O Partido dos Trabalhadores (PT) que vai hoje às urnas para escolher seu presidente nacional e renovar as direções em todo o País tem sobre a estrela vermelha um holofote muito além do conflito entre facções. Na primeira eleição direta da história de um partido brasileiro, aberta a todos os filiados e com 883 urnas eletrônicas cedidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), está em jogo o rumo da legenda para 2002, ano da escolha do sucessor de Fernando Henrique Cardoso.

Não é pouco. O teste para a consolidação da hegemonia dos moderados no PT põe na berlinda o tom do programa de governo e a política de alianças que vão nortear a campanha do provável candidato petista à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva. ''O resultado desta eleição vai clarear o perfil do PT para 2002'', resume o deputado José Genoino, presidente interino do partido.

Seis candidatos disputam o comando nacional do PT. O franco favorito é o deputado José Dirceu (SP), presidente licenciado, que concorre ao quarto mandato. A dúvida é saber se ele ganha hoje, no primeiro turno, ou se a disputa vai arrastar-se para o segundo round. Motivo: como se trata de uma eleição em que 861.953 filiados estão aptos a votar, e não se sabe quantos comparecerão (o quórum mínimo é de 15%, ou 129.292), o resultado é imprevisível.

Quem ameaça a vitória do moderado Dirceu no primeiro turno é o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont, da Democracia Socialista, facção de ''esquerda'' na seara ideológica petista. Na ''cola'' de Pont está outro gaúcho: Júlio Quadros, presidente do PT do Rio Grande do Sul e dirigente da Articulação de Esquerda. Para vencer hoje, o candidato precisa ter 50% mais um dos votos válidos, que excluem os nulos e em branco. Caso contrário, haverá segundo turno no dia 7 de outubro.

Ninguém sabe ao certo qual será o efeito da renúncia do vereador José Fortunatti (RS) e para onde migrarão seus votos. Descontente com o PT e de malas prontas para o PDT de Leonel Brizola, Fortunatti desistiu do páreo há duas semanas. No seu lugar foi registrado às pressas o deputado Ricardo Berzoini (SP), que hoje preside o diretório paulistano. O radical Markus Sokol e o deputado Tilden Santiago (MG) mais bombeiro do que incendiário completam o time dos candidatos que tentam o comando nacional do Partido dos Trabalhadores.

Dirceu associa a vitória do PT ao Planalto à sua reeleição. ''Quero continuar o trabalho que iniciamos para levar Lula a governar o Brasil'', diz. ''Só ganhamos em 2002 com Dirceu na presidência: ele é um animal político e simboliza a maturidade do partido de conviver com suas correntes'', devolve Lula. Não por acaso, a chapa de Dirceu foi batizada de ''Um outro Brasil é possível'', mesmo nome do programa econômico do PT light, que prevê metas de inflação e a renegociação da dívida externa.

O deputado sustenta que o PT não perdeu as raízes e ''mudou sem mudar de lado''. Para ele, algumas propostas apresentadas por seus companheiros não combinam com o perfil de quem quer administrar o País. ''Há teses que pregam ''Fora FHC'', ''Fora FMI'' e ''não pagamento da dívida externa'', lembra. ''Eles vão governar o Brasil com esse programa?'', questiona. (Colaborou Uilson Paiva)

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