Em despedida, Ayres Britto diz que 'não cabe mau humor' a ministros
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Felipe Seligman, Márcio Falcão e Flávio Ferreira <br> <br> Folhapress 
Brasília - Em sua despedida da presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Carlos Ayres Britto afirmou ontem que não cabe mau humor aos integrantes da corte. O ministro, que se aposenta no domingo ao completar 70 anos, recomendou aos colegas ''viagem de alma e não de ego''. Ayres Britto também disse que o Supremo vem mudando o país e cobrou a defesa da Constituição.
''Não temos direito ao mau humor, tamanha o honra de servir ao nosso país de nossa casa de fazer o destino nacional. Devemos fazer viagem de alma e não de ego porque o Supremo interfere mais e mais no curso da vida, como deve ser, como fiel interprete de uma constituição concretista'', apontou. Segundo ele, é ''direito agrado do jurisdicionado saber que sua causa está com um juiz sereno''.
O ministro não fez referência a nenhum julgamento, mas disse que os colegas precisam atuar como verdadeiros guardiões da Constituição. ''O Supremo está mudando a cultura do país, a partir da Constituição, que quer essa mudança cultural. Nós somos os guardiões, os maiores, mais altos, e tiramos dessa guarda nossa própria legitimidade'', disse.
Nomeado em 2003 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Britto disse que os dez anos na corte passaram ''como um estalar dos dedos'' e que isso foi provocado justamente porque sempre esteve feliz. Chamado de ministro poeta, Britto afirmou que um juiz ''não precisa impor respeito, mais deve-se impor-se respeito''.
Decano do Supremo, Celso de Mello reclamou do sistema de aposentadoria compulsória e fez diversos elogios a Ayres Britto. Ele disse que as teses do colega serão eternizadas. ''Seus julgamentos luminosos tiveram impacto decisivo na vida dos cidadãos da República, na vida das instituições democráticas desse país. Os grandes juízes nunca desaparecem, eles permanecem na memória e no respeito dos jurisdicionários para sempre'', afirmou.
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que Ayres Britto simboliza da melhor forma o significado da República. Ele apontou ainda que, apesar da gestão ''efêmera'', ''desgraçadamente breve'', ele soube dar a ''densidade do eterno''. ''Cumpriu o prometido'', disse. Responsável pela denúncia do mensalão, Gurgel agradeceu a condução do processo. ''A eloquência da Justiça na condução magnífica do complexo julgamento da ação penal 470 (mensalão)'', disse.
Falando pelos advogados, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, disse que Ayres Britto vai ser lembrado por sua humanidade e frases de efeito. ''Vossa excelência deixa em todos nós a marca da importância do ser humano dentro de uma instituição. Vossa excelência sobrepôs sempre o humano sobre o jurista, o poeta, o ser. A vossa marca é o diálogo, a sensibilidade, respeito pelo próximo, pelo contrário, mas uma marca que marca é saber ouvi. Poucas pessoas têm o dom de ouvir e às vezes sem nem falar mudar o pensamento.''
O ministro Luis Inácio Adams (Advocacia Geral da União) destacou a originalidade de Ayres em seus votos. ''O último exemplo de lealdade é ser leal a si mesmo. Registro em nome da AGU e dos advogados públicos essa nossa homenagem nesse momento que é um rito de passagem. Não é o fim, todo fim tem um primeiro passo, e esse é o primeiro passo'', disse.


