Em discurso no Senado, Lula faz desagravo a Sarney
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Gabriela Guerreiro e Ranier Bragon<br>Folhapress 
Brasília - Em ato de comemoração aos 25 anos da Constituição de 1988, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem uma homenagem pública ao também ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), dizendo que o peemedebista foi tão importante quanto Ulysses Guimarães (1916-1992) no processo de formulação da atual Carta Magna brasileira.
No período da montagem e promulgação da Constituição, Sarney era o presidente da República, Ulysses, presidente da Câmara dos Deputados, e Lula, um dos constituintes pelo PT, na época, oposição ao governo.
"Eu queria fazer reconhecimento de público. Ulysses Guimarães certamente foi o símbolo dessa Constituinte, coordenou com maestria numa situação muito difícil, em que o PMDB tinha 23 governadores e 306 constituintes, e que sozinho podia fazer o que queria. Eu tenho consciência que o senhor não teve facilidade, muito menos moleza. Quero colocar a sua presença na Presidência no período da Constituinte em igualdade de condições com o companheiro Ulysses Guimarães", discursou Lula no plenário do Senado.
Segundo o petista, o principal mérito de Sarney foi permitir que os constituintes fizessem livremente críticas a ele.
"Em nenhum momento, mesmo quando era afrontado no Congresso, o senhor levantou um único dedo, uma só palavra para criar qualquer dificuldades aos trabalhos da Constituinte, que certamente foi o trabalho mais extraordinário que o Congresso já viveu. (...) Por isso presidente Sarney, já que Ulysses não está entre nós, eu quero dizer claramente que o senhor merece a minha homenagem como comportamento digno como presidente da República, de permitir que nós disséssemos aqui dentro todos os desaforos que achávamos que tínhamos direito de falar contra o senhor", acrescentou Lula, se dirigindo a Sarney, que falara antes dele.
Apesar de o PT ter feito oposição ao governo Sarney e até hoje integrantes da legenda atacarem sua atuação política, Lula e o maranhense patrocinaram uma aliança que perdura até hoje após o petista chegar ao poder, em 2003.
Em sua fala, Lula também exaltou as políticas sociais do governo Dilma Rousseff e voltou a criticar aqueles que negam a política, dizendo que se os jovens e a imprensa tivessem lido biografias de presidentes como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, eles saberiam que a "avacalhação" de políticos
e da política resulta em ditadura.
"Na história desse País, se a juventude lesse a biografia do Getúlio, Juscelino e outras biografias, possivelmente as pessoas não iriam desprezar a política e muito menos a imprensa não ia avacalhar a política como avacalha hoje. (...) O que aparece quando se nega a política, é uma pessoa praticando ditadura, praticando políticas que não condizem com aquilo que nós acreditamos", afirmou.
As referências que Lula têm feito sobre a negação da política têm como alvo os protestos de rua contrário aos partidos políticos e o discurso defendido pela ex-senadora Marina Silva, para quem é preciso acabar com o atual modo de se fazer política no País.
Em sua fala, Lula não fez menção à sua declaração de 1993, cinco anos após a promulgação da Constituição, segundo a qual havia "300 picaretas" no Congresso.
Também participaram do ato no Senado o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e outros políticos que participaram da Constituinte. O hino nacional foi cantado por Fafá de Belém, tratada como "musa" da campanha das Diretas Já.
Collor
Convidados, os ex-presidentes Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) não compareceram à sessão. O tucano afirmou aos organizadores que não iria devido a uma diverticulite. Já Collor chegou à sessão quando não havia mais nenhum dos homenageados, e discursou para um plenário quase vazio.
Ex-presidente da República, o senador Collor (PTB-AL) disse ontem que o processo de impeachment que resultou em sua renúncia à Presidência da República em 1992 contribuiu para consolidar a Constituição Brasileira, aprovada quatro anos antes. Ele disse que preservou os princípios constitucionais mesmo sendo "alvo das mais insólitas campanhas". "Posso afirmar, portanto, que o processo de impeachment a que fui submetido, com minha participação direta e isenta, serviu para consolidar a Constituição, então com apenas quatro anos de vigência", afirmou.


