Eleitores pedem de cesta básica a festa de formatura
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quarta-feira, 18 de setembro de 2002
Marcos Espíndola<BR>Reportagem Local 
Uma cesta básica, uma casa, um muro, a festa de formatura e até mesmo um sorriso novo. Na festa da democracia, muitos eleitores não fazem cerimônia na hora de angariar um benefício imediato junto aos candidatos. Nos comitês eleitorais os pedidos formam pilhas nas mesas. Vale tudo, da dentadura ao emprego e até a cadeira de rodas. Nem mesmo a legislação eleitoral que prega o rigor no combate ao crime eleitoral é capaz de inibir o ímpeto dos pedintes, ora levados pela necessidade, ora pelo oportunismo.
O bilhete enviado por Jucimeri Regina Giufrida, 20 anos, a um comitê eleitoral é um exemplo. Ela pede material de construção, incluindo pisos, telhas e um vaso sanitário, para reformar a casa onde reside com a mãe e a irmã de oito anos no Jardim Franciscato (zona sul de Londrina). A filha, com menos de um ano de idade e doente, está na casa dos avós maternos. A única renda da família vem do trabalho temporário de Jucimeri como cabo eleitoral e da ajuda dos vizinhos, também carentes. ''Nossa situação é de desespero.''
No comitê onde Jucimeri foi pedir socorro, listam-se outras dezenas de pedidos. ''É o reflexo da situação de carência em que se encontra boa parte da população'', diz a assessora de imprensa de um candidato, Fernanda Prado. Ela relata pedidos como o pagamento de contas de luz, telefones e até cartão de crédito.
Para ela, muitos recorrem aos comitês na esperança de ver resolvido um problema particular e imediato, dispensando o real valor do trabalho de um parlamentar. ''Nós orientamos a procurar os órgãos e entidades que podem dar algum atendimento'', garante. ''O deputado por si só não dá, mas abre portas.''
Nas filas formadas diariamente nos principais comitês de campanhas, há também os oportunistas. São os chamados ''ratos de comitês''. Gente que percorre os comitês pedindo chapéus, adesivos, camisetas e brindes. ''Teve um senhor que ligou oferecendo um muro para utilizarmos na publicidade do candidato. O imóvel era bem localizado, só que no final da conversa ele revelou o detalhe: queria que construíssemos o muro para ele'', diz um coordenador de campanha, que pediu para não ser indentificado.
Entre os absurdos, ele cita o caso de uma outra pessoa que se colocou à disposição, desde que a coordenação quitasse o Imposto Sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) do carro em atraso há quatro anos, além de retificar o motor e trocar os quatro pneus.
''Tem aqueles que se dizem lideranças comunitárias e que se propõe a arrumar de 15 a 20 mil votos para o candidato. Aí nós temos que sugerir para que eles se candidatem'', comenta Oscar Alberto Bordin, coordenador regional de uma candidatura ao governo do Estado.
Para Bordin, o problema é cultural e não apenas econômico ou social. ''Criou-se uma cultura de que os políticos tem que resolver a situação particular de determinadas pessoas. A função do parlamentar é detectar o problema sim, mas encontrar resoluções macro.''


