Eleitores demonstram conformismo com candidaturas únicas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Fábio Cavazotti<BR>Reportagem Local 
A falta de alternativas políticas nos municípios que contam com apenas uma candidatura às prefeituras é encarada por grande parte dos eleitores com naturalidade. A maioria das pessoas ouvidas ontem pela FOLHA nas ruas de Miraselva e Prado Ferreira (região norte), cidades que contam com apenas um postulante ao Executivo, vêem a situação com conformismo e resignação. Já os críticos das candidaturas únicas crêem que a ausência de oposição gera prejuízo para o desenvolvimento da cidade.
Entre os dois grupos é possível observar uma nítida diferença: os conformados se encontram entre o eleitorado mais idoso, e os críticos, entre os jovens. Os eleitores contrários às candidaturas únicas resistem a revelar seus nomes temendo represálias no município. Em todo o Paraná, 17 cidades contam com apenas uma candidatura à prefeitura - nenhuma delas de oposição.
''Eu acho bom do jeito que está. Com um candidato, a 'briguinha' acaba. Em cidade pequena, não adianta inventar muita coisa'', resume o comerciante de Miraselva, João Alves de Souza. O aposentado Francisco Custódio, concorda com o conterrâneo. ''Assim dá menos problema e o povo já sabe em que vai votar'', disse.
O professor Adriano César Faria também acredita que em cidades pequenas não faz muita diferença o número de candidaturas. ''Interfere em pouca coisa. Da última vez tiveram dois candidatos e o mesmo grupo ganhou.''
Em Miraselva, uma crítica aberta à candidatura única vem do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, João Humberto Biguetti. ''Eu acho que deveria ter uma segunda opção para a população escolher. Não é por crítica ao candidato, mas para o bem do futuro do município.''
Em Prado Ferreira, uma jovem eleitora que se manteve no anonimato afirmou que ''duas candidaturas, pelo menos, iam forçar mais propostas para a cidade''.''Mas a população nem está ligando, o povo é muito acomodado.'' Outra jovem eleitora disse que muita gente vai votar no candidato único porque ''não há outra opção''.
O candidato derrotado por três vezes à prefeitura de Miraselva, Pedro Tolovi (PMDB), desistiu de competir este ano ao Executivo - e disputa uma vaga na Câmara. Ele conta que durante o período em que foi candidato ao Executivo, muitos aliados ficaram ''marcados''. ''Se alguém vê a pessoa entrando na minha casa, depois tem qualquer pedido negado na prefeitura. E como na cidade pequena todo mundo depende do poder público, a coisa aperta'', explica. ''Com o tempo, você fica sem grupo e sozinho não adianta disputar. Por isso, resolvi mudar desta vez.''
Mudanças
Uma situação curiosa nos municípios com apenas um candidato é a crença coletiva de que o eleito precisa da maioria dos votos - o que é negado pela Justiça Eleitoral. De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), com apenas um voto válido o candidato já pode ser eleito. A versão corrente é encarada por uma fonte da FOLHA como forma de ''forçar'' a população a endossar o nome do candidato para dar mais legitimidade à disputa.
O advogado e presidente da Comissão de Administração Pública da subseção londrinense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luis Hassegawa, afirmou - com base nas informações do TRE - que é favorável à revisão das normas eleitorais para as candidaturas únicas. ''Eu acho que seria interessante ter uma votação mínima. Desse jeito fica uma lacuna perigosa e dá a sensação de falta de legitimidade'', afirmou. De acordo com ele, as oposições são importantes para levantar o confronto das idéias. ''Com candidato único, cria-se uma acomodação muito ruim.''


