O PCC enfurnou a população, a taxa de desemprego cresceu, o Congresso não se emenda, mas o otimismo da socióloga e diretora de Pesquisa da ''TV Cultura'', Fátima Pacheco Jordão, é inabalável: o eleitor brasileiro não vai deixar isso por isso mesmo. Para uma especialista na arte de pesquisar, otimismo talvez seja impreciso. Fátima acompanha ponto a ponto as intenções de voto e a perspicácia de um eleitorado ciente dos efeitos da corrupção no dia-a-dia: ''Quando se fala em ambulância, a população sabe a falta que faz''. Por isso, diante de mais uma pesquisa Ibope indicando vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno, ela puxa o freio de mão. Acha que a volatilidade dos votos é grande, ainda mais com 38% de indecisos, a maioria mulheres, que escolhem seus candidatos nos acréscimos da prorrogação. A seguir os principais trechos da entrevista.

A última pesquisa do Ibope mostrou que, apesar da série de escândalos à volta, Lula venceria a disputa no primeiro turno. O presidente está, de fato, blindado?
Lula-candidato, contestado nas suas realizações, na sua aliança política atual, nas promessas que fez, esse ainda não apareceu. E só aparecerá em campanha. O processo eleitoral está no começo, e a volatilidade do voto poderá não confirmar o favoritismo do presidente. Ao mesmo tempo, a população não está muito interessada nos detalhes da corrupção, pois eles foram intensamente comunicados àqueles que lêem jornais ou possuem TV a cabo, não ao eleitor de baixa renda. Esse eleitor começa a enxergar o processo, tanto que já ligou Lula ao mensalão, no sentido de que ele sabia do escândalo e, por isso, tem sua parcela de responsabilidade. Mas essa conexão só deve clarear a partir do horário eleitoral.

Então a população deve rechaçar nas urnas os suspeitos de envolvimento com o mensalão, ainda que absolvidos pela Câmara?
A população vê a corrupção além da ética e da moralidade. Também percebe a impossibilidade dos serviços públicos. No caso dos sanguessugas, calcula quantas ambulâncias deixaram de ser oferecidas. Será interessante observar a reação do eleitor em relação ao candidato ao governo de Pernambuco, Humberto Costa, ex-ministro da Saúde de Lula. O presidente possui voto bastante distintivo no Nordeste. Quem vai influenciar mais: o pragmatismo da população, que viu melhorias no seu Estado, ou a suposta corrupção de um candidato? Não há um padrão nisso. A candidatura de Celso Pitta atravessou, na fase final, os precatórios. Para os eleitores, era complicado entender um procedimento de ordem fiscal-financeira que transferia dinheiro para um suposto caixa. Naquele momento, elegeram Pitta achando que não passava de um discurso eleitoral porque, se ele tivesse culpa, teria sido processado. E o foi, mas depois. Já na disputa entre Covas e Maluf, o primeiro usou contra o segundo a forte impressão de que Maluf estava associado à corrupção, isso sem entrar em detalhes, sem provar muita coisa. Pensemos o seguinte também: por que a mídia exibe as fotografias dos supostamente envolvidos? Não era hábito ser tão explícita em relação aos casos políticos. Provavelmente detectou uma pressão da sociedade em disponibilizar esse dado. Há candidatos nessa lista que respondem bem às suas bases, que gozarão de mais imunidade. Mas que terá algum efeito, terá. Ou seja, o eleitor, definitivamente, é ativo.

Há uma campanha intensa na internet a favor do voto nulo. Ela pega?
Não. É apenas num setor pequeno da classe média alta muito frustrado, que viu todas as suas esperanças revertidas. O eleitor gosta de votar, sabe que seu voto é importante, tanto que as pesquisas mostram um índice bastante baixo de declaração de nulo ou em branco. Espontaneamente ou estimulados, 9% indicam essa opção.

Quem são os 38% de indecisos identificados pela pesquisa?
Historicamente, as mulheres esperam mais pelo momento de formação da decisão. Se pegarmos esses 38% de indecisos, a grande maioria são mulheres. Elas usam seu meio principal, que é a TV, para comparar mais. Enquanto um mês antes das eleições os homens já consolidaram seus votos, até a véspera ainda sobram 10% de indecisos. Desses, 65% são mulheres. Se as eleições estiverem definidas a partir de pequenas porcentagens, são as mulheres que decidem. Por isso os marqueteiros utilizam nos últimos momentos certas manobras que impactam a mulher, seja o aborto da filha do Lula, seja a questão do ''estupra, mas não mata'' do Maluf. Ao vender uma proposta de saúde com atendimento geral, Marta Suplicy não se deu bem porque mostrou algo exagerado. A mulher, que conhece a realidade, não caiu nessa.

mockup