Curitiba - Presidente estadual do PSDB, o governador do Paraná Beto Richa (PSDB) estima que o partido pode, pelo menos, dobrar a quantidade atual de 40 prefeituras tucanas no Estado, nas eleições municipais de outubro. Embora reconheça que a participação corpo a corpo nos municípios do interior não deva ser tão intensa, por causa dos compromissos na administração, Beto deve ser um dos principais angariadores de voto para o partido.

Em entrevista à FOLHA, Beto também falou sobre a polêmica em torno dos aviões utilizados pela administração estadual, sobre o fechamento do escritório de representação em Brasília e o aumento no número de cargos comissionados durante o seu governo, além da mobilização dos policiais civis e militares, que podem entrar em greve. Em suas respostas, Beto não deixou de alfinetar seu antecessor, o hoje senador Roberto Requião (PMDB-PR), que constantemente tem se dedicado a criticar ações da atual gestão. Veja trechos da entrevista:


Tendo o senhor como principal figura do partido do Estado, o PSDB pode pensar em um bom crescimento nas eleições para prefeitos e vereadores deste ano?

Acredito que sim. O PSDB está bem organizado em todo o Estado. É natural que lideranças do interior tenham uma tendência em se aproximar do governo e o PMDB deu uma sorte danada porque isso sempre acontecia - e acho que até foi bom a lei segurar. Sempre os prefeitos migravam para o partido do governador, para estar mais próximos do poder e estabelecer com maior facilidade as parcerias administrativas. Com a proibição da troca de partidos sob pena de perda de mandato, os prefeitos ficaram. Então, com o último governador, o Requião, do PMDB, os prefeitos mudaram para o partido dele e ficaram presos. E o PSDB tem poucos prefeitos, então, até por isso, o crescimento é inevitável, embora tenhamos o compromisso de, em alguns municípios, apoiar candidatos de partidos aliados. Então a expectativa é muito grande. Acho que dá para dobrar.


E vai dar para conciliar o governo do Estado e a participação nas campanhas dos prefeitos?

Dá, sim. E disso não abro mão. Só vou participar de campanhas desde que não traga prejuízos aos meus afazeres, aos meus compromissos de governar o Estado. Isso já avisei a todos que me cobram. Posso gravar um depoimento, tirar uma fotografia, eventualmente ir a um município ou outro. Não vou ter tempo para circular todo o Estado.


Nacionalmente, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) tem defendido a realização de prévias pelo PSDB, para indicar o nome para concorrer à Presidência da República, em 2014. O que o senhor acha dessa proposta?

Eu acho que é uma boa proposta. Setores do PSDB defendem isso. O PSDB foi muito criticado nas eleições de 2006 quando a imprensa flagrou uma reunião, numa mesa de restaurante, quatro cardeais do partido indicando quem seria o candidato à Presidência. Então acho que é importante o maior número de pessoas participarem dessa decisão, termos prévias, convenções, até para que todos os segmentos do partido, a militância, os simpatizantes, os parlamentares se sintam responsáveis pela indicação. O partido está muito maduro, sabe o que quer e tem condições de fazer uma boa escolha.


O senador colocou inclusive o nome dele à disposição do partido para disputar a Presidência. O senhor o apoia?

É um direito de todos. Ele já participou uma vez, é um direito dele. Pode ser uma opção do partido.


E como está essa relação com o Alvaro, que continua afastado dos tucanos do Paraná?

É, ficou. Ele tem se dedicado mais aos compromissos dele em Brasília, como líder da oposição no Senado, tem se dedicado muito a isso. Acho que por isso ele não tem tido tempo para outros afazeres aqui no Estado, mas tem cumprido bem com seu papel em Brasília.


A atuação do PSDB na oposição tem recebido críticas, parece que faltam vozes para dar consistência aos tucanos. O que aconteceu com o partido?

É difícil avaliar porque o PSDB encolheu nas últimas eleições, sobretudo no Congresso. Elegemos o maior número de governadores, o maior número da história do PSDB (oito), inclusive em estados importantes, mas no Congresso encolheu, perdendo figuras ilustres, políticos conceituados, de muita credibilidade, combativos, que sabiam fazer oposição, se comunicavam bem com a sociedade, como o Arthur Virgílio, o Tasso Jereissati, muitos parlamentares de São Paulo não se reelegeram. Diante das possibilidades acho que o PSDB tem feito um bom trabalho de oposição no Congresso.


Outro senador paranaense, Roberto Requião (PMDB-PR) continua fazendo duras críticas a sua gestão...

Ele está irritado porque eu cortei a aposentadoria dele. Nós adotamos a Carta de Puebla, opção preferencial pelos pobres.


Como o senhor tem encarado essas críticas?

Dou risada. Se ele está me criticando é bom sinal, sinal de que estou no caminho certo e que o meu governo vai ser diferente do dele. Tem sido.


Uma reclamação dos deputados estaduais em relação ao Requião era a não liberação de emendas parlamentares. O senhor pretende cumprir a ''cota'' que foi estabelecida no fim do ano passado na Assembleia Legislativa, de R$ 2 milhões para cada deputado?

Nós estamos discutindo ainda com os deputados essa situação. O nosso governo é democrático, tem um bom convívio com a Assembleia, reconheço que são representantes legítimos da sociedade e estão sempre sugerindo investimentos nas suas regiões, trazendo demandas dos seus prefeitos. Sempre tive facilidade em ouvir e ser sensível a essas reivindicações, seja através de emendas - e isso não abro mão que seja dentro do planejamento de ações do governo - ou seja através de reivindicações que eles encaminham diretamente aos nossos secretários.


O governo estadual determinou o fechamento temporário do escritório de representação em Brasília. Esse tempo de desativação, até que uma nova lei seja enviada e aprovada pelos deputados, pode prejudicar os interesses do Paraná em Brasília?

De jeito nenhum. Neste início de ano as coisas não estão em um ritmo tão acelerado quanto nos demais meses do ano e a atitude foi tomada para se ajustar às exigências do Tribunal de Contas (TC) do Estado e ao Ministério Público (MP) do Estado. Devolvemos o dinheiro para a Copel, que foi julgado irregular, coisa que acontecia há anos, em governos anteriores. Não vou questionar a lei. O escritório teve um papel importante no primeiro ano do nosso governo na elaboração das emendas, reuniões quase que diárias com deputados, com o coordenador da bancada federal e o Alceni Guerra teve uma participação importante nesse processo. Tanto é que segundo o coordenador da bancada, em dez anos que ele está no Congresso, é a primeira vez que ele vê um governador sensibilizar a bancada para colocar emendas dentro das propostas do governo como aconteceu agora. Lamentavelmente não estão sendo empenhadas, mas teve uma boa aproximação com a bancada. Eu quando vou a Brasília tenho as audiências, vou direto nos ministérios, sempre aquela correria, evidente que o escritório é um apoio e o secretário que fica lá ajuda bastante, mas nesse período não vai ter prejuízo algum, não.


O governo estuda uma outra pessoa para o cargo ou o Alceni Guerra pode vir a reassumir a função?

Ele pediu o afastamento para cuidar de questões particulares e não sei se ele aceitaria voltar. Ele cumpriu um bom papel lá, tem credibilidade, tem um bom trânsito, conhece ali como poucos, as questões de governo e também de parlamento, esteve muito tempo nos dois lados.


Desde o início do seu governo, uma das maiores polêmicas tem sido o fretamento ou a compra de aviões...

Não sei por que essa polêmica. Eu não sei qual é a dúvida até agora sobre isso, tem muitas informações desencontradas. Eu não estou comprando avião nenhum, pelo contrário, estou alugando. Aí a diretoria da Copel entendeu por bem comprar um avião e me pediu autorização. Eu entendi as razões perfeitamente, os argumentos são aceitáveis da Copel, para ter mais agilidade. A Copel, no governo anterior, todos sabem, foi sufocada. Hoje a Copel participa de leilões de energia, construção de hidrelétricas no Mato Grosso, parques eólicos no Nordeste e eu não vejo por que a Copel, que é uma empresa com R$ 6 bilhões em caixa, não pode comprar um avião de R$ 15 milhões ou R$ 16 milhões. É uma hipocrisia sem tamanho o que meus adversários políticos querem implantar na opinião pública. E, se eventualmente, o governo precisar usar o avião da Copel, qual é o problema? Então não sei qual é a polêmica. Falaram que eu ia comprar mais quatro aviões, não é verdade.


Não foi nem cogitada essa hipótese?

Nunca. Para servir o governo, servir meu gabinete, nunca cogitei. Não sei de onde saiu isso.


Essa informação foi confirmada oficialmente pelo governo...

De comprar mais aviões?


Que teria um estudo para possibilitar essa compra.

Alguns helicópteros, para cumprir meu compromisso de campanha, de implantar os resgates aéreos em cidades polo do Estado, para cobrir todas as regiões do Estado. Se você ligar a televisão, nos canais de cobertura nacional, você vê toda tarde os helicópteros em São Paulo salvando vidas na cidade, nas estradas, então é fundamental esse resgate aéreo. É um avanço, uma modernidade do Estado. O Estado que tinha antes não precisava de nada disso, era administrado com discurso. Tanto que os resultados negativos estão aí, em todas as áreas. Pior segurança do Brasil, menor efetivo de policiais, pior situação prisional, tudo informações oficiais, não sou eu que estou inventando esses números. Então as coisas mudaram. Antes tinha um decreto governamental que só podia liberar o avião do Estado para buscar um órgão para transplante com a autorização do governador. Às vezes o governador estava viajando, não estava aqui, estava cavalgando... E aí? Isso é uma questão técnica, tem órgão vai buscar. Cancelei o decreto governamental que exigia autorização expressa do governador. Resultado: aumentamos em 70% o transporte de órgãos para transplante. Quantas vidas não foram salvas aí?


Também não há possibilidade de alugar mais aviões?

Se algum secretário meu ou alguma pessoa do governo falou, foi sem autorização minha. Nunca ouviu sequer um comentário, um estudo, um pensamento meu em relação à compra de aeronaves para servir o governador. Se alguém falou, comeu mamona. Nunca discuti isso com ninguém, nem por brincadeira.


Deputados de oposição criticam a dispensa de licitação feita para diversos serviços do Estado, como a compra de equipamentos de informática ou cópias de xerox. Por que essa opção?

São coisas que nem sei te dizer quais são os itens, mas são coisas que expressamente se dispensa licitação. Por exemplo, as armas Taurus que foram compradas pela nossa Secretaria de Estado da Segurança eram só aquela especificação que tinha. Todos os estados praticamente usam esse tipo de armamento. Eu não faço nada, não autorizo meus secretários a fazerem nada que não seja moral, ético e que não tenha a autorização da Procuradoria Geral do Estado. Agora, o mesmo partido deste que me acusa (referindo-se ao deputado estadual Tadeu Veneri, do PT) estava na capa do Estadão desta semana: o governo federal fez R$ 13 bilhões de compras sem licitação. O nosso é R$ 40 milhões. Convivo bem com o contraditório, acho que a oposição é importante até para a gente avançar, para trabalhar mais. Agora oposição como esse deputado faz eu não respeito. Oposição sistemática, adepto do quanto pior, melhor. Ele não está preocupado em fiscalizar, em cuidar das coisas do Estado, então tem coisa que não posso perder tempo com ele, porque eu tenho muito o que fazer.


No primeiro ano do seu mandato aumentou também o número de cargos comissionados. Por que a necessidade? São quantos comissionados do Estado?

Aproximadamente 4 mil cargos. O que interessa à sociedade é o quanto está custando isso, quanto o governo está investindo, se o governo está sendo bom, se está sendo responsável, austero na aplicação do recurso público. Eu tenho o Estado do tamanho suficiente para as transformações que eu quero fazer. As secretarias que nós temos, as agências que nós criamos, como a Agência de Defesa Agropecuária e a Agência de Desenvolvimento do Paraná. Isso precisa de uma estrutura para funcionar. Criamos a Secretaria do Esporte, permanente, que não tinha. Isso tudo precisa de pessoas.


O governo está negociando com os policiais civis e militares para que não haja uma greve das categorias. Durante esta semana o presidente da Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares (Amai), coronel Elizeu Furquim, cobrou a implantação da emenda 29 e disse que o senhor ''não pode ser um menino travesso'' com o que foi prometido em campanha. Como está essa relação com a categoria?

Promessa de tratá-los bem, com respeito e valorizar o trabalho deles, agora o que ele entende com isso... As negociações estão acontecendo. O coronel Furquim tem o temperamento um pouco forte, tem um histórico de ser muito radical nas cobranças, com outros governos inclusive. Os policiais sabem do meu compromisso em valorizar o trabalho deles, agora tem que se entender o seguinte: praticamente todas as categorias do funcionalismo querem aumentos, gratificações, benefícios, plano de cargos e salário. Eu pretendo valorizar todos os servidores, sei do papel fundamental deles para o bom andamento do governo. Mas o cobertor é curto. Eu não consigo atender todas as demandas de todas as categorias. Tenho procurado fazer um planejamento de ações, priorizar as categorias que estão mais defasadas e, especialmente em relação aos policiais, já disse a eles que vou valorizá-los sim, na medida do possível. O coronel Furquim foi meio açodado nessas críticas aí, desnecessárias.


Nas conversas com as concessionárias de pedágio surgiu a possibilidade de que novos pedágios sejam implantados no Estado?

Não tem nada previsto em relação a mais pedágios.


Quando começaram as negociações, um dos pontos a serem discutidos estava a redução da tarifa, que é o mais difícil pelo contrato que foi firmado no início da concessão. Uma tarifa mais barata só será possível com a possibilidade de implantação do free flow (cobrança do pedágio por quilômetro rodado)?

Estávamos aguardando para ver qual seria o resultado em São Paulo, que iria implantar. O importante é que o que eu anuncei em campanha eu estou fazendo. Despolitizei esse tema, a população já foi muito enganada em governos anteriores, com demagogia em véspera de eleição. Inclusive no trecho Medianeira-Matelândia, onde morreram as crianças, estava prevista a duplicação e a obrigação da obra foi retirada em um acordo político com os concessionários. Desde o início do governo estabelecemos uma conversa com os concessionários, fazendo prevalecer o interesse público e a retomada dos investimentos, pelo menos.
Começaram as obras de duplicação entre Medianeira e Matelândia, o trecho mais crítico da BR-277 no oeste do Estado. Ali a concessionária vai investir R$ 50 milhões. Conseguimos fazer valer a tabela de preços do DER, coisa que anteriormente eles não queriam, e reduzimos a Taxa Interna de Retorno (TIR), de 16,4% para 12%. Começam as obras agora de duplicação da BR-277 em Campo Largo, onde o fluxo de veículos é enorme, uma grande obra, R$ 70 milhões. E também começam já as obras agora do contorno rodoviário de Mandaguari, onde a Viapar vai investir R$ 90 milhões. E há anos estava pronta para fazer essa obra. O que faltava era o Estado cumprir com a sua obrigação, o que estamos fazendo agora, investindo R$ 5 milhões para desapropriação de 47 imóveis.
Eu não quero antecipar os trechos, mas estamos em discussão para em outras regiões também essas concessionárias começarem a fazer obras, inicialmente previstas para daqui três, quatro, cinco anos.


E a redução de tarifa é possível?

Estamos negociando ainda, mas o fato de se fazerem as obras é um investimento deles também. O que nunca foi feito na última década fizemos em um ano, começamos, além das obras em rodovias do Estado que estamos fazendo, manutenção e conservação, pacote agora de R$ 830 milhões para 10 mil quilômetros da malha estadual. Só a obra em Londrina vai ser R$ 110 milhões, 17 quilômetros com 15 viadutos.


Dos recursos federais prometidos para socorrer os municípios do litoral, depois das chuvas de março do ano passado, o que falta ser pago?

Foram prometidos R$ 25 milhões, vieram R$ 15 milhões. Mas o processo está andando. No início, conforme íamos fazendo as obras, prestando contas, iam liberando os recursos para 225 casas construídas, pavimentação, correção em alguns trechos... Agora deve vir o restante.

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