Eleições 'sem concorrência' desmotivam eleitorado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
As 17 cidades paranaenses que tiveram um só candidato a prefeito na votação do último dia 5 registraram um índice total de abstenções, votos nulos e brancos, entre 10% a 15% maior que nos municípios onde houve concorrência. O levantamento foi feito pela FOLHA a partir dos dados divulgados pela Justiça Eleitoral. Como o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) não faz a sistematização dos resultados das eleições municipais, a reportagem escolheu, de forma aleatória, dez municípios com população de até 10 mil habitantes - perfil semelhante às 17 cidades que tiveram um só candidato.
Resultado: onde houve concorrência, a soma das abstenções com os votos brancos e nulos atingiu média de 18% - ou seja, 82% dos eleitores foram às urnas e escolheram um dos candidatos. Onde não houve concorrência, a somatória das abstenções com os votos brancos e nulos chegou a 30% - indicando que somente 70% dos eleitores votaram no candidato que foi eleito. Em alguns casos, até 40% dos eleitores não participaram da escolha.
As 17 cidades com candidato único - e o índice total de abstenções, brancos e nulos - são: Arapuã (18%), Bom Jesus do Sul (30%), Cafeara (22%), Cruz Machado (32%), Douradina (32%), Inajá (22%), Itaúna do Sul (37%), Jardim Olinda (34%), Loanda (33%), Miraselva (13%), Nova Esperança do Sudoeste (35%), Paraíso do Norte (40%), Paula Freitas (29%), Prado Ferreira (30%), Salto do Lontra (39%),
Três Barras do Paraná (35%) e Tupãssi (25%). A lista representa 4,26% dos municípios do Estado. Em 100% dessas cidades, a candidatura única é situacionista - em 70% dos casos o atual prefeito se reelegeu.
Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Adriano Codato, a eleição com apenas um candidato ao Executivo ''é a pior coisa que pode ter na democracia''. ''Quando a oposição não consegue reunir forças para lançar um desafiante, o prefeito fica em situação extremamente confortável, mas para o eleitor é horrível. Ele fica sem opção de escolha'', avaliou.
Codato acredita que a candidatura única só acontece em localidades pequenas, onde a maior parte da atividade econômica depende dos recursos distribuídos pela prefeitura. ''Essas cidades vivem do Fundo de Participação dos Municípios. Então, o prefeito exerce um poder de pressão muito grande. Ele acaba conseguindo formar uma espécie de clube político que faz a cooptação dos vereadores de oposição, ou neutraliza suas ações.''
Na avaliação do cientista político, porém, a monopolização do poder tende a se romper no médio prazo. ''Ao longo do tempo, normalmente ocorrem fraturas dentro desse grupo. As pessoas se separam e a tendência é que elas passem a disputar o poder nas próximas eleições'', disse.


