade nesse debate", constata o professor de ciência política da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR) e pesquisador do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil (UFPR), Luiz Domingos Costa.
Costa faz a comparação com as torcidas de futebol. "Há uma personalidade autoritária no país e o indivíduo intolerante age com ódio religioso e fanatismo em um torcida de futebol, mas quando isso vem para a política é perigoso, afinal é onde se discute a estrutura de uma nação."
O rumoroso caso da médica pediatra de Porto Alegre, que se negou a atender criança cuja mãe é militante do PT, pode revelar o comportamento emocional do brasileiro no momento tenso da política. A recusa foi divulgada pela mãe no seu perfil na internet. De acordo com o sociólogo Rodrigo Prando, "foi lamentável o que a médica fez". "Imagine se um professor chega na sala de aula e decide que não tem condições de dar aula para quem é contra o governo. É ação medida apenas pela emoção", compara o analista.

Falar e ouvir

Ao analisar as postagens nas redes sociais, o psicoterapeuta Sylvio do Amaral Schreiner considera baixo o nível dos debates e acredita que algumas pessoas usam o momento político "para se livrar de alguns impulsos de raiva e de ódio e as coisas ficam totalmente divididas entre aliados e inimigos". Schreiner lembra que para haver discussão é necessário falar e ouvir, mas percebe a ausência de diálogo nas manifestações sobre a crise. "Conversar significa falar e escutar. Está todo mundo falando, mas ninguém está escutando", diz. "Eu penso que futebol, religião e política se discute, mas a questão é como vamos discutir, porque discutir exige pessoas que consigam falar e ouvir, dialogar."
Já o filósofo Aguinaldo Pavão considera natural o debate passional e o acirramento do discurso político em época de crises. "Isso é algo natural, ninguém deveria se surpreender com o fato de a política ser uma arena em que as paixões se exprimem travestidas de argumentos", opina. "Há um dado recorrente na história da humanidade: em época de crise política, as pessoas levantam o tom das vozes, e geralmente esse tom é de gritaria, de bate-boca em determinados níveis de discussões."
Com a expressão "níveis de discussão", o filósofo se refere, por exemplo, ao debate travado em redes sociais. "É perfeitamente normal as pessoas aumentarem o tom no Facebook, mas os líderes políticos não podem fazer isso, não podem incitar a raiva e a violência porque estão expostos na arena pública e então têm que ter um comportamento diferente, ter mais responsabilidade."
Nas postagens em redes sociais, afirma Pavão, "as pessoas ou estão pregando no deserto ou pregando para os convertidos". "É um nível mais de gritaria, de bate-boca." O nível mais elevado, diz ele, está em artigos publicados pela imprensa, por exemplo. "Há ótimos argumentos tanto a favor do impeachment como contra."

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