Eleitores-pedintes lotam corredores da Câmara
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sábado, 28 de agosto de 2004
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Se a um mês e meio das eleições o marasmo na votação de projetos tem dado o tom às sessões ordinárias da Câmara de Vereadores de Londrina, o mesmo não se pode dizer dos gabinetes de grande parte dos 21 parlamentares nessa época. Em alguns deles, o espaço físico chega a ser insuficiente para comportar o grande número de pessoas em busca de todo tipo de benefício de passagens rodoviárias a cestas básicas, de materais de construção a cirurgias das mais variadas.
Apesar de a venda do voto ser condenada pela Lei Eleitoral (leia texto nesta página), outras formas veladas de tirar proveito desse tipo acabam surgindo aliadas à carência e à desinformação de muitos eleitores que fazem os pedidos especialmente no que se refere ao desconhecimento das atribuições do vereador.
A aposentada Ana Cardoso, 61, moradora do Cinco Conjuntos (Zona Norte), por exemplo, nos últimos dias aguardava ansiosa para ser atendida em um dos gabinetes, junto com outras duas pessoas. ''A gente é pobre, precisa de uma força. Já pedi ajuda para um vereador e quase tive que mendigar, porque ele queria me passar para outro'' comentou. Em outra oportunidade, continuou Ana, um parlamentar que já ocupou a presidência da Casa bancou todas as despesas do casamento do irmão. ''Nunca vou me esquecer desse favorzão dele'', admitiu.
No mesmo dia, mas aguardando outro vereador, a desempregada Simone dos Santos, 33, torcia para que a busca lhe resultasse na contratação de um advogado. O motivo, explicou, é o não recebimento do benefício a que teria direito em função de ter uma filha deficiente auditiva. Mesmo assim, Simone lembrou que outras vezes em que se deslocou do Jardim Imagawa, também na Zona Norte de Londrina, para a Câmara, foi prontamente atendida. ''Ganhei umas seis cestas básicas'', disse.
Ex-funcionário da Frente de Trabalho, o asfaltador Jorge Pereira de Almeida, 36, comentou que a procura por um dos vereadores para obter cesta básica tem dois motivos: o desemprego e o exemplo de vizinhos dele no Jardim Franciscato (Zona Sul). ''Tenho muito conhecido lá que já ganhou, mas é tudo 'debaixo de um quieto''', observou.
Eleitor do mesmo vereador em quem a aposentada Ana Cardoso diz votar, o desempregado Milton Luiz de Souza, 49, garantiu já ter recebido benefício semelhante ao dela, além ''das cestas básicas e dos remédios que sempre me dá''. ''Ele já arcou com o casamento da minha filha. Se pede para eu votar nele? Sim, claro mas creio que se elegendo ou não, vai continuar me ajudando'', acredita Souza. Procurado pela Folha, o vereador insistiu em negar a proposição e em argumentar que, sempre que possível, encaminha casos desses à assessoria comunitária da Câmara. ''A algumas pessoas dou assessoria jurídica, mas não passa disso'', garantiu.
A cena de eleitores à espera de ajuda material se repete por pelo menos mais três gabinetes, em um corredor com seis deles. Com o IPTU atrasado em mãos, a dona-de-casa Maria Castro de Melo, 56, era uma das que seguia na fila por uma solução em dinheiro ou em auxílio jurídico para a conta atrasada. ''Tenho R$ 1,3 mil para pagar de IPTU e gostaria que esse vereador me ajudasse. A eleição passada ele foi em casa, pediu para eu votar nele e disse que me ajudaria quando eu precisasse'', recordou, frisando que era o terceiro dia que procurava o vereador. Como até o final daquela tarde o vereador não havia retornado à Câmara, a reportagem não teve acesso à solução para a dona-de-casa. Mas ela prometeu retornar no dia seguinte.


