Uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) comprovou o que há muito se sabe: o eleitor brasileiro tem memória curta. A pesquisa a primeira a fazer este tipo de análise no País foi realizada com 2.513 pessoas, dois meses após as eleições de outubro de 2002, e divulgada no último mês. Somente 45% dos entrevistados se lembraram do nome correto do candidato em que votaram para o cargo de deputado federal. O número fica ainda mais preocupante se comparado a pesquisas idênticas realizadas em Portugal, onde este índice chega a 70%, ou entre os alemães, 90%, e húngaros, 99%.
A pesquisa ainda apontou que 30% dos brasileiros que participaram das eleições de 2002 não se lembram em quem votaram para deputado estadual. A lembrança do eleitorado demonstrou índices bem melhores para os cargos de presidente e governador, onde o esquecimento foi de 1% e 3% respectivamente.
''Realmente a memória do brasileiro em relação ao Legislativo é muito pequena. No voto para o Executivo (presidente, prefeito e governador) a lembrança é maior. Isso é ruim por causa da falta de sedimentação dos partidos políticos no Brasil. Os partidos não tem tradição, pior se há uma troca partidária, que acontece muito'', analisou a professora de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Luzia Herrmann Oliveira.
Segundo a pesquisa, coordenada pelo cientista político Antonio Carlos de Almeida, ''região, capital, sexo e idade não estão relacionadas com a lembrança do voto, mas a escolaridade está''. Dentre os que se esqueceram em quem votaram para deputado federal em 2002, 47% não tinham instrução. Dentre os que tinham escolaridade em nível superior ou mais, o esquecimento foi de 16%.
Conforme a professora, o ''esquecimento'' do brasileiro, além de uma questão cultural, é ''institucional''. ''Na Alemanha o voto é distrital partidário, uma lista fechada onde o eleitor sabe em que partido está votando. No Brasil, as pessoas votam na pessoa e pode acontecer de acabar de ser eleita e mudar de partido. Outra coisa que acontece é votar em candidato sem saber em que partido está'', justificou. ''Se você não sabe em quem votou, não sabe como estão votando lá no Congresso. Tem muita relação o voto do eleitor com o que está sendo feito'', complementou Luzia.
Para a professora, o baixo índice de lembrança do voto do brasileiro é também reflexo do recente processo democrático vivido pelo País. ''Nosso processo de democracia começou por volta de 1988. A democracia vai mudando a cultura das pessoas, que passam a debater, discutir as organizações políticas e tendem a melhorar a percepção democrática. Mas a legislação e a reforma política também são muito importantes. O sistema partidário brasileiro tem uma relação muito fluída'', concluiu.

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