Eleitor é mais crítico e seletivo, diz analista
Apesar da amostragem feita pela Folha sobre a possibilidade dos londrinenses repetirem os votos dados nas últimas eleições não ter nenhum caráter de pesquisa ou obedecido padrões técnicos, o resultado pode ser avaliado, segundo dois cientistas políticos consultados pela reportagem, como um ''profundo descontentamento'' dos eleitores com os atuais governantes e uma ''vontade de renovação''.
Para o cientista político Mário Sérgio Lepre, o fato de sete entre dez londrinenses afirmarem que não deverão repetir os votos, tem que ser analisado dentro de um contexto municipal. ''Londrina é uma cidade em que, ao contrário das localidades que dão mais apoio ao atual presidente, a classe média é forte. Observe que, nas amostras coletadas para todo o Brasil, o presidente Lula tem muita dificuldade de penetração na chamada 'classe média'. Londrina sofre influência significativa do agronegócio, extremamente prejudicado na gestão Lula'', analisou Lepre. ''Sobre o governo do Estado, um ponto significativo é o fato de que Londrina nunca foi a praia de (Roberto) Requião e, se dependesse apenas do londrinense, o atual governador não teria sido eleito. Requião, no governo, teria que reverter esta posição e mostrar muito além do que foi mostrado para conquistar um público que não é seu'', complementou. ''Estamos diante de um profundo descontentamento. Aqueles que concorrem à reeleição têm o bônus da máquina pública para cooptar interesses políticos, mas também têm o ônus de não ter correspondido às expectativas da população. Hoje o eleitorado, principalmente nos grandes centros - Londrina incluída - é mais crítico e seletivo'', concluiu Lepre.
O professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Oliveira, lembrou que a própria reeleição foi criada em meio a denúncias de corrupção. ''Temos que lembrar que a reeleição foi estabelecida pelo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) com denúncias de cooptação entre os parlamentares para que apoiassem a reeleição. Independente de nomes e partidos, a reeleição não promoveu melhorias no sistema político partidário. Além do mais, gerou grande complexidade uma vez que não há limites entre o ocupante do poder e o candidato. Há uma área de incerteza jurídica, política, e administrativa'', disse.
Na avaliação de Oliveira, o fato das pessoas estarem descontentes com os que detém mandato reflete que o eleitor está atento à atuação dos políticos. ''Quase todos os escândalos têm a participação de políticos que estão há muito tempo em Brasília. Os últimos escândalos são transpartidários, transgovernamentais. Uma coisa é certa, são políticos que continuaram no poder, seria um reflexo. A população está percebendo que muitos parlamentares enriquecem de maneira acentuada exercendo a vida inteira somente cargos políticos. Não é possível alguém ter reunido fortuna apenas com a remuneração parlamentar ou política'', finalizou. (C.O.)





