ELEIÇÕES - Governadores tucanos se afastam de Lula
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sábado, 15 de maio de 2004
Silvio Bressan<br> Agência Estado 
São Paulo - Mais do que alterar o mapa político eleitoral nas principais capitais do País, a candidatura José Serra para a Prefeitura de São Paulo, lançada na quinta-feira passada, deve acabar de vez com a lua-de-mel entre os governadores do PSDB e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E um dos primeiros a ensaiar o novo discurso foi o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, um dos tucanos mais próximos do presidente Lula. ''Nós estamos preocupados com governabilidade, mas também percebemos que, com Serra, o PSDB passa a viver um grande momento e que o PT nos elegeu como inimigos'', afirma Aécio.
Apesar de comandar oito Estados (São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Ceará, Pará, Paraíba, Tocantins e Goiás), os tucanos ainda não têm candidatos na maioria das capitais. Pior do que isso, em algumas cidades a ausência do PSDB na disputa pode fortalecer candidatos do PT ou da base aliada, o que daria um novo fôlego para o governo Lula, inclusive na disputa pela reeleição em 2006.
Nesse contexto, a candidatura Serra serviria como um marco divisório no partido daqui para a frente. ''O PSDB tem um propósito de voltar ao poder em 2006 e uma vitória de Serra, pela sua repercussão nacional, servirá também como um julgamento do governo Lula'', destaca Aécio.
O assunto, aliás, foi discutido entre Aécio e os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin, e de Goiás, Marconi Perillo, num almoço no Palácio dos Bandeirantes, poucas horas antes do lançamento da candidatura Serra na Câmara Municipal. Alckmin, que já havia criticado Lula há duas semanas pelo aumento de R$ 20 no salário mínimo, e Aécio estavam preocupados com a possibilidade de Perillo apoiar a reeleição do prefeito Marcos Wilson (PT) em Goiânia.
Em troca do apoio, o governador goiano receberia verbas da União para algumas obras. As negociações para o acordo entre tucanos e petistas estariam avançadas, sendo conduzidas pelo próprio governador e o presidente Lula, que às vezes é representado pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Sem candidatos naturais, Perillo estaria entre apoiar o prefeito ou patrocinar a candidatura de algum aliado, como os deputados federais Sandes Júnior (PP), Barbosa Neto (PSDB) e Vilmar Rocha (PFL).
Além de resolver a incômoda situação em Goiás, os governadores tucanos querem aproveitar a candidatura Serra para enquadrar alguns senadores, que resistem concorrer nas capitais. É o caso de Eduardo Azeredo (MG) em Belo Horizonte, Almir Gabriel (PA) em Belém e Teotônio Vilela (AL) em Maceió. A situação dos três guarda algumas semelhanças com o episódio Serra em São Paulo. Com eles na disputa, o PSDB deve atrair vários partidos e polarizar a disputa com o PT. Sem eles, no caso de Minas e Pará, os governadores tucanos correm o risco de perder, durante o período eleitoral, boa parte do arco de alianças que sustenta suas administrações.
O recado que a partir de agora será dado pela cúpula tucana é resumido pelo presidente do PSDB de Minas e vice-líder da bancada na Câmara, Nárcio Rodrigues. ''Não está mais em jogo a vontade pessoal, mas uma disputa de poder e é preciso assumir o projeto do partido'', adverte o deputado.
Para o parlamentar mineiro, não há nada que represente melhor esse novo momento do partido do que a candidatura Serra. ''Se o presidente do partido abre mão de suas pretensões pessoais para se atirar num projeto nacional, os outros também ficam com a obrigação de pensar no País'', anota Nárcio. ''Depois do que o Serra fez, ninguém mais pode pensar em si.''


