Um ponto comum entre os processos que levaram à cassação dos ex-prefeitos de Londrina Barbosa Neto e Antonio Belinati foi o período eleitoral. Belinati foi cassado quatro meses antes das eleições municipais de 2000 e Barbosa três meses antes do pleito de outubro. Porém, longe de serem vítimas das perversidades da política, dizem especialistas ouvidos pela FOLHA, ambos seriam atores de longo enredo. ‘‘Se não fosse uma sucessão de escândalos, o mero interesse eleitoral dos vereadores não seria suficiente para a cassação. A sociedade civil e a opinião pública não dariam suporte a isso’’, avalia Elve Cenci, professor do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
  O que transparece nos dois processos é a atuação tardia da Câmara. Belinati conseguiu manter o chamado ‘‘rolo compressor’’, arquivando investigações mesmo quando o Ministério Público já aponta um esquema milionário de desvios por meio de licitações fraudulentas na então Autarquia de Ambiente (AMA) e na Companhia de Urbanização (Comurb). Barbosa, mesmo sem uma maioria estável, conseguiu arquivar a abertura de duas comissões processantes em 2011. ‘‘O escândalo na Saúde (de maio de 2011) foi muito mais grave. Talvez a Câmara não devesse ter sido omissa naquele momento’’, opina Cenci. ‘‘Se a Câmara estivesse vigilante do ponto de vista ético, teria motivos para levar Barbosa à cassação em momentos anteriores e não necessariamente agora, por uma situação, em tese, menor (que outros escândalos). O mesmo ocorreu 12 anos atrás’’, avalia outro professor do departamento de filosofia da UEL, Clodomiro Bannwart.
  Porém, para eles, mesmo tendo o jogo político como pano de fundo, as cassações de mandatos de prefeitos envolvidos em desvios de dinheiro público representam o fortalecimento das instituições. ‘‘Representa o aperfeiçoamento das instituições democráticas. O Ministério Público e Câmara funcionam. O cidadão se sente valorizado’’, comenta Bannwart. Seu colega destaca o efeito pedagógico das cassações. ‘‘Há um aprendizado e uma lição. Se o prefeito tem problemas, ele pode ser cassado em Londrina, o que não acontece em outras cidades. E a função da opinião pública é apoiar o prefeito, mas, ao mesmo tempo ficar na jugular dele o tempo todo, porque vai lidar com dinheiro público.’’

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