São Paulo - O ex-ministro Antonio Palocci, homem forte dos governos do PT e fundador do partido, enviou na terça-feira, 26, à senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional da legenda, uma carta na qual oferece sua desfiliação e faz um duro relato pessoal, em tom emotivo, sobre o "acúmulo de eventos de corrupção" nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Em pouco mais de três páginas, Palocci provoca o que foi descrito por um alto dirigente petista como uma "hecatombe" ao dizer que viu Lula se dissociar do "menino retirante" e "sucumbir ao pior da política".

Ele conta detalhes sobre suposto pedido de propinas à Odebrecht na biblioteca do Palácio da Alvorada, compara o PT a uma "seita" submetida à "autoproclamação do 'homem mais honesto do País'" e sugere que o ex-presidente tenta transferir a responsabilidade por ilegalidades à ex-primeira-dama Marisa Letícia, morta em janeiro. Ele diz ainda que Dilma destruiu programas sociais e a economia e afirma que o PT precisa fazer um acordo de leniência se quiser se reconstruir.

Ao final, Palocci coloca nas mãos de Gleisi a decisão sobre sua desfiliação do partido. Na semana passada, o PT de Ribeirão Preto, pressionado pela direção nacional, abriu o processo de expulsão de Palocci. Na sexta-feira, o diretório nacional decidiu suspendê-lo provisoriamente por 60 dias.

Na carta, Palocci acusa o PT de só punir quem ataca o partido e seu líder máximo e ignorar as denúncias de corrupção contra petistas.

O Instituto Lula não havia respondido às acusações do ex-ministro até a conclusão desta edição. Segundo a assessoria do ex-presidente, Palocci apenas voltou a dizer "mentiras" contra Lula com o objetivo de fechar um acordo de delação premiada com a Lava Jato. Ontem Palocci completou exatamente um ano de cadeia. No texto ele confirma que está em negociação com o Ministério Público.

Gleisi respondeu com uma nota dura, na qual também acusa o ex-ministro de mentir para se safar da condenação de 12 anos e dois meses e 20 dias de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. "Política e moralmente, Palocci já está fora do PT", diz a nota da senadora.

'Traição'

Os demais dirigentes, parlamentares e ex-integrantes dos governos petistas evitaram comentar as novas acusações de Palocci. Sob a condição de anonimato, no entanto, muitos admitem que as punições internas ao ex-ministro foram um "tiro no pé" já que deram a Palocci mais um palco para disparar contra Lula e o partido. Quase todos demonstraram indignação com o que consideram uma "traição" do ex-ministro.

Para grande parte dos líderes petistas, a carta de Palocci é mais um elemento a dificultar a participação de Lula na eleição do ano que vem. Alguns chegaram a descrever o ataque do ex-ministro como o mais duro já sofrido pelo partido justamente por ter vindo de um de seus principais quadros.

Visto inicialmente com desconfiança por parte do PT - que o considerava de "direita" por privatizar serviços públicos quando foi prefeito de Ribeirão Preto - Palocci herdou o posto de coordenador do programa de Lula na campanha de 2002 após o assassinato de Celso Daniel. Rapidamente se tornou um dos principais nomes do governo petista, no qual desempenhou a função de fiador junto aos setores bancário e empresarial.

Vários petistas ouvidos nesta terça-feira admitiram que Palocci verbaliza avaliações internas de setores do partido como o suposto uso do nome de Marisa Letícia pela defesa de Lula, e dá verossimilhança a acusações já conhecidas como a da reunião com Dilma, Palocci e o ex-presidente da Petrobrás Sergio Gabrielli na biblioteca do Palácio da Alvorada. Mas dizem que Palocci "manipulou a verdade" em sua defesa.

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