Eleitor só vota em FHC porque tem medo
João Arruda
Folha - Faltando 30 dias para as eleições, como o sr. avalia a receptividade à sua candidatura?
Ciro Gomes - Quando eu aceitei o desafio de me apresentar para candidato o cenário era muito semelhante ao que está hoje. De um lado, você tinha um candidato à reeleição afirmando a possibilidade de ganhar no primeiro turno. De outro, o principal candidato da oposição consentida, já marcado para perder, desanimado; e o País, que em vez de olhar para o futuro e discutir os complexos temas de emprego, saúde, educação, política agrícola, integração internacional, se vê obrigado a votar olhando pelo retrovisor, com medo de perder o real. Ninguém está apaixonado pelo candidato favorito nas pesquisas. Isso cria um cenário em que se você tiver paciência, disciplina, humildade e se dispuser a procurar a população para ponderar um diagnóstico correto da crise, e se comprometer com clareza com o real - que eu ajudei a fazer - você pode, por causa desse pouco entusiasmo, reverter o processo. O eleitor de Fernando Henrique não tem o menor amor, o menor afeto por ele, e está votando utilitariamente, com medo de perder o real, justamente porque o governo tem tido eficácia em passar essa chantagem de que é ele ou o caos. O único candidato que está em campanha efetiva sou eu. Cada dia estou numa região do País, visito de três a quatro cidades por dia no Brasil inteiro, semeando aí esta idéia, e ela está pegando. Não é que as pessoas acreditem que eu vá ganhar, mas já cresce consistentemente a percepção de que há um candidato preparado. Não raras vezes ouço as pessoas dizendo assim: Olha, você é o melhor, não vai ganhar desta vez, mas na próxima será o favorito.
Folha - E como o sr. recebe a observação de que não será desta vez?
Ciro - O que eu digo é que a minha proposta é ganhar agora.
E lembre que quem faz o candidato ganhar é você e não os institutos de pesquisa, a máquina etc. E assim é que funciona o processo. A imagem vai na frente da adesão. O processo de escolha funciona um pouco assim: primeiro, você se coloca na prateleira de opções, e eu estou tendo um êxito extraordinário nisto, algo que até pouco há tempo atrás eu não tinha. Havia um grande desconhecimento, havia um certo bloqueio da grande mídia, porque interessa ao governo e aos seus tentáculos do grande poder econômico que essa polarização se fixe entre FHC e o Lula, para reproduzir a eleição de 94: o real e o Fernando Henrique contra o inimigo do real e o Lula, uma situação favorecida pela carga de preconceito e a falta de consistência programática do PT. Eu tenho bastante entusiasmo, nunca entrei nisso alimentando ilusões de que fosse fácil, é um desafio extraordinário.
Folha - Que fatores concretos levam o sr. a acreditar que pode mesmo vencer estas eleições?
Ciro - De onde eu tiro isso? Sou experiente, tenho 18 anos de vida pública, participei de muitas eleições conheço muito essa mecânica. Hoje você tem assim: Fernando Henrique 100% conhecido, preferência ao redor de 40%, rejeição ao redor de 32%. Lula, 100% conhecido, preferência ao redor de 25%, rejeição ao redor de 50%. Eu, 40% conhecido e todo o dia aumentando, preferência ao redor de 10% (10% no Datafolha e 7% no Ibope), rejeição 13%.
O governo me vigia a toda hora porque sabe que daqui pode vir a novidade. Qual é, portanto, o meu desafio? É projetar 100% de conhecimento com o mesmo nível de adesão. Eu posso ganhar a eleição no primeiro turno, teoricamente. É claro que o tempo conspira contra mim e as restrições ao esforço de me fazer conhecido também funcionam contra. Mas é um esforço que tem que ser paciente, diligente e humildemente posto.
Folha - Mas este não seria o discurso possível hoje do Ciro candidato?
Ciro - Não há razão para enganar ninguém. As pessoas só vão votar em mim se me perceberem como um homem honesto. Não vou pendurar uma melância no pescoço, não vou incendiar na televisão, não vou caminhar o caminho fácil da promessa demagógica e da denúncia ressentida, que poderiam me dar imediatamente uma maior visibilidade. Se eu fosse para a televisão e dissesse: Seu Fernando Henrique, o sr. é um f.d.p, ladrão, no dia seguinte todos os jornais me dariam a primeira página. Não faria, até porque não penso isso, ok?
Folha - Então, vamos fazer as contas: o sr. foi eleito prefeito de Fortaleza em 88, com 29 anos, o prefeito de capital mais jovem da história; foi eleito governador do Ceará em 90, o mais jovem governador do Brasil, com 32 anos; foi Ministro da Fazenda com 36 anos, o mais jovem Ministro da Fazenda da História. E agora, com quanto anos acha, efetivamente, que chegará à Presidência?
Ciro - Com 41 anos. Quer dizer, eu vou ser eleito com 40, mas faço 41 no próximo dia 6 de novembro.





